Após o declínio com Eusebio di Francesco e o período interino de Claudio Ranieri, a Roma precisava escolher um técnico para se reconstruir na próxima temporada. Gian Piero Gasperini era o primeiro nome na lista dos giallorossi, diante de seu trabalho fantástico na Atalanta, mas o veterano preferiu continuar em Bérgamo. O treinador contratado pelos romanistas, ainda assim, se apresenta como uma opção interessante. Paulo Fonseca recolocou o Shakhtar Donetsk no topo do Campeonato Ucraniano e emendou três dobradinhas nacionais consecutivas. Chega com moral para conduzir o trabalho em Trigoria. Foi confirmado nesta terça pela diretoria como o novo comandante dos italianos.

Zagueiro de carreira modesta, Paulo Fonseca acumula bons trabalhos em sua trajetória como treinador. O primeiro grande feito aconteceu à frente do Paços de Ferreira, classificado à Liga dos Campeões após terminar na terceira colocação do Campeonato Português. A campanha surpreendente levou o comandante ao Porto, onde não engrenou, sem sequer terminar a temporada. Todavia, ganharia uma chance no Braga em 2015/16 e, campeão da Taça de Portugal em cima dos portistas, abriu portas no leste europeu. Foi quando arrumou as suas malas e assumiu o desafio de substituir Mircea Lucescu no Shakhtar.

Paulo Fonseca tinha vários obstáculos a superar. O mais óbvio era realizar a própria transição após a saída de Lucescu, um comandante que mudou o Shakhtar de patamar. Apesar disso, o time andava em baixa e lidava com as limitações causadas pela guerra no leste da Ucrânia. Além de deixar Donetsk, também viu o conflito impactar nas finanças do magnata Rinat Akhmetov e na atratividade do clube no mercado. Os investimentos vinham sendo mais modestos e os Kroty não tinha acertado os seus ponteiros. Depois do pentacampeonato nacional estabelecido em 2013/14, o Dynamo Kiev faturou os dois títulos posteriores.

Não demorou muito para que Paulo Fonseca colocasse ordem na casa. Conseguiu recuperar a competitividade do Shakhtar e voltou a emendar vitórias na liga nacional. Deu espaço a jogadores antes escanteados por Lucescu e também passou a promover a ascensão de novos talentos. O Shakhtar retornou ao Brasil para explorar possibilidades. Com isso, o treinador faturou o tricampeonato da liga e o tricampeonato da copa. Também fez campanhas dignas nas competições europeias, avançando aos mata-matas em duas edições da Liga Europa e em uma da Liga dos Campeões. Não fossem as eliminações precoces, poderia ter um reconhecimento maior além das fronteiras. De qualquer maneira, despachou o Napoli na fase de grupos da Champions 2017/18, antes de dar trabalho à própria Roma nas oitavas de final.

A Roma surge como um passo natural para Paulo Fonseca. Se a empreitada no Porto não deu certo, o sucesso na Ucrânia demonstra que ele merece outra oportunidade em centros maiores. Seu desafio neste momento será lidar com o ambiente conturbado em Trigoria, considerando as decisões contestáveis da diretoria. Entre mudanças e despedidas, os giallorossi precisam de um novo rumo. E precisam também de um treinador que consiga extrair algo a mais do time, diante das muitas apostas que não vingaram ao longo dos últimos meses. Não será simples, levando em conta o crescimento dos concorrentes na Serie A. Conquistar a classificação à Liga dos Campeões na próxima temporada já seria um feito ao comandante.

Algo importante na avaliação feita pelo clube, Paulo Fonseca aplica um estilo de jogo mais ofensivo em suas equipes. Seu Shakhtar se acostumou a atuar pressionando os adversários e atacando com velocidade. De certa maneira, se aproxima mais dos ideais que vinham sendo aplicados por Di Francesco e dos almejados com Gasperini. Porém, o entrave maior será arrumar o sistema defensivo, que não transmite confiança faz um bom tempo. Novas peças também serão necessárias, considerando o baixo rendimento de alguns jogadores no setor. E há a pressão natural em um clube que já vinha investindo bastante, mas não alcançou os resultados esperados durante os últimos meses.

As palavras iniciais são de otimismo. Paulo Fonseca deixou expressa a sua expectativa alta para trabalhar na Itália: “Estou muito contente por ser apontado como treinador da Roma. Quero agradecer a diretoria pela oportunidade que me deram. Estou empolgado e motivado para a tarefa. Mal posso esperar para conhecer nossos torcedores e começar o trabalho. Juntos, acredito que podemos criar algo especial”.

Enquanto isso, o presidente James Pallotta ressaltou justamente o peso que a mentalidade ofensiva do português tem em sua escolha: “Estamos maravilhados em dar boas-vindas a Paulo Fonseca. É um treinador jovem e ambicioso, com experiência internacional, mentalidade vencedora e uma reputação de futebol arrojado que irá animar nossos torcedores. Desde as primeiras conversas, ele deixou claro que gostaria de vir para Roma e está empolgado com o desafio de trabalhar com nossos jogadores, para criar um time do qual a torcida possa se orgulhar”.

Antes de pegar embalo, no entanto, Paulo Fonseca precisará colocar ordem na casa. E os problemas constantes da Roma são motivos para naturais reticências. O lusitano terá que se provar no dia a dia, com um nível de cobrança só parecido àquele que encontrou no Estádio do Dragão. O futebol ofensivo e seu bom trato com os jovens tendem a se tornar trunfos importantes nestes primeiros meses de adaptação.