A morte da torcedora Sahar Khodayari, no início de setembro, provocou a urgência necessária à discussão sobre a presença de mulheres nos estádios iranianos. A proibição vigora desde 1981 e não apenas gera frequentes manifestações nos torneios internacionais em que a seleção iraniana figura, como também possui uma coleção ainda maior de arbitrariedades cometidas pela lei islâmica do país. No entanto, a história extrema da “garota azul” (chamada assim por causa das cores de seu clube) gerou uma série de reações contundentes pelo episódio. E a resposta virá nesta quinta-feira: pela primeira vez em quase 40 anos, as mulheres estarão livres para ver o jogo do Irã pelas Eliminatórias da Copa.

Como é frequente no Irã, Sahar Khodayari havia entrado no Estádio Azadi disfarçada como homem. Ela assistia ao jogo do Esteghlal contra o Al Ain, pela Liga dos Campeões da Ásia, quando foi detida pela polícia em março. Após passar de dois a três dias atrás das grades, a torcedora ganhou a liberdade, mas descobriu em setembro que poderia enfrentar seis meses de prisão por “cometer um ato pecaminoso ao aparecer em público sem hijab e insultar oficiais”. Então, a mulher de 29 anos ateou fogo em si diante do tribunal. Faleceu dias depois, com queimaduras em 90% do corpo.

A história de Sahar Khodayari gerou uma enorme comoção internacional. Desde que chegou à presidência da Fifa, Gianni Infantino estabeleceu conversas com o Irã sobre o fim da proibição às mulheres nos estádios, mas os avanços eram mínimos. Quando o cartola assistiu in loco ao clássico entre Esteghlal e Persepolis, inclusive, 35 mulheres infiltradas nas arquibancadas acabaram presas pela polícia. Meses depois, durante a Copa de 2018, elas até puderam ver os jogos do país nos telões montados no Estádio Azadi, mas não houve uma abertura real para as partidas “ao vivo”. Infantino, então, resolveu agir de forma mais incisiva.

Diante da repercussão sobre a garota azul, a Fifa ordenou que o Irã abrisse seus portões a mulheres e não impusesse restrições em seus próximos compromissos internacionais. Infantino discursou sobre o assunto durante a cerimônia do Prêmio The Best. Além disso, outras entidades internacionais prometiam boicotes aos eventos esportivos no Irã enquanto a proibição se mantivesse, inclusive a Uefa. Assim, a partida contra o Camboja nesta quinta-feira, no próprio Estádio Azadi, deve servir como uma trégua à restrição.

Um número expressivo de mulheres compareceu às bilheterias do Estádio Azadi para adquirir as entradas. Segundo o Ministério dos Esportes, cerca de 3,5 mil ingressos (dentre os 100 mil disponíveis à partida) foram comprados por torcedoras. Um percentual pequeno, mas com uma quantidade absoluta significativa, considerando os temores de represálias que ainda tendem a rondar o evento. As expectadoras ficarão em uma área separada dos homens, vigiadas por 150 policiais mulheres.

“Eu ainda não acredito que isso acontecerá, porque depois de todos esses anos trabalhando na área, eu assistia a tudo na televisão. Agora, posso experimentar pessoalmente”, declarou Raha Poorbakhsh, jornalista esportiva que conseguiu um dos ingressos, em entrevista à AFP. Segundo ela, muitas outras mulheres sem entradas deverão comparecer nos arredores do estádio, na esperança de conseguir algum bilhete.

O veto às mulheres nos estádios não está escrito na legislação do Irã, mas é praticado desde 1981. Até 1987, elas sequer podiam ver os jogos na televisão. Desde então, há alguns episódios de resistência no país. Em 1997, quando o Irã assegurou o retorno à Copa do Mundo após 20 anos, três mil torcedoras forçaram sua entrada no Estádio Azadi para a recepção ao time que havia conquistado a classificação na Austrália. A cena se repetiria em outras classificações dos persas ao Mundial, em menor intensidade. Até existiu passe livre nos jogos do Campeonato Asiático Sub-16 de 2012, mas foi só. Nas vezes em que os políticos do país iniciavam uma abertura maior,  as autoridades islâmicas barravam as mudanças. Em contrapartida, mulheres estrangeiras não são proibidas de comparecer ao setor visitante das partidas internacionais.

A permissão para as iranianas assistirem aos jogos da Copa de 2018 no telão do Azadi ensaiava uma permissão mais ampla – embora a iniciativa quase tenha sido cancelada. Porém, as novidades não foram muito além disso. Em outubro do ano passado, 100 mulheres foram selecionadas para assistir ao amistoso contra a Bolívia nas tribunas do Estádio Azadi. Logo depois da partida, o promotor geral da república declarou que o ato não se repetiria por ser “pecaminoso”. A morte de Sahar Khodayari serviu para expor mais os absurdos e iniciar uma mudança de direção. Da forma mais dolorosa, a tragédia permitiu uma vitória, mas a luta tende a ser ainda mais longa.