Esta segunda-feira será um dia diferente em Liverpool. Um dia de dor e de lembranças. Há 30 anos, o Liverpool enfrentou o Nottingham Forest, pela semifinal da Copa da Inglaterra, no estádio de Hillsborough. Há 30 anos, 96 dos seus torcedores, sendo 38 adolescentes, sete garotas ou mulheres, uma mãe e 25 pais, viajaram para ver um jogo de futebol e nunca retornaram. E 30 anos ainda não foram o bastante para que as famílias das vítimas, difamadas pelas autoridades, culpadas pelas suas próprias mortes, encontrassem justiça pelos seus entes queridos e perdidos.

James Gary Aspinall tinha 18 anos. Morreu de asfixia. O seu pai Jimmy também estava em Hillsborough, em outro setor da arquibancada, e assistiu ao desastre “impotente para ajudar seu filho quando ele mais precisava”, segundo contou ao inquérito. Em seu túmulo, consta a frase “carregue-me em seu coração como um fogo”, do cantor irlandês Chris de Burgh. “James tem sido carregado em nossos corações todos os dias dos últimos 25 anos”, disse o seu irmão David, em 2014.

Houve avanços muito relevantes nesse sentido. O principal deles foi de percepção pública. Durante mais de duas décadas, muitos ainda acreditaram nas mentiras de que os torcedores do Liverpool que estavam naquele jogo eram bárbaros que urinaram nos mortos, roubaram suas carteiras e agrediram profissionais de emergência. Apenas em 2012 um relatório de um painel independente que investigou o caso gerou consenso no senso comum sobre a verdade: Hillsborough foi um caso de negligência e falta de preparo dos organizadores, não de hooliganismo.

Gerard Bernard Patrick Baron tinha 67 anos. Foi a pessoa mais velha a morrer em Hillsborough. Seu irmão Kevin defendeu o Liverpool na final da Copa da Inglaterra de 1950, contra o Arsenal. Viajou a Sheffield com o filho Gordon. “As últimas palavras que disse ao meu pai foram: ‘Você ficará bem’. Como eu estava errado”.

O relatório está de acordo com as descobertas do inquérito da época, liderado pelo lorde Peter Taylor, idealizador do pacote de medidas que efetivou diversas mudanças nos estádios britânicos, e gerou pedidos de desculpas em nome do Governo, por parte do então primeiro-ministro da época, David Cameron, na Casa dos Comuns: “Diante do peso das novas evidências desse relatório, é apropriado que eu, como primeiro-ministro, peça desculpas às famílias das 96 vítimas por tudo que sofreram nos últimos 23 anos. As novas evidências apresentadas deixam claro que essas famílias sofreram uma injustiça dupla. A injustiça dos assustadores eventos – a falha do Estado de proteger seus amados e a indefensável espera pela verdade. E a injustiça da difamação aos mortos – de que, de alguma maneira, eles foram responsáveis por suas próprias mortes”.

Andrew Mark Brookes tinha 26 anos. Sua irmã, Louise Brookes, perdeu a mãe para o câncer, em 2000, e enterrou o pai dez dias antes da reabertura do inquérito, em 2014. “Minha mãe e meu pai nunca se recuperaram. Meu pai se fechou, nunca voltou ao trabalho. Eu não perdi apenas meu irmão em 15 e abril de 1989. Eu perdi meus pais também. Toda a família Brookes morreu naquele dia. Levou minha vida. Eu não vivo. Eu existo. Eu existo por uma razão, e por apenas uma razão: para garantir que a morte do meu irmão não foi em vão”.

Outro que esteve envolvido no acobertamento e pediu desculpas foi o jornal The Sun. As acusações de comportamento apavorante por parte dos torcedores do Liverpool foram publicadas na capa do tabloide, sob a manchete “A Verdade”. Depois da publicação do relatório independente, o The Sun colocou nas ruas outra capa, “A Real Verdade”, em que pede desculpas pela reportagem mentirosa. Não foi o bastante para aplacar o ódio dos moradores de Liverpool, responsáveis por uma campanha de boicote – Don’t buy The Sun – ao jornal que, desde 2017, é proibido de entrar em Anfield ou em Melwood, centro de treinamentos dos Reds.

