A temporada na Football League é excelente aos clubes tradicionais da Inglaterra. Várias agremiações históricas confirmam o acesso nas divisões inferiores ou, ao menos, se postulam aos playoffs. E uma das histórias mais marcantes se concretizou nesta terça-feira, na League One. O Luton Town consumou sua promoção na Terceirona e estará de volta à Championship após 12 anos. Não é um feito qualquer. Apesar dos tropeços no final da campanha, os Hatters chegaram a acumular 28 jogos de invencibilidade, em uma disputa acirrada pelas duas vagas diretas à segunda divisão. Além do mais, demarcam o fim de seu pesadelo. Após três descensos consecutivos entre 2007 e 2009, deixando a Football League, o time é promovido pela terceira vezes nos últimos cinco anos. Retoma o patamar anterior à grave crise que encarou.

O Luton Town é um clube notável no passado do Campeonato Inglês. Militou pelas divisões de acesso até estrear na primeira divisão em 1956. Viveu a gangorra na Football League e já estava de volta à quarta divisão em 1966, mas se recuperaria para conquistar certo protagonismo durante a década de 1980. Foram dez temporadas consecutivas na elite, caindo justamente às vésperas da criação da Premier League. Além disso, a agremiação chegou a duas finais da Copa da Liga, erguendo a taça em 1988, e também a três semifinais da Copa da Inglaterra nestes tempos áureos. Ainda que nunca mais tenha retornado ao primeiro nível desde 1992, permaneceu no imaginário dos torcedores ingleses e nutriu certa simpatia nas divisões de acesso.

A caminhada do Luton já vinha sendo errática. Não fez grandes campanhas na Championship e alternava os acessos com os descensos. Nada, porém, que se comparasse ao drama vivido na metade final da década passada. Em 2005, o título da League One e o retorno à Segundona após dez anos pareciam trazer novas perspectivas. Os Hatters até fizeram uma campanha de meio de tabela na reestreia, mas não escaparam do rebaixamento em 2007. A vice-lanterna na Championship se seguiu a duas lanternas, também na League One e na League Two. O limbo se tornava pegajoso ao clube e, com a terceira queda consecutiva em 2009, a Football League deixava de ser realidade após décadas. A Conference não representava apenas a quinta divisão, nível mais baixo atingido pela agremiação em sua história, como também oferecia um gargalo fino para deixar o semi-profissionalismo.

Como você deve ter imaginado, a derrocada do Luton Town não era apenas consequência de um fracasso esportivo. O clube também encarou problemas seríssimos em sua gestão. O consórcio encabeçado por John Gurney chegou ao comando dos Hatters em 2003 e o empresário prometia um “novo Manchester United”. Na realidade, logo perceberam que não poderia se confiar em nada do que o cartola dizia. Demitiu o técnico Joe Kinnear sem muitos motivos, os funcionários não recebiam seus salários, as megalomanias desmoronaram. O dirigente chegou a apresentar os planos de um novo estádio em conjunto com um autódromo (!), bem como ameaçou a mudança a Milton Keynes – sim, antes do Wimbledon virar MK Dons. E o cúmulo veio quando escolheu um novo treinador através votação realizada por telefonemas. Já em 2004, a agremiação entrou em um processo de administração externa, por conta das enormes dívidas. Um outro consórcio aportou logo em seguida, liderado por Bill Tomlins, mas nada que fugisse dos imbróglios recorrentes.

Dentro de campo, o time até conseguiu reagir com o supramencionado acesso à League One em 2005. Algo realmente fora da curva. Tomlins precisou deixar o cargo em abril de 2007, investigado por irregularidades em transações. O risco de quebra era claro e o clube voltou a entrar em administração em novembro de 2007, após a queda à terceirona. Na temporada 2007/08, a agremiação perdeu 10 pontos na League One e um novo consórcio chegou à gestão – o Luton Town Football Club 2020 Limited. Já em 2008/09, a penalização na League Two foi de incríveis 30 pontos, um recorde dentro da Football Association. As quebras de regras se acumulavam. Porém, a despeito dos problemas e do rebaixamento à Conference, a equipe encontrou forças para faturar o Football League Trophy em 2009 – uma copa nacional restrita aos participantes das divisões de acesso.

As mudanças na gestão deram novas perspectivas. O Luton Town Football Club 2020 Limited realmente conseguiu colocar ordem na casa. A presidência ficou nas mãos de Nick Owen, apresentador da TV local e torcedor ilustre do clube. Seria ele o principal responsável por resgatar o orgulho em Kenilworth Road. O time penou um pouco na quinta divisão do Campeonato Inglês, é verdade. Vice-campeão na primeira temporada, não conquistou o acesso através dos playoffs e passou os outros anos rondando a promoção. A ascensão se confirmou apenas em 2013/14, com o título da Conference. Depois, seriam mais quatro temporadas até se estabilizar na League Two. Em agosto de 2017, Nick Owen passou o bastão a David Wilkinson e a equipe alcançou o acesso à League One em 2017/18, com o vice-campeonato na quarta divisão. O salto para uma campanha até surpreendente nesta Terceirona, antecipando as expectativas e brilhando em uma briga duríssima.

