Após críticas e boicotes, Premier League confirma o fim do modelo pay-per-view (por enquanto)

Não pegou nada bem a decisão da Premier League de colocar aproximadamente metade das suas partidas em outubro e começo de novembro em um modelo de pay per view. As críticas, em particular pelo preço salgado, foram imediatas. Houve um boicote que arrecadou £ 300 mil a instituições de caridade, e as próprias emissoras não estariam contente com a situação. A favor dos clubes, eles souberam reconhecer que a experiência deu errado e a abandonaram pelo menos até o ano que vem.

Ao contrário do Brasil, por exemplo, em condições normais o torcedor não tem acesso a todos os jogos em território britânico, nem mesmo se quiser pagar por eles. Há inclusive um horário oficialmente bloqueado no sábado, para não desmotivar a ida aos estádios.

Na preparação para esta temporada, que começou ainda com restrições que impedem a presença in loco, os torcedores haviam expressado que a principal preocupação era ter uma maneira de assistir a todos os jogos, inclusive os que as emissoras detentoras dos direitos de transmissão, Sky Sports e BT Sport, não tivessem escolhido para transmitir.

No começo, as emissoras mantiveram o esquema que haviam usado nas rodadas finais da Premier League anterior, após o primeiro lockdown nacional do Reino Unido, transmitindo todas as partidas, em parceria com a Amazon Prime, detentora de alguns jogos por streaming, e também pela TV aberta, via BBC.

No entanto, quando ficou claro que os portões dos estádios não seriam reabertos em um futuro próximo, os 20 clubes da Premier League aprovaram a “solução interina” por 19 x 1 – o Leicester foi o único a votar contra. O problema, porém, foi o preço: £ 14,95 por cada jogo, e um deles foi, por exemplo, este maravilhoso Brighton x Burnley na sexta-feira da semana passada. “É uma jogada bem ruim da Premier League cobrar £ 14,95 por jogos que foram transmitidos de graça nos últimos seis meses”, desenhou Gary Neville, comentarista de uma das emissoras que teoricamente ganhariam dinheiro com esse modelo.

Grupos de torcedores do Newcastle estiveram entre os principais críticos e também ajudaram a liderar o movimento que desviou a grana que iria para o pay per view a instituições de caridade. Ajudaram a levantar £ 60 mil a bancos de alimentos ao boicotarem a partida contra o Manchester United. Fãs do Liverpool chegaram a £ 120 mil após a vitória por 2 a 1 sobre o Sheffield United. Apaixonados por Leeds, Tottenham, Arsenal, Manchester United e Manchester City também participaram da ação.

O movimento foi tão grande que levou a um plot twist dos mais inesperados: Mike Ashley, o maior sanguessuga do futebol inglês, no lado certo da história. Apesar de ter votado a favor da proposta em um primeiro momento, ele recuou e disse que “cobrar £ 14,95 por uma partida na televisão no atual clima não é aceitável para nenhum torcedor de futebol”. Chegou a mencionar que £ 4,95 seria um preço mais justo.

Até as próprias emissoras, Sky Sports e BT Sport, segundo o Daily Mail, ficaram insatisfeitos porque a discussão estava fazendo com que elas parecessem “gananciosas”. Elas não divulgaram os números oficiais, mas o jornal publicou que a média das nove primeiras partidas, antes do empate por 1 x 1 do Brighton com o West Brom no final de outubro, era de 39 mil torcedores pagantes, com dois jogos entre 70 mil e 90 mil e três abaixo de 10 mil.

Essa média estava mais ou menos dentro do esperado pela Premier League. Também de acordo com o Daily Mail, o alvo era corresponder à média de público da temporada 2018/19, que foi de 38.168 pessoas. Mas é bem possível imaginar que esses jogos do Brighton (nota do editor: talvez limitar o número de jogos do Brighton ajudasse no sucesso do modelo?) contra West Brom e Burnley tenham danificado a média.

Depois de já ter saído na imprensa inglesa informações de que a proposta seria revertida, a Premier League emitiu um comunicado oficial, nesta sexta-feira, confirmando que pelo menos até janeiro, o que abriga o calendário especial de Natal e Ano Novo, o pay per view não existe mais. Esse novo-velho acordo retoma o que foi colocado em prática entre junho e setembro. Segundo a liga, será revisto no novo ano, após consulta com “clubes, emissoras e de acordo com as decisões tomadas pelo governo em relação ao retorno dos torcedores aos estádios”.

“Há um calendário completo de jogos da Premier League durante o período das festas, e os clubes estão comprometidos com uma solução acessível aos torcedores”, diz o comunicado. “Esses planos foram feitos em cooperação com as emissoras, trabalhando conosco para entregar essas partidas adicionais, enquanto os estádios estão sem os torcedores, que são parte integral dos jogos”.

Com o Reino Unido entrando em um novo lockdown nacional até dezembro, e uma segunda onda de casos de coronavírus atingindo a Europa, porém, ainda não dá para ter uma perspectiva real de que os torcedores retornem aos estádios da Inglaterra em um futuro próximo. Pelo menos, eles poderão passar boa parte do inverno vendo todos os jogos pela televisão, sem pagamentos adicionais.

.