Leigh Griffiths anotou um lindo gol de falta nesta quarta-feira, durante a vitória do Celtic por 5 a 0 sobre o Kalju, na fase preliminar da Champions League. O peso do tento, no entanto, não se restringe à sua beleza ou à competição em que aconteceu. Ele representou o reencontro do artilheiro com as redes após oito meses em jejum. Durante este período, o centroavante ficou afastado dos gramados para cuidar de sua saúde. E não era uma mera lesão física que o escocês precisou tratar: Griffiths vinha sofrendo de depressão e outros problemas ligados à sua saúde mental. Em dezembro, ganhou o apoio do clube para dar um tempo no futebol. Justamente no primeiro jogo como titular desde então, veio o grande sinal de sua volta por cima. Na comemoração da pintura, ele levou as mãos ao rosto e se ajoelhou no gramado.

“Palavras não podem descrever como foi boa a sensação de ver as redes balançando. Meus filhos estavam me assistindo em casa, alguns amigos estavam nas arquibancadas. Eu quase chorei, não vou mentir. Muitas coisas se passaram na minha cabeça. Foi um trabalho muito duro para chegar até aqui, pensei nas pessoas que me ajudaram”, declarou Griffiths, após a partida. “Agradeço aos meus companheiros e a todos ligados ao clube, assim como à minha família. Não fosse por eles, eu não estaria de volta. Espero que este seja o começo para mais gols”.

Griffiths afirmou que seu gol contra o Kalju está em pé de igualdade aos tentos que marcou no clássico contra a Inglaterra em 2017, os mais famosos de sua trajetória profissional. Dentro de Wembley, o atacante anotou duas pinturas em cobranças de falta, buscando o empate por 2 a 2 à seleção escocesa, em jogo válido pelas Eliminatórias da Copa de 2018. O novo golaço vale como uma enorme conquista pessoal.

O técnico Neil Lennon também felicitou Griffiths, especialmente diante da ovação que a torcida do Celtic ofereceu ao centroavante nas arquibancadas de Parkhead. “Fico muito contente por ele. Leigh fez o que mais sabe. Ele tem uma grande habilidade, é um artilheiro nato. E, para ser justo, a recepção que ele ganhou dos companheiros, dos torcedores e do clube me deixa muito orgulhoso. Leigh ainda precisa trabalhar um pouco mais seu condicionamento físico, mas o gol dará confiança. Você percebe o tanto que isso significa a ele.”, apontou o comandante. Lennon já tinha utilizado o atacante na fase anterior da Champions, mas apenas no segundo tempo. Ao que parece, ele está pronto também para retomar sua titularidade.

Quando Griffiths recebeu a permissão para se afastar do grupo, em dezembro de 2018, o Celtic ainda era treinado por Brendan Rodgers. Na época, o comandante não revelou exatamente qual era o problema do centroavante, mas indicou que o entrave estava ligado à saúde mental. Perguntado sobre os rumores de que o vício em apostas seria a razão para a pausa na carreira, o técnico garantiu que era “algo maior, culminando em diferentes aspectos” e definiu que seu atleta possuía um “estado emocional vulnerável”.

Além do apoio interno, a própria torcida alviverde mandou sua mensagem de carinho em Parkhead. “Tudo bem em não estar bem. Você nunca andará sozinho, Leigh”, dizia uma faixa erguida pelos ultras do clube. Aos nove minutos da partida contra o Red Bull Salzburg pela Liga Europa, os torcedores homenagearam e aplaudiram o camisa 9. Na época, através do site do Celtic, Griffiths escreveu uma carta agradecendo as manifestações favoráveis. De longe, o artilheiro pôde ver os companheiros conquistando a tríplice coroa do futebol escocês.

Já nesta semana, antes da partida contra o Kalju, Griffiths participou da coletiva de imprensa e fez um discurso encorajador sobre a necessidade de se levar a depressão a sério: “Foram momentos muito difíceis, muito solitários. Estou tentando me abrir mais agora. Não quero guardar as coisas para mim, preciso falar com as pessoas. Independentemente de quem for, se tiver algo na minha mente eu direi. Afinal, não quero voltar à situação em que estava. Olhando para o que vem acontecendo na sociedade, muitas pessoas estão tirando a própria vida. Talvez, se conseguirem se abrir e falar um pouco mais, isso pode salvá-las. Então, qualquer um que esteja sofrendo e queira falar, abra-se. Há muitas pessoas dispostas a ajudar”.

“É ótimo poder dividir o campo com os rapazes novamente. Foi um processo lento, que estava me tomando. Brendan viu isso e deu um passo à frente. Eu devo agradecê-lo. Se ele não tivesse visto, quem sabe o que teria acontecido comigo? Estou tentando olhar para frente agora, ser mais positivo e disputar mais partidas. Foi uma caminhada longa e difícil, mas felizmente há uma luz no fim do túnel. Quando Lennon assumiu, eu senti um grande alívio, porque ele também passou por isso. Ele disse que esta temporada será meu recomeço, para mostrar a todos que ainda posso ser um jogador de elite. É isso que pretendo fazer. A recepção de volta em Parkhead foi incrível. Eu me arrepiei. Era um momento pelo qual esperei bastante”, completou.

Reconhecido por seus gols nos clássicos contra o Rangers e também pelas provocações aos rivais, Griffiths ressaltou que a ajuda não se restringiu apenas aos fãs do Celtic. “Recebi o apoio não apenas dos torcedores do Celtic, mas de pessoas de toda a Escócia. Torcedores rivais que me veem como um oponente em campo, mas que longe disso percebem o pai que tenta cuidar de sua família. É bom ver que os torcedores podem deixar a rivalidade de lado”, assinalou o centroavante, que possui cinco filhos.

Com passagens por Livingston, Dundee, Wolverhampton e Hibernian, Griffiths está no Celtic desde 2014. O atacante de 28 anos soma 104 gols em 201 partidas pelos Bhoys. Além de ter erguido a taça do Campeonato Escocês em seis oportunidades, também foi eleito o melhor jogador da temporada em 2015/16, quando terminou como artilheiro da liga. Já pela seleção escocesa, o centroavante anotou quatro tentos em 19 aparições.