O Luton Town viveu os seus percalços no início da campanha na League One 2018/19. Oscilou demais nas primeiras rodadas e conquistou apenas duas vitórias em seus sete primeiros jogos. Parecia outra vez sob o risco de rebaixamento. Contudo, a situação começou a se aprumar a partir de setembro, com uma série de cinco rodadas sem perder. Já o grande salto veio a partir de outubro, na metade final do primeiro turno. Até o Boxing Day, os Hatters acumularam 10 triunfos em 11 compromissos. Foi o suficiente para se firmarem como candidatos ao acesso.

Pois o sucesso em Kenilworth Road teria suas consequências. Nathan Jones havia assumido o comando do Luton Town em 2016. O clube, notório por queimar seus treinadores sem muita paciência, oferecia créditos ao técnico. Mesmo sem conquistar o acesso de imediato, ele ganhou moral após o vice na League Two em 2018 e ampliou sua fama com a sequência de vitórias no fim do ano. Resultado: o Stoke City chegou com uma proposta muito acima dos padrões dos Hatters e o técnico acabou se mudando ao Estádio Britannia. Em 9 de janeiro, a diretoria precisou encontrar um novo timoneiro. Deu espaço a Mick Harford, que vinha atuando como chefe do departamento de observação desde 2016.

Harford não é uma figura qualquer no Luton Town. O ex-atacante é considerado o maior ídolo da história do clube. Vestiu a camisa dos Hatters durante todo o auge na década de 1980, a ponto de ser convocado à seleção inglesa. Acumulou gols, participou de campanhas marcantes, virou uma referência no Campeonato Inglês. O próprio Sir Alex Ferguson chegou a manifestar seu lamento por não contratá-lo, após uma tentativa frustrada de transferência em 1991. Após pendurar as chuteiras, Harford voltou ao clube em 2001 e ocupou diversas posições na comissão técnica, sobretudo como interino. Seu desempenho na casamata não era bom, mas é preciso ponderar que o veterano também foi diversas vezes usado como um escudo pelas diretorias. No comando em 2009, durante a queda à Conference e o título no Football League Trophy, teria uma justa chance de reescrever seu nome como treinador. Responsável pela chegada da maioria dos jogadores do atual elenco, aproveitou muito bem as bases deixadas por Nathan Jones e cumpriu sua missão. Ampliou a idolatria.

A fase invicta do Luton Town duraria até o começo de abril, com mais 10 vitórias em 15 jogos. A liderança, de fato, só foi assegurada sob as ordens de Harford. As pernas dos Hatters bambearam no momento decisivo e o time só ganhou um de seus últimos cinco compromissos. Mesmo assim, a vantagem acumulada não impediu o acesso. Nesta terça-feira, os resultados da penúltima rodada garantiram a festa. O título ainda não está consumado, mas os 91 pontos deixam a equipe em vantagem sobre o Barnsley no saldo de gols. Enquanto os Reds também estarão na Championship 2019/20, uma coleção de clubes tradicionais terão que se engalfinhar nos playoffs da League One. Portsmouth, Sunderland e Charlton confirmaram presença nos mata-matas. Já última vaga ficará com Doncaster Rovers ou Peterborough United.

Entre os méritos do Luton está a maneira como o clube soube trabalhar o seu elenco. Trouxe reforços pontuais à League One, mas a base é a mesma que conquistou o acesso na League Two. A principal menção fica ao atacante James Collins. Contratado em 2017, o irlandês anotou 25 gols na Terceirona e foi eleito o melhor jogador da competição. Outro a despontar é James Justin, de 21 anos. O lateral das seleções de base comeu a bola e foi o único do clube a ser eleito para o time da temporada da Football League – que também inclui atletas da segunda e da quarta divisão.

A  Championship abre novos horizontes ao Luton Town, mas as lições do passado mantêm os pés no chão. Harford já garantiu que voltará ao seu posto na comissão técnica e os Hatters procurarão um novo técnico. Além disso, diante das  possibilidades financeiras, há a perspectiva de construir um estádio maior e mais moderno. Os 10,4 mil lugares do velho Kenilworth Road já não parecem suficientes, a uma torcida que assegura uma média de ocupação acima dos 90%. E é nela que os Hatters precisam pensar. Seguraram todas as barras possíveis neste século e agora têm o direito de desfrutar. Quem sabe, com alguns anos de tranquilidade na Championship, antes de mirar novamente a Premier League.