Henry Thomas Burke tinha 47 anos. A sua esposa Christine nunca conseguiu entender por que as outras pessoas o achavam engraçado. Uma semana antes do jogo, a sua filha, também chamada Christine, chegou em casa e encontrou o pai sentado à mesa, jantando, com um rosto triste. “Eu coloquei meus braços em volta dele, ele me olhou e eu disse: ‘Pai, eu sei que não lhe digo isso sempre, não é o meu jeito, mas eu realmente o amo, sempre se lembre disso’. Meu pai começou a chorar. Eu apenas queria ter estado com ele, quando ele estava deitado no gramado sozinho, para segurar sua mão como ele segurou a minha a vida inteira. Não estávamos. Ninguém da família estava com ele e temos que viver com isso todos os dias”.

O segundo avanço relevante veio em 2016, quando o júri de um tribunal em Warrington ratificou o relatório independente e determinou que a negligência da polícia foi responsável pelas 96 mortes e que os torcedores do Liverpool tiveram nenhuma responsabilidade pelo que aconteceu. Significativo, do ponto de vista simbólico, porque o mesmo sistema que tentou culpar as vítimas, por meio de calúnias, finalmente as estava absolvendo. E, do ponto de vista prático, porque abriu as portas para queixas criminais contra os verdadeiros responsáveis. Afinal, se houve negligência, alguém a cometeu. Seis alguéns, segundo o Serviço de Acusação da Coroa.

Jon-Paul Gilhooley tinha 10 anos. A pessoa mais nova a morrer em Hillsborough. Foi batizado em homenagem ao papa João Paulo II. Amava esportes, especialmente natação e futebol. Um dia, os pais acordaram com um barulho no andar de baixo e foram verificar. Era o filho à frente da televisão assistindo às Olimpíadas de Seul. Outra vez, pediu a mãe uma cesta e retornou com seis gatinhos que haviam sido abandonados dentro dela. Seu primo mais novo é Steven Gerrard. “Jon-Paul ficaria muito orgulhoso de Steven”, disse sua mãe Jacqueline.

David Duckenfield, comandante da polícia no dia do desastre, foi processado por grave negligência pela morte de 95 pessoas. A última vítima, Tony Bland, sofreu danos cerebrais severos na tragédia e morreu apenas quatro anos depois. De acordo com a lei da época, queixas criminais não poderiam ser apresentadas se a vítima faleceu mais de um ano e um dia depois dos atos que supostamente causaram sua morte. Norman Bettison, inspetor da polícia de South Yorkshire, acusado em quatro denúncias de má conduta em cargo público pelo seu papel na tentativa de difamar os mortos. Graham Mackrell, secretário do Sheffield Wednesday, dono de Hillsborough, era responsável pela segurança das pessoas durante o jogo e foi denunciado por não ter conseguido fazer isso. Peter Metcalf, Donald Denton e Alan Foster, respectivamente procurador, superintendente e detetive-chefe da Polícia de South Yorkshire, respondem por obstrução de Justiça.

Thomas Anthony Howard Jr tinha 14 anos. Tommy era entusiasta de caratê e mostrava cada golpe novo que aprendia à família. A mãe Linda Garton não queria que ele fosse ao jogo, mas o pai, que também morreu na tragédia, insistiu em levá-lo. “Ele ficará bem. Ele estará comigo”, disse Thomas Howard. “Eu vi da janela da cozinha ele andando na calçada, no outro lado da casa. Ele se virou e acenou. Eu acenei de volta. Ele estava tão feliz e eu pensei comigo mesma se ele me daria mais um aceno. Eu sentia que meu coração partiria se ele não desse. Eu não sei por que eu me senti assim, mas o meu Tommy se virou e me deu um último adorável aceno. Eu não sabia que seria a última vez que eu o veria”, lembrou Linda.

“Muitos mais poderiam ser denunciados se nós tivéssemos a Justiça que merecíamos durante todos esses anos. Seis pessoas não parecem muito quando você percebe quantos estavam envolvidos na sujeira e nos encobrimentos que ocorreram depois de 15 de abril de 1989, mas é aqui que chegamos – e você não pode fazer nada, além de pensar nas pessoas que não viveram para ver este dia”, escreveu, no Guardian, Martin Thompson, que perdeu o irmão mais novo Stuart, de 17 anos, em Hillsborough. “Quando eu deito na cama, e penso nos anos de noites sem dormir, e nas lágrimas que derramei por Hillsborough, sei que dormirei profundamente. Há seis pessoas cujas vidas mudarão para sempre, e elas são bem-vindas à ansiedade e as noites sem dormir que virão pela frente”.

