Ao final da última temporada, o Bari se tornou mais um clube tradicional da Itália a lidar com sua falência. Os Galletti já tinham encarado a insolvência pela primeira vez em 2014, embora o processo não tenha culminado em sua exclusão na Serie B. Já no primeiro semestre de 2018, as dívidas enormes se tornaram insustentáveis e novamente a agremiação foi à bancarrota, desta vez obrigada a recomeçar sua reconstrução na Serie D. O primeiro sopro de esperança aconteceu em julho, quando a cidade concedeu o título esportivo relativo ao clube para Aurelio de Laurentiis. O dono do Napoli, que experimentou um processo parecido com os celestes, seria o responsável por conduzir o renascimento. E os reflexos positivos se confirmaram nesta quinta-feira: o Bari conquistou o acesso na Serie D, de volta aos níveis profissionais do Calcio na próxima temporada. Tentará emular o sucesso recente do Parma.

Fundado em 1908, o Bari passou a maior parte de sua história transitando entre a Serie A e a Serie B. Após a Segunda Guerra Mundial, chegou a sofrer três rebaixamentos consecutivos, mas retornou à primeira divisão ainda nos anos 1950. Já o ápice aconteceu a partir da década de 1980, quando os Galletti contrataram jogadores de renome e viveram na gangorra durante os anos de ouro do Calcio. As aparições na elite foram costumeiras até a virada do século. Já entre 2009 e 2011, uma breve estadia na Serie A, antes que o pesadelo começasse na Serie B. Por fim, o processo falimentar em 2018 e a incontornável queda à quarta divisão.

Os clubes na Serie D do Italiano são divididos em nove grupos regionais e os campeões de cada chave conquistam a promoção. Pois o Bari nadou de braçada no Grupo I. Em suas primeiras 32 partidas, conquistou 23 vitórias e só foi derrotado três vezes. Além disso, anotou 66 gols e sofreu 19. Não à toa, abriu nove pontos de vantagem na primeira colocação (em arrancada vivida principalmente no primeiro turno, com o acúmulo de 19 jogos de invencibilidade) e comemorou o acesso com duas rodadas de antecedência. Outro clube histórico na mesma chave é o Messina, que encarou graves problemas financeiros nos últimos anos. Os sicilianos, de dez participações na primeira divisão, terminaram no modestíssimo 12° lugar.

O presidente do Bari é Luigi de Laurentiis, filho de Aurelio. Já no banco de reservas, o comando fica a encargo de Giovanni Cornacchini. O treinador chegou a atuar no Milan durante a década de 1990, além de outros clubes tradicionais do Calcio. Nos últimos anos, dirigiu diferentes equipes das divisões de acesso, com a passagem mais marcante pela Ancona, com a qual já tinha faturado o acesso na Serie D. Assim, foi escolhido a dedo para reconduzir os Galletti nesta nova era. O elenco atual é formado basicamente por atletas trazidos nos últimos meses, com raros remanescentes dos períodos na Serie B. Uma das exceções é Franco Brienza, dono da braçadeira de capitão. O meia defende o Bari desde 2016 e possui um amplo histórico por clubes médios da primeira divisão, chegando à seleção quando vivia boa fase com o Palermo. Aos 40 anos, disputou 20 partidas da Serie D.

Palco importante na Copa de 1990 e sede da final da Champions em 1991, o Estádio San Nicola continua recebendo os jogos do Bari – apesar dos altos custos de manutenção, que comprometeram sua conservação ao longo dos últimos anos. A média de público é razoável para a quarta divisão, com cerca de 10 mil presentes por compromisso, incluindo entre estes 8 mil donos de carnês de temporada. Já na tarde desta quinta-feira, os torcedores pegaram a estrada para acompanhar o duelo decisivo contra a Troina. Assistiram à vitória por 1 a 0, já suficiente para garantir o alívio. A primeira parte da reconstrução do clube está completa, embora os desafios aumentem substancialmente a partir da terceira divisão – tanto pelo nível dos adversários como pelo gargalo apertado até a Serie B.

Apesar do sucesso inicial, resiste certa discussão sobre a condução do Bari. Por ser dono também do Napoli, Aurelio de Laurentiis teria que deixar um dos clubes se eles coincidissem na Serie A. Além disso, o compromisso firmado pelo magnata desagradou também parte da torcida napolitana. Fato é que, neste momento, não há evidências de um conflito de interesses e o Bari se beneficia da boa gestão. A importante cidade do sul da Itália abraça o seu clube e aguarda reviver um pouco da reputação construída ao longo de décadas. O desejo toma forma.