Mudar exige coragem. A zona de conforto é um local… confortável e, geralmente, mesmo estando clara a necessidade de uma guinada brusca de direção, o salto ao desconhecido demora. Ninguém sabe disso melhor do que o Arsenal. A Era Wenger havia passado por uma inconveniente mutação, de inovações, modernidade e belo futebol à confiável mediocridade. Com toda a reverência que o francês ainda merece, o clube demorou para tomar a decisão de contratar um novo técnico.

Quem também provou as delícias e angústias das novidades foi o Chelsea. Depois de ser campeão muitas vezes nos últimos 15 anos com equipes que atuavam de uma maneira similar, verticais e sólidas na retaguarda, contratou Maurizio Sarri para fornecer uma experiência diferente ao seu torcedor, processo que exigiria tempo e muita paciência.

As duas rupturas caminharam em paralelo ao longo da temporada até se cruzarem, na próxima quarta-feira, em Baku, em busca do título da Liga Europa. Cada uma com suas dificuldades e méritos particulares e apontando para o futuro, com mais ou menos otimismo.

Não foi em novembro: foi em abril

Unai Emery, à sombra de Arsène Wenger (Foto: Getty Images)

Após 22 anos sem fazer esta pergunta, o Arsenal precisou se indagar: qual o treinador devemos contratar? A imprensa inglesa indica que a questão foi realmente bastante ponderada pela diretoria. Oito candidatos ao cargo foram entrevistados, e Unai Emery venceu o seletivo, com sua fama de obcecado por detalhes, apaixonado por futebol e um bom currículo.

A escolha levantou algumas sobrancelhas na época porque Emery vinha de um trabalho no qual mostrou estar aquém dos requisitos para um projeto tão gigantesco quanto o do Paris Saint-Germain. Mas, olhando por outro ponto de vista, era um casamento interessante.

O treinador tinha se provado vencedor com o tricampeonato da Liga Europa pelo Sevilla e havia experimentado o mais alto patamar do futebol europeu, embora com resultados contestáveis – perdeu um título francês para o Monaco e foi eliminado duas vezes na Champions League, sob circunstâncias indesejáveis.

Havia caído na primeira tentativa de dar um salto na sua carreira, mas tinhas os predicados e o potencial. Merecia a chance de tentar novamente. E era isso que o Arsenal precisava, após anos em que Arsène Wenger parecia acomodado, saturado e estafado: um homem talentoso com a fome de alcançar grandes feitos que o seu antecessor um dia teve.

E, também, um treinador que em seus melhores dias demonstrou a capacidade de colocar os seus times além do que a lógica concluiria pela análise de elenco e recursos financeiros. Há dinheiro no Arsenal, mas não no mesmo nível dos principais adversários domésticos, como Manchester City e Manchester United, mesmo o Liverpool e, um pouco menos, o Chelsea.

Era uma segunda oportunidade para Emery se provar, desta vez em um clube com condições de estar no primeiro escalão, mas que há algum tempo contentava-se com um sólido quarto lugar na Premier League e alguma bagunça nas copas. Mas bastava uma rápida lembrança do calvário do Manchester United após a saída de Alex Ferguson, que persiste até hoje, para ter certeza de que seria difícil.

Entre os ativistas pela saída de Wenger e os que advogavam sua permanência, Emery teria que equilibrar uma torcida dividida, um elenco desequilibrado e encarar a missão de invadir as quatro primeiras posições da Premier League. O único lado bom do contexto é que, salvo um enorme desastre, ele teria um pouco de benevolência dos críticos justamente pela dimensão da tarefa.

O mercado trouxe uma leve mudança de perfil, com a chegada de um pouco de experiência que o Arsenal precisava, nas figuras de Lichtsteiner e Sokratis, além das promessas de sempre, como Matteo Guendouzi e Lucas Torreira, as duas principais revelações da temporada.

