De Lima, a convite da Rexona Brasil

Horas depois da final que alçou o Estádio Monumental “U” a um novo patamar do futebol sul-americano, Lima ainda não tinha dormido. Nem poderia dormir. Na pulsação da capital peruana, em um final de semana especialmente movimentado, corria um sangue vermelho e preto. Vibrava uma torcida que realizou os mais diferentes tipos de sacrifício para estar presente na decisão da Copa Libertadores. E que não parecia disposta a sequer cochilar, para não quebrar o encanto por aquilo que surgiu como um sonho acordado: a apoteótica conquista da Copa Libertadores de 2019, em minutos derradeiros já lendários ao Flamengo.

Ao longo das últimas semanas, enquanto se enchiam de expectativas pelo que não ocorria desde 1981, os rubro-negros precisaram aceitar a ideia de que não viveriam a desejada final da Libertadores em seu templo. O Maracanã, altar à consagração de partidas memoráveis nesta campanha continental, não receberia o apogeu da história. Então, iniciou-se a jornada. O Estádio Monumental “U” se transformou no destino final de uma romaria.

A história com ares bíblicos ao Flamengo já se contava a partir de uma peregrinação que durou 38 anos aos torcedores. Os rubro-negros caminharam em um deserto que teve seus oásis, mas não a terra prometida da reconquista da América. Os flamenguistas também encararam secas de ideias e de craques, penúrias de quem amargou diversos períodos sem sinal da força que acompanha o clube. A gerações mais jovens, foi comum colecionar humilhações além das fronteiras e os temores do rebaixamento. Mas havia um propósito maior.

E por isso mesmo nenhum rubro-negro queria perder o que se viveria em Lima. Os passos nesta caminhada encheram os torcedores de uma confiança por aquilo que estaria a caminho. Mas que, obviamente, teria as suas provações. Os velhos pesadelos quase voltaram à tona contra o Emelec, sobretudo. A virada só consumada nos pênaltis, na realidade, serviu para testar o coração e moldar o caráter de uma massa tão acostumada às desilusões nas Libertadores. Os flamenguistas puderam inflar o peito contra Internacional e Grêmio. Até que o River Plate, dentro do Estádio Monumental “U”, surgisse no horizonte como o último desafio a ser vencido.

Torcedor do Flamengo no estádio Monumental U, em Lima (Getty Images)

Lima era o destino cabal de todos os pensamentos do Flamengo. Mesmo quem não pôde estar presente fisicamente, nas árduas imposições financeiras ou estruturais da questionável final única, se fez ao lado do clube em espírito. E essa transferência de energias teve sua primeira grande manifestação no Rio de Janeiro, durante a massiva despedida ao time. Do Ninho do Urubu ao Galeão, o que se viu foi a multidão abarrotada que formava uma só corrente durante o trajeto realizado pelo ônibus rubro-negro. A partir de então, todos os olhares e corações estariam em solo peruano.

A decisão da Libertadores em campo neutro, todavia, serviu para reafirmar o caráter nacional da torcida do Flamengo. Sim, uma parcela significativa saiu do Rio de Janeiro. Mas flamenguistas de diferentes cantos surgiram nas ruas de Lima. Vinham pela proximidade do Norte, pelo fervor do Nordeste, pela devoção em demais regiões, pelo laço que permanece também em países do exterior. Todos irremediavelmente tomados por uma paixão febril. Vinham por uma só fé, que se sublimava entre cânticos e congregação por todos os cantos da capital peruana.

As vésperas da decisão foram regadas pela esperança. Os rubro-negros sentiam que o longo trajeto pelo deserto estava próximo do final. Mas o sábado não seria marcado apenas pela alegria ou por uma certeza inabalável. Pelo contrário, também era necessário ter a consciência de que tudo poderia se quebrar por um estalo. E existia certa apreensão também na longa caminhada até o Estádio Monumental “U”. Os 38 anos se resumiriam em 90 minutos, sob um mormaço quente e o clima seco aos pés das montanhas.