David William Mather tinha 19 anos. Trabalhava nos Correios, mas queria ser policial. Quando tirou carteira de habilitação, entupiu o irmão John de lanches do McDonalds comprados no drive-through. “Nossa mãe não se despediu do seu filho naquele dia e deseja mais do que qualquer coisa ter a chance de se despedir dele uma última vez”, contou John. As cinzas de David descansam na arquibancada Kop de Anfield.

Dois anos depois das denúncias, isso, porém, ainda não aconteceu. As acusações contra Bettison foram retiradas, em agosto de 2018. Ele respondia por ter mentido sobre o seu papel na resposta da polícia de South Yorkshire e pelas suas opiniões sobre o comportamento dos torcedores. Uma testemunha do caso morreu e apareceram inconsistências nos relatos de outras duas. A Procuradoria alegou que as quatro denúncias de má conduta em cargo público faziam parte de uma “narrativa” de um “padrão de comportamento” e, com três delas retiradas, o “fio da meada foi perdido”. O caso ficou fraco demais.

Paul Brian Murray tinha 14 anos. Ganhou o ingresso para a semifinal da Copa da Inglaterra no dia 12 de abril, três dias antes do jogo, e pulou de alegria. “Esse é o melhor dia da minha vida”, comemorou. Costumava dizer que queria ser famoso. “De uma maneira estranha, seu desejo foi realizado em uma pequena parte de Stoke-on-Trent”, disse a mãe Edna.

No começo de abril, um júri em Preston não chegou a um veredicto para condenar Duckenfield, acusado de 95 assassinatos por negligência grave. Ele havia sido promovido a superintendente-chefe apenas 19 dias antes da semifinal da Copa da Inglaterra e nunca supervisionara um jogo. Cometeu diversos erros, como não orientar que o começo da partida fosse atrasado para controlar melhor a entrada em massa de torcedores, tratar o caso como hooliganismo e até mesmo retardar a entrada de socorro ao gramado, além de mentir sobre tudo isso. A sentença máxima da acusação seria prisão perpétua, e o fardo das evidências é alto. A acusação precisa provar que o réu era responsável pelas pessoas que morreram e, em seguida, que suas decisões violaram essa responsabilidade e causaram a morte, não apenas estabelecendo erro, mas considerando que o comportamento do réu foi diferente ao que uma pessoa razoável teria. A Procuradoria buscará um novo julgamento, pelas mesmas acusações contra Duckenfield. Denton, Metcalf e Foster ainda não foram julgados.

Inger Shah tinha 38 anos. Cresceu em uma pequena cidade de pesca a 80 quilômetros de Copenhague, na Dinamarca. Tinha uma vasta coleção de livros, de Charles Dickens a Grahame Green e George Orwell. A filha Rebecca contou que a televisão dinamarquesa transmitia jogos de apenas dois times ingleses: Leeds e Liverpool. Como era muito fã de Beatles, escolheu o segundo para torcer. Foi ao jogo com o filho Daniel, que sobreviveu. Rebecca não conseguiu ingresso e, apesar dos apelos da mãe para viajar a Sheffield e tentar arrumar um antes da partida, decidiu ficar em casa. Inger era mãe solteira, divorciada um ano antes de Hillsborough. Com sua morte, os dois filhos foram entregues ao serviço social até completarem 18 anos.

Enquanto lamentam, pelo menos por enquanto, a absolvição de Duckenfield, as famílias comemoraram a primeira condenação criminal de Hillsborough. Graham Mackrell era secretário e oficial de segurança do Sheffield Wednesday, uma posição criada meses antes de sua chegada, na repercussão do incêndio do estádio do Bradford, em 1985, que custou 56 vidas. Ele seguiu trabalhando normalmente no futebol depois da tragédia, como diretor de sede de Hillsborough durante a Eurocopa de 1996 e depois como executivo-chefe do West Ham. Mas, no mesmo dia do julgamento de Duckenfield, Mackrell foi condenado por violar a responsabilidade legal de cuidar da segurança do público, especificamente disponibilizando menos catracas do que o recomendado. “O que as pessoas querem? É fácil dizer que elas querem que uma cabeça role, mas não vão conseguir. Então, para onde isso vai?”, questionou Mackrell, em uma entrevista de 2004. A sentença, provavelmente uma multa, será entregue em 13 de maio.