A tabela não foi muito legal com Emery, colocando pela frente o Manchester City e o Chelsea, fora de casa, logo nas primeiras rodadas da Premier League. Duas derrotas nesses jogos não o abalaram, e o Arsenal emendou 11 vitórias seguidas por todas as competições na sequência, e 14 partidas de invencibilidade pela Premier League, estabelecendo a sua briga por uma vaga entre os quatro primeiros.

Nesse processo, um fantasma foi exorcizado do Emirates. Aquelas estatísticas malucas apontavam que o pior momento de Wenger na Premier League era novembro, com uma média de pontos menor do que outros meses. Roteiro batido: a temporada começava bem e saía dos trilhos depois do Dia das Bruxas. Mas o Arsenal não perdeu tanto o embalo e conseguiu ficar invicto em novembro, com dois empates em casa, contra Liverpool e Wolverhampton, adversários honrosos, e vitória diante do Bournemouth.

Após a virada do ano, o Arsenal seguiu firme na briga por vaga na Champions League, com oito vitórias em 13 rodadas até o primeiro dia de abril, e os analistas começavam a dar seus pitacos sobre as principais diferenças entre Wenger e Emery, tentando ir além das óbvias distinções de personalidade. O espanhol parecia mais próximo dos torcedores, com uma presença forte nas redes sociais, um tom menos professoral e muito mais energia no banco de reservas durante as partidas, em contraste com as dificuldades que o francês encontrava para fechar o zíper do seu casaco.

Ex-jogadores da Sky Sports apontaram uma mudança drástica de atmosfera no Emirates, o que foi corroborado pelos resultados: àquela altura, o Arsenal ainda poderia alcançar 50 pontos como mandante, o que seria a melhor campanha do clube em casa na história da Premire League, superando os Invencíveis de 2003/04. Alexandre Lacazette também citou o ambiente e disse que os jogadores se sentiam “mais confiantes e sabiam o que tinham que fazer”.

Na 31ª rodada, o Arsenal estava no quarto lugar, com os mesmos 60 pontos do Chelsea, e a quatro de alcançar o rival Tottenham, terceiro colocado. O que ele não sabia, porém, é que a maldição de novembro havia apenas sido transferida para abril.

A grande frustração da temporada dos Gunners é que não era necessário fazer muita coisa nas últimas rodadas para terminar a Premier League em quarto lugar porque o Tottenham também viu a sua forma ser deteriorada. Dois pontos a mais, com uma tabela longe de ser complicada, seriam suficientes.

Primeiro, veio uma derrota para o Everton em Goodison Park, resultado até normal porque tudo que o Arsenal jogava bem dentro de casa jogava mal fora dela, com apenas a oitava melhor campanha como visitante. Ganhou um raro jogo na estrada contra o Watford, antes de entrar de vez em um espiral negativo.

A cinco rodadas do fim, o Arsenal passou quatro sem vencer, incluindo dois jogos no Emirates, o alçapão que vinha alavancando a sua campanha. As derrotas para Wolverhampton e Leicester (3 a 1 e 3 a 0, respectivamente) foram pesadas pela maneira como o time foi dominado pelo adversário, mas os pontos que realmente custaram a vaga na Champions foram perdidos contra o Crystal Palace e o Brighton, diante dos seus torcedores. Quando chegou a partida final, diante do Burnley, a vaca já havia deitado.

As copas inglesas não trouxeram alívio, com uma eliminação precoce para o Manchester United na Copa da Inglaterra, ainda na quarta rodada, e para o Tottenham, nas quartas de final da Copa da Liga. O sucesso veio na Liga Europa, na qual o time apresentou o seu melhor futebol. Aplicou 3 a 0 sobre o Rennes para anular o susto do jogo de ida, fora de casa, em que foi derrotado por 3 a 1, e passou com velocidade de cruzeiro por Napoli e Valencia, com quatro vitórias, marcando a final contra o Chelsea.

Algumas notícias foram boas. Além da dupla de meias jovem e talentosa, Lacazette e Aubameyang combinaram para 50 gols na temporada. A campanha no Emirates, apesar dos tropeços nas últimas duas partidas, foi excelente, e o time se mostrou um pouco mais enérgico e competitivo nos grandes jogos. Mas especialmente a defesa continuou sendo um ponto fraco e o setor que merecerá mais atenção na próxima janela de transferências.

