Até o reinício da Champions League em agosto, não havia muito suspense em relação ao Manchester City dentro de campo. Fora dele, travava basicamente uma final de Copa do Mundo. Caso fosse excluído de competições europeias por dois anos, sofreria graves danos financeiros, teria dificuldades para segurar seus principais jogadores e contratar outros, talvez até para renovar o contrato de Pep Guardiola. Nesta segunda-feira, o Tribunal Arbitral do Esporte concedeu-lhe a vitória, reverteu a punição e deixou a Uefa com muita coisa a ponderar sobre o futuro das suas regulamentações financeiras.

O TAS não inocentou o Manchester City, mas identificou que a maioria das violações alegadas não foi estabelecida ou prescreveu. Também manteve a conclusão de que o clube obstruiu a investigação da Uefa, mas não a considerou tão grave assim e reduziu a multa de € 30 milhões para € 10 milhões. Em resumo, o City escapou em uma tecnicalidade gerada por uma estratégia muito bem sucedida.

A Câmara Investigatória teve acesso a e-mails publicados pela revista alemã Der Spiegel, cuja fonte é o português Rui Pinto, respondendo a uma série de denúncias em seu país, incluindo invasão de computadores, nos quais estava muito claro o processo de maquiagem das contas do Manchester City.

Em uma das mensagens, o chefe-financeiro do clube dizia que dois contratos de patrocínio da Etihad, ambos superiores a € 70 milhões, teriam “contribuição direta” de apenas € 8,8 milhões da empresa e o resto seria bancado pelo Abu Dhabi United Group (ADUG), empresa controlada por Mansour bin Zayed, dono do City.

Era forte a evidência de que o proprietário do Manchester City driblou as regras do Fair Play Financeiro com contratos de patrocínio inflados, especificamente as que limitam investimentos diretos dos donos e (teoricamente) obrigam os clubes a não gastarem mais do que faturam.

Como o Tribunal Arbitral do Esporte a considerou insuficiente talvez seja revelado nos próximos dias, quando o relatório final for divulgado, mas o Manchester City evitou defender-se no mérito da questão e foi ao ataque contra a Uefa. Criticou o processo, disse que as provas foram obtidas ilegalmente e se recusou a cooperar com a entidade europeia.

Essa é a parte mais surreal da história porque o TAS decidiu que a investigação não conseguiu estabelecer as violações antes do prazo de prescrição e também que o Manchester City obstruiu a investigação, ou seja, trabalhou contra o tal estabelecimento das violações antes do prazo de prescrição.

O CAS, portanto, concluiu não apenas que o Manchester City obstruiu a investigação como também que foi bem sucedido na tentativa e que, por ter feito isso, deveria pagar apenas um terço da multa imposta pela Uefa e disputar a Champions League normalmente. Um multa de € 10 milhões por ter atrapalhado a investigação de um contrato de € 70 milhões. Quem desenhou essa estratégia merece um bônus.

O Fair Play Financeiro havia sido profundamente desmoralizado quando o Paris Saint-Germain contratou Neymar e Mbappé na mesma janela, por um total de € 400 milhões. O clube francês usou o dispositivo cínico de receber Mbappé por empréstimo com compra obrigatória caso não caísse para a segunda divisão na temporada seguinte – ficou a 56 pontos da zona de rebaixamento – e nada de grave lhe aconteceu.

Em um caso separado, o PSG escapou de punições por causa de contratos de patrocínio inflados na Corte Arbitral do Esporte, reaberto depois das revelações da Der Spiegel, também por não cumprimento de prazo. Aqui, para explicar o padrão, vale pontuar que a reportagem sobre as violações obrigou a Uefa a agir cinco anos depois das supostas violações, o que a deixou em uma sinuca de bico: seria criticada se não fizesse nada e agora está sendo por não ter conseguido processar o caso a tempo. De qualquer maneira, a matéria sobre as irregularidades de 2013 foi mais o incêndio do que a fumaça. A fumaça sempre existiu.

No passado, Paris Saint-Germain e Manchester City foram punidos com sanções financeiras e restrições de inscrição, mas parece que aprenderam – a disfarçar melhor e contratar melhores advogados. O City sempre adotou uma postura hostil ao Fair Play Financeiro. Nos e-mails vazados na Der Spiegel, chegou a comemorar a morte de um dos membros da Câmara Investigatória e a dizer que preferia gastar “€ 30 milhões (valor da multai inicial) nos 50 melhores advogados do mundo para processar a Uefa durante os próximos 10 anos”.

Então diretor da Roma, Monchi disse em 2018 que foi obrigado a vender Salah para o Liverpool por aproximadamente € 40 milhões para não ser punido pelo Fair Play Financeiro. Deveria ter mantido o jogador, contratado mais alguns, bloqueado as tentativas de investigação da Uefa e enrolado tempo suficiente para conseguir uma decisão favorável no CAS. Errado? Com certeza, mas também mais prático do que cumprir uma regra que não parece valer para todo mundo.

O Milan fechou um acordo com a Uefa para não disputar a atual temporada da Liga Europa em troca do fim do processo contra ele por violações do Fair Play Financeiro, um dos casos em que a Uefa foi “Tigrão” com alguns clubes, especialmente italianos e de centros menores como Turquia e Leste Europeu, e “Tchutchuca” com outros, como Paris Saint-Germain e City, ambos bancados por poderosos e ricos países do Oriente Médio.

Mesmo clubes grandes que se esforçam para cumprir as regras do Fair Play Financeiro são prejudicados pelos dois pesos e duas medidas da aplicação do mecanismo. Javier Tebas, presidente de La Liga, é um dos críticos mais contundentes desse problema e, após o anúncio desta segunda-feira, disse que o TAS talvez não seja o órgão certo para conduzir as apelações de decisões institucionais do futebol.

Essa é a grande batata-quente para a Uefa. Não adianta soltar uma nota dizendo que a decisão do CAS se baseou em “poucas evidências conclusivas e prescrição neste caso específico”. Primeiro porque “este caso específico” deveria ser mais fácil de levar a uma punição grave porque havia evidências – os e-mails – que raramente estão disponíveis. Segundo porque se ela não consegue, pelo motivo que for, e não foi a primeira vez, fazer valer as regras que impõe, essas regras efetivamente não existem.

O Fair Play Financeiro funciona em duas frentes.  Uma delas é bem sucedida. A quebradeira dos clubes europeus diminuiu e, em um relatório da Uefa no ano passado, eles tiveram lucro conjunto pela primeira vez. A outra seria evitar desequilíbrios artificiais promovidos pela injeção desregulada de dinheiro de terceiros, e nessa vem fracassando de maneira retumbante.

O caso do Manchester City aumenta o peso das críticas ao mecanismo que surgiu como uma boa ideia e tem sido atacado por todos os lados. Um deles acredita que restringe demais os investimentos e protege o grupo dominante do futebol europeu. O outro, que funciona de maneira desigual e que faz vista grossa para os clubes mais poderosos, e está ficando cada vez mais difícil culpá-los.

A pandemia levou a cúpula do futebol financeiro a discutir as finanças do esporte, com propostas como teto salarial e outros controles para torná-lo mais sustentável. Deveria também inserir na conversa uma reformulação do Fair Play Financeiro. Novas regras, uma nova lógica ou maneiras mais eficientes de aplicá-lo. O presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, defende há tempos mudanças no mecanismo. Precisa acelerá-las porque aquele que a sua entidade introduziu em 2011 agoniza, se é que ainda não morreu.

.