Nas arquibancadas, a torcida do Flamengo era maioria, ainda que não em diferença numérica tão grande quanto a anunciada anteriormente, e se fazia sentir. Era presente não só em quantidade, mas também vibração e cores. Obviamente, não dava para esperar o clima que aconteceria no Maracanã. Mas, na medida do possível e nas limitações impostas pela final única, o que mais importava era o ato de professar a fé. A festa sem mosaico, papéis picados, sinalizadores e (mais importante) grande parte da massa que frequenta o Maraca, restringida pela Conmebol, se direcionava à manifestação do orgulho de ser rubro-negro. Os cânticos uniam a todos os flamenguistas, e não apenas em Lima.

A abnegação seria um sentimento a reger a tarde de cada rubro-negro. O torcedor não podia se apegar ao placar adverso ou à atuação ruim do time de Jorge Jesus durante mais da metade da final. Ele precisava se agarrar às chances, mesmo sufocadas, de que os passos firmes dados anteriormente garantiriam seu paraíso particular. E o momento da virada do Flamengo não começou aos 43 minutos, com Gabigol. Ele começou por volta dos 20, 30, quando a magnética atraiu almas de todos os cantos do Brasil à muralha rubro-negra às costas de Diego Alves. O som no estádio explodiu para expressar o quanto se queria cantar ao mundo inteiro. O quanto se acreditava na virada.

A explosão viria outras duas vezes, motivada pelos tentos de Gabigol. Até que o estampido fatal surgisse com o apito final, para que as vozes atingissem a mesma sintonia em Lima, no Rio de Janeiro, em Doha e em qualquer outra parte do planeta que houvesse um rubro-negro com seu radinho de pilha colado no ouvido. O Estádio Monumental “U”, definitivamente, se transformava em solo sagrado ao Flamengo.

Torcedores do Flamengo no estádio Monumental U, em Lima (Getty Images)

A partir de então, tudo era festa. E tudo era motivo de cantar. A torcida do Flamengo dedicava uma gratidão especial ao Mister, o profeta de seus dias mais felizes. Pedia ao anjo endiabrado Gabriel para seguir na Gávea e ampliar sua anunciação. De maneira igualmente fervorosa, vociferou por tantos outros ídolos, alguns deles redimidos por pecados recentes. A expiação flamenguista era completa. O purgatório estava finito. A noite colocava os rubro-negros no mais altos céus, a ritmo de samba. “Vou festejar” e “Domingo, eu vou ao Maracanã” eram os enredos obrigatórios da multidão que voltava a tomar as ruas, em transe por aquilo que se custava a acreditar.

Era uma caminhada a passos lentos, mas em extremo êxtase, regada pela redentora cerveja gelada e com os enfim libertos batuques. Nada mais importava além de ser rubro-negro e viver a plenitude do momento. Desconhecidos se saudavam, se abraçavam, se alegravam juntos. Toda a espera desaguava no tão sofrido fim – e, por isso, tão resplandescente. De canto a canto, erupções em português se ouviam em Lima, com sotaque de diferentes lugares do Brasil. O Flamengo era, definitivamente, uma só nação.

À medida que o estádio se distanciava, a multidão se dispersava, mas não deixava de se aproximar através de sua incontrolável euforia. Caminhavam, lotavam os transportes, ocupavam os bares e os restaurantes. Até mesmo um caminhão passou à minha frente, abarrotados de rubro-negros na insanidade pelo dia que sempre almejaram, mas nunca viveram. Queriam a loucura de um sentimento que não se pode descrever, apenas viver. E, depois de uma decisão com estes contornos épicos, eles o viviam totalmente.

A noite caiu em Lima e se alongava ao ritmo dos gritos rubro-negros. Eles não cessavam um minuto sequer. Eram a maneira mais apaixonada de se exprimir o prazer, de se escancarar a façanha. Estavam totalmente em seu direito. Dormir seria interromper o pensamento alucinante, que por tantas vezes ainda parecia surreal. E as hordas também fluíam rumo ao aeroporto, já no caminho de volta para casa. Neste domingo, todas as almas confluirão para o Rio de Janeiro, e novamente para o Maracanã. Após o adeus à terra prometida, o templo viverá a epifania nos próximos encontros com os rubro-negros.