O que preocupa o torcedor do Arsenal é que, fritados todos os ovos, o resultado final da temporada é muito parecido ao dos últimos dois anos da passagem de Wenger. Nem uma espiada na briga pelo título. Fora da zona de classificação à Champions League. E, embora pior nas copas inglesas, também uma boa campanha na Liga Europa, como a semifinal com a qual o francês se despediu.

A diferença é que, com mais um jogo pela frente, Emery tem a chance de conquistar um título europeu e, por meio dele, garantir participação na próxima Champions. A vitória em Baku daria um saldo bem positivo para a primeira temporada pós- Wenger. Sem ela, o resultado seria aceitável, diante das dificuldades, mas o torcedor do Arsenal, tão castigado recentemente, espera uma rápida evolução na próxima temporada e resultados diferentes, depois que seu clube parou de fazer as mesmas coisas de sempre.

Sarriball

Sarri chupando bituca de cigarro porque não pode fumar nos estádios da Inglaterra (Foto: Getty Images)

Às vezes dava certo, e o time jogava bem e era campeão, às vezes dava errado, mas o Chelsea, desde a primeira passagem de José Mourinho, no início do projeto de Roman Abramovich, teve uma identidade: com algumas exceções na trajetória, foi mais reativo e baseado em uma grande defesa.

A contratação de Maurizio Sarri foi uma tentativa drástica de mudar de direção. O treinador ficou famoso na Itália por um Napoli que tocava a bola por música e sempre propunha o jogo. Seria uma transição difícil, que exigiria paciência. Se lhe fosse apresentado, antes de a temporada começar, o terceiro lugar na Premier League e a final da Liga Europa, o Chelsea teria aceitado de bom grado.

No entanto, a maneira como chegou a esses resultados foi conturbada e coloca em dúvida a permanência de Sarri, diante de um suposto interesse da Juventus e de críticas de muitos dos torcedores que, ironicamente, consideraram chato o futebol apresentado pelo treinador contratado justamente para buscar um estilo mais ofensivo. “F*** Sarriball” foi entoado várias vezes em Stamford Bridge.

Os problemas, na verdade, começaram ainda na pré-temporada. O Chelsea não queria mais Antonio Conte, mas, em vez de demiti-lo imediatamente, tentou forçar a sua saída para não precisar pagar a multa rescisória – e, por decisão judicial, acabou tendo que pagá-la. Isso significou que, enquanto os adversários aproveitaram as férias para fazer contratações, os Blues tinham um treinador “pato manco”, jargão para o político que ainda tem tempo de mandato, mas todo mundo sabe que não continuará mais naquele cargo.

Conte chegou a comandar os primeiros dias da pré-temporada, antes da apresentação de Sarri, em meados de julho. O italiano chegou junto de uma peça chave para a sua empreitada. O meia Jorginho, letrado em Sarriball nos tempos de Napoli, foi contratado para traduzir o estilo do treinador para os seus companheiros. Foi o principal reforço da janela. Kovacic veio por empréstimo para compor elenco, e Kepa substituiu Courtois, vendido ao Real Madrid. Muito pouco para um clube que propunha uma revolução.

Um pouco do segredo pode estar na distância que o dono Roman Abramovich cultivou do clube nesta temporada. Não é de hoje que os assuntos do dia a dia são conduzidos por Marina Granovskaia, braço-direito do magnata russo, que não apareceu em público em nenhum dos jogos do Chelsea nesta temporada, o que é bem incomum desde que comprou o clube. Em maio do ano passado, Abramovich não conseguiu renovar o seu visto de residência no Reino Unido, tirou passaporte israelense e se mudou para Tel-Aviv. Espera-se que ele apareça na final em Baku.

