“Hei de torcer, torcer, torcer. Hei de torcer até morrer, morrer, morrer”. Assim começa um dos hinos mais belos do futebol brasileiro. A obra-prima de Lamartine Babo foi escrita em tempos nos quais o America se impunha como potência na então capital federal. E que, nos dias atuais, representa o espírito de luta do torcedor alvirrubro. Afinal, o Diabo passou quatro anos no inferno. Longe da elite do Campeonato Carioca desde 2011, o clube penou na segunda divisão, com muitos infortúnios e dificuldades internas. Para, enfim, soltar o grito da garganta nesta quarta. A vitória por 2 a 0 sobre o Americano garantiu a festa no Estádio Giulitte Coutinho e o acesso à primeira divisão estadual em 2016.

A primeira tentativa de retorno do America veio em 2012, quando o time fez uma campanha medíocre na segundona e acabou na 13ª colocação geral. No ano seguinte, o maior drama, quando disputou o triangular final contra Bonsucesso e Cabofriense, brigando por uma das duas vagas. Por um ponto, os alvirrubros não conseguiram. Por fim, em 2014, outro desempenho insuficiente da equipe, na 11ª posição. Fracassos seguidos que incomodaram os torcedores e que só acabaram superados desta vez.

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O America não conquistou nenhum dos dois turnos da segunda divisão, mas fez uma das melhores campanhas gerais e se garantiu no triangular decisivo. E sem dar chances ao azar. Sobrando na tabela ao lado da Portuguesa da Ilha do Governador, o Mequinha consumou a vaga na elite com duas rodadas de antecedência. Léo Rocha e Ramón foram os heróis de uma tarde inesquecível no Giulitte Coutinho, garantindo a vitória sobre o Americano. Apenas 1090 torcedores foram testemunhas oculares da façanha. O que não impediu a enorme festa nas arquibancadas e da exaltação de vários alvirrubros ilustres nas redes sociais, como Romário.

Depois de se frustrar com uma parceria que atrapalhou demais o time em 2014, o America apostou em vários medalhões para se reerguer neste ano. A extensa lista de nomes tarimbados inclui os atacantes Somália e Jean, o meio-campista Abedi e os defensores Fábio Braz e Wagner Diniz – todos figurinhas bem conhecidas dos torcedores cariocas. A mescla entre experiência e jogadores da base deu liga. Durante a pré-temporada, o Diabo venceu 11 dos 14 jogos que fez, batendo até mesmo o Botafogo e empatado com o Shadong Luneng. Já na partida decisiva contra o Americano, Somália e Fábio Braz foram titulares na equipe de Ricardo Cruz – que assumiu o time durante o campeonato, no lugar de Arthurzinho.

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Mais do que conquistar o acesso, o America também busca montar um projeto sustentável. Léo Almada assumiu a presidência no lugar que seria de Romário, desistindo para tomar posse como senador. Para sanar as dívidas do clube e manter os salários em dia, os alvirrubros criaram até mesmo um programa para sócio-torcedores. A ideia é se manter na primeira divisão do estadual, ao contrário do que aconteceu em 2009, quando Romário comandou o time dentro e fora de campo na segundona, mas o rebaixamento se repetiu dois anos depois.

Por tradição, o lugar do America é mesmo a elite do Cariocão. A história do Diabo é imensa, com sete títulos estaduais e grandes jogadores – incluindo Belfort Duarte, Danilo Alvim, Canário, Edu Coimbra e Luisinho Lemos. A questão maior é se superar em uma realidade totalmente hostil aos pequenos, em que o peso da camisa não garante dinheiro e a federação negligencia qualquer apoio. O jeito é se virar para sobreviver e ir além do uso do estadual como única fonte de renda no ano. Para 2016, o objetivo do Mequinha é ao menos se manter na elite ou, quem sabe, beliscar uma vaguinha na Série D. Porém, no momento, os alvirrubros estão no direito de comemorar e pensar no título da segundona, que disputarão contra a Portuguesa. Longe do peso das conquistas de “1913, 1916 e 1922”, como recorda o hino, mas já um alívio enorme após quatro anos de sofrimento.