Ian David Whelan tinha 19 anos. Seu apelido era Ronnie, em alusão ao seu herói, o meia Ronnie Whelan. Desenhava caricaturas de jogadores do Liverpool e enviava a Anfield pedindo que eles as autografassem e mandassem de volta. A maioria fazia isso. Era fã de U2. Na manhã da partida, passou na casa da namorada Joanne e deixou duas rosas na soleira da porta. “Ele não bateu na porta porque sabia que ela estava se arrumando para trabalhar e não queria que ela se atrasasse, então apenas as deixou no lado de fora, como uma surpresa para ela”, contou o pai Wilf.

Nesta segunda-feira, haverá um minuto de silêncio em toda a cidade às 15h06 (horário local), o momento em que a partida contra o Nottingham Forest, 30 anos atrás, foi interrompida. O rosto dos mortos está pendurado no St. George’s Hall, prédio que recebe eventos e é sede de alguns tribunais, onde 96 velas serão acesas. O tráfego será interrompido nos túneis, os sinos da prefeitura darão 96 badaladas e as balsas do rio Mersey acionarão suas buzinas. A arquibancada Kop de Anfield será aberta para os torcedores que quiserem prestar suas homenagens.

Em todos os cantos da cidade, Liverpool relembrará filhos e filhas perdidos para a incompetência e a negligência das pessoas que deveriam ter feito um trabalho muito melhor para cuidar deles, ciente de que a luta por Justiça para os 96 mortos está chegando ao fim, mas ainda não terminou.

Philip Hammond, Lee Nicol, Adam Edward Spearritt, Peter Andrew Harrison, Victoria Jane Hicks, Philip John Steele, Kevin Tyrrell, Kevin Daniel Williams, Kester Roger Marcus Ball, Nicholas Michael Hewitt, Martin Kevin Traynor, Simon Bell, Carl Darren Hewitt, Keith McGrath, Stephen Francis O’Neill, Steven Joseph Robinson, Henry Charles Rogers, Stuart Paul William Thompson, Graham John Wright, Carl Brown, Paul Clark, Christopher Barry Devonside, Gary Philip Jones, Carl David Lewis, John McBrien, Jonathon Owens, Colin Mark Ashcroft, Paul William Carlile, Gary Christopher Church, James Philip Delaney, Sarah Lousi Hicks, Colin Wafer, Stephen Paul Copoc, Ian Thomas Glover, Gordon Rodney Horn, Paul David Brady, Thomas Steven Fox, Marian Hazel McCabe, Joseph Daniel McCarthy, Peter McDonnell, Carl William Rimmer, Peter Francis Tootle, David John Benson, David William Birtle, Tony Bland, Gary Collins, Tracey Elizabeth Cox, William Roy Pemberton, Colin Andrew Hugh William Sefton, David Leonard Thomas, Peter Andrew Burkett, Derrick George Godwin, Graham John Roberts, David Steven Brown, Richard Jones, Barry Sidney Bennett, Paul Anthony Hewitson, Paula Ann Smith, Christopher James Traynor, Barry Glover, Garry Harrison, Christine Anne Jones, Nicholas Peter Joynes, Francis Joseph McAllister, Alan McGlone, Joseph Clark, Christopher Edwards, James Robert Hennessy, Alan Johnston, Anthony Peter Kelly, Martin Kennetth Wild, Peter Reuben Thompson, Stephen Francis Harrison, Eric Hankin, Vincent Michael Fitzsimmons, Roy Harry Hamilton, Patrick John Thompson, Michael David Kelly, Brian Christopher Matthews, David George Rimmer, David Hawley, Arthur Horrocks, Eric George Hughes, Raymond Thomas Chapman e John Alfred Anderson também morreram em Hillsborough.

O memorial de Hillsborough, em Anfield, com o nome de todas as vítimas (Foto: Getty Images)

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