A jornada das famílias em busca de justiça para as 96 vítimas da tragédia de Hillsborough está próxima do fim. Nesta quarta-feira, o Serviço de Acusação da Coroa denunciou criminalmente seis pessoas pelo desastre que mudou o rumo do futebol inglês e da vida dos parentes de quase uma centena de pessoas que perderam suas vidas.

Essa era uma das últimas ambições das famílias que batalharam ao longo dos últimos 28 anos por justiça para os seus entes queridos e perdidos. A primeira vitória foi alcançada em 2012, quando um painel independente inocentou a torcida do Liverpool pelos acontecimentos daquela semifinal da Copa da Inglaterra. O governo britânico e o jornal The Sun pediram desculpas pela maneira como trataram o caso.

Ano passado, um júri determinou que a negligência da polícia foi responsável pelas 96 mortes e que os torcedores não tiveram nenhuma responsabilidade pelo que aconteceu, ao contrário do que se acreditou durante muitos anos. Logo, o próximo passo natural seria processar criminalmente os responsáveis por essa negligência, e foi isso que aconteceu nesta quarta-feira.

“Seguindo nosso cuidadoso processo de revisão das evidências, decidi que há provas suficientes para denunciar seis indivíduos criminalmente”, informou a chefe de crimes especiais e contra-terrorismo do Serviço de Acusação da Coroa, Sue Hemming. Entre as pessoas denunciadas, a mais conhecida é David Duckenfield, comandante da polícia no dia do jogo. Ele está sendo acusado de homicídio involuntário por grave negligência na morte de 95 das 96 vítimas.

“A mensagem é: ‘nunca desista'”, afirmou Margaret Aspinall, cujo filho James, de 18 anos, morreu na tragédia, segundo o Guardian. “Continue lutando. Isso nunca deveria acontecer novamente. Ninguém deveria passar por tudo isso para chegar à verdade. Este é o legado desse processo”. Um processo agonizante e tortuoso que já dura 28 anos, mas está finalmente chegando ao fim.

Entenda as acusações criminais contra seis pessoas pela Tragédia de Hillsborough:

David Duckenfield: Era o comandante da polícia no dia do desastre e suas ações – ou omissões – teriam sido responsáveis pelo que aconteceu. Ele está sendo acusado de homicídio involuntário por grave negligência na morte de 95 das 96 vítimas porque a última, Tony Bland, morreu apenas quatro anos depois do desastre. Existia uma lei na Inglaterra que diz que ninguém pode ser condenado por homicídio se a morte ocorreu quatro anos depois das feridas terem sido infligidas. Essa lei não existe mais.

A sentença máxima aqui é prisão perpétua. Para isso, a acusação precisa provar que o réu tinha responsabilidade de cuidar das pessoas que morreram. Em seguida, que as decisões do indivíduo, de agir ou não agir, violaram essa responsabilidade e causaram as mortes. Não basta simplesmente estabelecer que houve um erro: precisa ser considerado que o réu teve um comportamento diferente do que uma pessoa razoável teria.

Norman Bettison: Era funcionário da polícia de South Yorkshire e depois virou chefe de polícia. Foi acusado com quatro denúncias de má conduta em um cargo público. