Nenhum outro clube merecia mais a vaga na Premier League que o Brighton & Hove Albion. Os Seagulls já tinham sido rotulados como o “time do quase” na Championship, a segunda divisão do Campeonato Inglês. Desde que voltou ao segundo nível, em 2011/12, a equipe do sul da Inglaterra caiu nos playoffs de acesso em três oportunidades. Pior, na temporada passada os alviazuis atravessaram quase todo o primeiro turno na liderança, antes de derraparem. Já na atual campanha, não houve o que derrubasse o Brighton. O elenco treinado por Chris Hughton não sai da zona de acesso direto desde a 14ª rodada. Passou boa parte do campeonato brigando pelo topo com o Newcastle, mas recuperou a primeira posição no início do mês. E a festa, enfim, se concretizou nesta segunda. A vitória por 2 a 1 sobre o Wigan, combinada com o tropeço do Huddersfield Town, confirmou matematicamente o clube na elite.

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Esta será a quinta temporada do Brighton na primeira divisão do Campeonato Inglês. A última participação, porém, já faz mais de três décadas: foram quatro edições consecutivas na virada dos anos 1980, com a queda consumada em 1982/83, quando a equipe também terminou com o vice-campeonato da Copa da Inglaterra. Desde então, os Seagulls não voltaram mais, se estabelecendo durante a maior parte do tempo entre a segunda e a terceira divisão. Ainda assim, houve um período caótico no final dos anos 1990. Foram cinco temporadas na quarta divisão, quando os alviazuis flertaram seriamente com o rebaixamento, que os tiraria dos níveis profissionais do futebol inglês. Não aconteceu por um triz – mais exatamente, por 28 minutos.

Em 1996/97, o Brighton disputou a permanência na então chamada Third Division (atual League Two) ponto a ponto. Os Seagulls haviam sido rebaixados no ano anterior para a quarta divisão, mas não viam o fundo do poço. E a situação se complicou quando o clube foi punido com a dedução de dois pontos, por conta de uma invasão de campo. Na rodada final, o Brighton pegou justamente o Hereford United, seu adversário direto contra a última colocação, a única que valia o descenso. Os oponentes abriram o placar graças a um gol contra e iam se salvando. No entanto, aos 17 do segundo tempo, Rob Reinelt se tornou o herói da tarde, ao garantir o empate por 1 a 1. Graças ao número de gols marcados, o principal critério de desempate na competição, os alviazuis não deixaram a Football League. O rebaixamento, naquele momento, muito provavelmente significaria também a falência.

Desde então, muita coisa mudou no Brighton & Hove Albion. Aquela temporada angustiante foi justamente a última no Goldstone Ground, casa dos Seagulls por 95 anos. A diretoria decidiu vender o estádio, em medida extremamente impopular – que, não à toa, rendeu a invasão de campo que quase culminou no rebaixamento. A partir de então, os alviazuis passaram dois anos jogando em Gillingham, a mais de 100 km de distância, antes de se mudarem ao Estádio Withdean, um acanhado campo da prefeitura que servia para competições de atletismo. A vida peregrina também afetou as finanças do clube, que, em meados da década passada, dependeu até mesmo do engajamento de seus torcedores na compra de CD’s e de calendários para sanar as dívidas. O futuro só se tornou realmente promissor em 2009. Em maio daquele ano, Tony Bloom assumiu a presidência, substituindo Dick Knight – torcedor fanático que havia tomado a direção em 1997, evitando um impacto maior da crise.

Sob as ordens de Bloom, o Brighton se reencontrou com a prosperidade. Neto de um ex-dirigente e torcedor alviazul desde a infância, o empresário investiu na conclusão do Estádio Falmer, para 30 mil espectadores. A nova casa foi inaugurada em julho de 2011, semanas depois da conquista do acesso à Championship. E a moderna arena impulsionou a estruturação do clube, mantendo um elenco competitivo na segunda divisão. Nas últimas seis temporadas, em apenas uma os Seagulls chegaram a ser ameaçados pelo rebaixamento. Em compensação, o esperado acesso não vinha saindo por detalhes, com as três quedas nas semifinais dos playoffs. Até que a equipe de Chris Hughton consumasse o feito nesta segunda.

