Christian Pulisic, um dos três jogadores mais especulados no Liverpool na história da imprensa esportiva, ganhou de Fernandinho, passou por Ederson e chutou para o gol vazio. O placar estava empatado em 1 a 1, o relógio mostrava 26 minutos do segundo tempo. Seria, a menos que o Manchester City virasse, o gol do título inglês do Liverpool. O gol do primeiro título inglês do Liverpool em 30 anos. Kyle Walker apareceu do nada, como se brotasse do chão, e cortou em cima da linha. Ainda houve um certo suspense porque a tecnologia que confirma se a bola entrou ou não deu problema na Premier League alguns dias atrás. Mas não falhou de novo. Estava funcionando. A bola não entrou, confirmaram as câmeras. Esperem mais um pouco.

Esperar, esperar e esperar. A vida do torcedor do Liverpool tem sido esperar desde 28 de abril de 1990, quando uma vitória sobre o Queens Park Rangers lhe rendeu mais um título inglês. Foi o 11º em duas décadas, o 18º no total, hegemonia idealizada por Bill Shankly e conduzida por Bob Paisley, Joe Fagan e Kenny Dalglish. Ano sim, ano não, o Liverpool era campeão inglês e ninguém, absolutamente ninguém, imaginaria que precisaria esperar três décadas para ser novamente.

Havia mérito em esperar um pouquinho mais. A pandemia havia retirado do Liverpool o elemento mais importante da cena tantas vezes imaginada e sonhada e vislumbrada. Independentemente do dia ou do estádio, a Kop não estaria lotada, não estaria gritando e cantando, não estaria sugando a bola para dentro das redes. Pode até haver pessoas nas ruas da cidade, mas elas nunca estarão tão empacotadas quanto estariam em uma situação normal, e qualquer festa seria um pouco manchada por ocorrer mediante a quebra das regras de distanciamento social.

Bill Shankly foi o primeiro a realmente entender que o Liverpool é sua torcida. Sem a torcida, não há Liverpool. E o título teria que ser conquistado sem a torcida. Se era para ser assim, melhor que fosse com uma grande vitória no Etihad Stadium contra o Manchester City que, duas vezes, impediu que o jejum terminasse antes dos 30 anos.

Mas quando Kyle Walker foi mais rápido do que uma bola chutada por um homem crescido, o torcedor do Liverpool também se perguntou o que mais poderia acontecer para adiar aquele momento, por mais que ele fosse inevitável.

Muita coisa havia acontecido. O Liverpool decidiu esquecer como se monta times campeões exatamente no momento em que o futebol inglês começava a mudar. Perdeu o bonde da história e demorou anos para tirar a diferença. Via Alex Ferguson montar uma máquina, Arsène Wenger sublimar o jogo, via o Chelsea e o City reforçados por dinheiro de fora, via o Blackburn e o Leicester conseguir o que ele não conseguia.

Viu candidatos a ídolo irem embora e viu o ídolo que ficou, o líder e capitão, o representante não apenas da parte vermelha da cidade, mas também o único com o tamanho adequado ao que o Liverpool um dia foi, escorregar no momento decisivo da melhor chance de sair da fila, e, se há uma segunda lamentação, logo depois da ausência da torcida, bem pertinho, foi que ninguém teve a ideia de manter Steven Gerrard sob contrato por quanto tempo fosse necessário para que ele, depois de deixar a taça cair, pudesse erguê-la acima dos ombros.

Viu o clube ficar próximo da falência e viu o título ficar a milímetros de distância, apesar de uma campanha com poucos precedentes, e quando tudo parecia ter encaixado, quando conseguiu vencer quase todos os jogos, quando a contagem regressiva tomou contornos concretos, quando começou a calcular se faltavam uma, duas ou três vitórias, uma pandemia simplesmente interrompeu o futebol.

Aquele segundo entre o chute de Pulisic e o corte de Walker foi o primeiro segundo em 30 anos no qual o Liverpool se sentiu irreversível e inequivocamente o melhor time da Inglaterra, e, de repente, o sentimento foi revertido e se mostrou equivocado. Depois de tantos obstáculos e frustrações, por mais inevitável que fosse, o torcedor não queria descobrir o que mais poderia acontecer.

Havia chegado a hora. Chega de esperar. O torcedor levou ao pé da letra o hino do seu clube. Caminho e caminhou, caminhou com a cabeça erguida, sem medo do escuro, caminhou pelo vento e pela chuva, caminhou com esperança no coração e, sempre que o céu parecia ficar dourado, ele voltava a escurecer.

Não dava mais para esperar. Foi inebriante aquele segundo, o primeiro segundo em 30 anos, o primeiro segundo em 11 mil dias, o primeiro segundo em 264 mil horas e o primeiro segundo em 15 milhões de segundos em que o Liverpool se sentiu irreversível e inequivocamente campeão da Inglaterra.

O torcedor do Liverpool havia esperado o suficiente para uma vida inteira.

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