Quando estamos falando de Abramovich, o histórico sugere o contrário, mas Sarri poderia ter usado o apoio do manda-chuva do Chelsea quando os previsíveis soluços de uma mudança radical de estilo de jogo começaram a aparecer. E Sarri pode ter sido um pouco vítima do próprio sucesso porque contrariou as expectativas. Esperava-se que começasse mal e talvez terminasse bem. Mas começou bem, com cinco vitórias seguidas, 12 rodadas de invencibilidade na Premier League e eliminando o Liverpool na Copa da Liga Inglesa.

Mas o ano novo não trouxe boas notícias para o Chelsea. O time começou a sentir uma dificuldade muito grande para fazer gol. O próprio Sarri admitiu que havia um problema de “determinação e agressividade” nas duas grandes áreas. Como é inerente à sua característica, ficava tempo demais no campo do adversário, mas sem criar chances de perigo, com exceção dos coelhos que Hazard tirou da cartola quase todas as semanas.

Com a saída de Morata, cronicamente incapaz de converter as chances que apareciam, o Chelsea buscou Higuaín para tentar encontrar os gols que lhe faltavam – e que continuaram faltando: o argentino terminou com apenas cinco em 14 rodadas. Sarri terminou janeiro dizendo que seus jogadores eram “difíceis de serem motivados” e sendo goleado pelo Bournemouth, e ele mal podia imaginar o que fevereiro lhe reservava.

O Chelsea levou outra pesada goleada, por 6 a 0, para o Manchester City e foi eliminado pelo United nas oitavas de final da Copa da Inglaterra. Não bastassem as más notícias em campo, a Fifa anunciou, a dois dias da final da Copa da Liga Inglesa, o que clube ficaria proibido de fazer contratações até 2020, por irregularidades com jogadores menores de idade. O clube era sexto colocado, embora com um jogo a menos que o United, a três pontos do Arsenal e a dez do Tottenham.

Foi quando as críticas das arquibancadas ficaram mais ferozes. Os torcedores não toleravam a teimosia de Sarri, que se recusava a fazer ajustes no estilo de jogo que consideravam chato, e criticavam sua previsibilidade, sempre escalando o mesmo time e fazendo as mesmas substituições. Queriam ver Loftus-Cheek e Hudson-Odoi ganhando mais minutos.

A grande ironia é que Sarri abriu mão de suas convicções para enfrentar o Manchester City na final da Copa da Liga. Não fez questão de disputar a posse de bola, defendeu mais recuado, esticou os passes e conseguiu chegar à disputa por pênaltis, com chances de vencer. Mas eis que, nos minutos finais da prorrogação, Kepa recusou-se a ser substituído por Caballero, expondo o treinador italiano a um vexame público – e, em seguida, frangando um pênalti de Agüero. O City acabou sendo campeão.

Aquele foi o momento de maior fragilidade de Sarri à frente do Chelsea, e havia dúvidas se ele terminaria a temporada. Os resultados depois da crise com Kepa não foram excelentes, seis vitórias e quatro empates em 12 rodadas, mas, combinados com as derrocadas de Arsenal e Tottenham, serviram para que o clube terminasse em terceiro lugar.

O sorteio contribuiu para a caminhada na Liga Europa. O Chelsea enfrentou os menos badalados Malmö, Dínamo Kiev e um bravo Slavia Praga antes de precisar dos pênaltis para despachar o Eintracht Frankfurt na semifinal. Ganhou a oportunidade de conquistar mais uma vez a competição europeia, o que seria o primeiro título de Sarri e, junto com a campanha na Premier League, um resultado bem acima do que se imaginava no começo da temporada.

Poderia ser uma boa base sobre a qual construir daqui para frente, se tudo isso não tivesse sido alcançado às custas de muitos desgastes na relação entre o treinador, a torcida e alguns jogadores. Além da possibilidade de ter que começar outro projeto do zero, com um novo treinador, Eden Hazard, autor e 16 gols e 15 assistências na Premier League, deve ir embora e muito provavelmente a punição da Fifa não será revertida. Campeão ou não, o futuro do Chelsea é incerto.