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Ainda que não tenha despontado às primeiras posições durante o início da campanha, o Brighton sempre sinalizou que brigaria pelo acesso. Foram apenas duas derrotas, ambas antes das seis primeiras rodadas, em todo o primeiro turno. A partir de outubro, o duelo particular com o Newcastle se escancarou, com a dupla se desgarrando do resto da concorrência. Os Seagulls chegaram a ocupar a liderança, mas a má fase em janeiro atrapalhou. Contudo, os alviazuis voltaram a caminhar firmes a partir de março. São sete vitórias nas últimas oito rodadas. No início de abril, ultrapassaram o Newcastle. E a comemoração se consumou com o triunfo por 2 a 1 sobre o Wigan.

Os torcedores preferiram nem esperar a confirmação matemática para invadir o gramado do Estádio Falmer, em cena massiva nesta segunda. A certeza viria horas depois, diante do empate do Huddersfield, o único adversário que ainda era capaz de atrapalhar. “É uma sensação fantástica. Estar aqui, com quase 30 mil torcedores… são os nossos sonhos se tornando realidade. Há 20 anos nós não tínhamos casa, íamos a lugar nenhum, e aqui nós estamos hoje, a caminho da Premier League”, declarou o presidente Tony Bloom, durante a festa, nos microfones do estádio.

Depois de subir com o Newcastle em 2010 e fazer uma temporada digna de elogios com o Norwich em 2013, Chris Hughton volta a se colocar entre os técnicos ingleses mais referendados da atualidade. Segurou o baque pelo fracasso nos playoffs de 2016 e deu a volta por cima, ganhando a confiança da diretoria. Além disso, contou com um elenco bastante experiente para conquistar o acesso. Entre os nomes mais tarimbados estão o goleiro David Stockdale, o lateral Sébastien Pocognoli, o meio-campista Steve Sidwell e o atacante Glenn Murray – todos com rodagem na Premier League. Outras peças importantes são o atacante Tomer Hemed e o capitão Bruno Saltor, com passagens por clubes relevantes do Campeonato Espanhol. Já o grande protagonista foi o ponta Anthony Knockaert.

Aos 25 anos, Knockaert ganha o reconhecimento merecido, após uma carreira cheia de percalços. Em 2013, quando ainda defendia o Leicester, o francês desperdiçou um pênalti que entrou para a história da Championship. O chute defendido por Manuel Almunia, nos acréscimos do segundo tempo, permitiu o contra-ataque fulminante do Watford, que anotou o gol e eliminou as Raposas de maneira inacreditável nas semifinais dos playoffs. O ponta permaneceu no Estádio King Power e auxiliou no acesso em 2014, embora tenha jogado pouco no retorno do time à Premier League. Passou alguns meses no Standard Liège, até ser contratado pelo Brighton em janeiro de 2016. Desde então, o camisa 11 se tornou fundamental ao técnico Chris Hughton. E exibiu seu enorme profissionalismo em novembro. Mesmo após perder o pai, o grande incentivador de sua carreira, o camisa 11 continuou dando duro.

Patrick Knockaert não pôde ver o filho conquistar o prêmio de melhor jogador da English Football League, concorrendo com outros colegas da segunda à quarta divisão do Campeonato Inglês. O ponta soma 15 gols e nove assistências em 42 rodadas, e nesta segunda esteve em campo na celebração diante do Wigan. Agora, o objetivo dos Seagulls é erguer a taça, a mais importante de sua história. Com sete pontos de vantagem sobre o Newcastle, a três rodadas do final, a missão não parece nada difícil. Já dá para olhar para frente e pensar na ambição que terá na Premier League. Por todo o esforço na luta pelo acesso ao longo dos últimos anos, certamente o Brighton não estará na elite apenas a passeio.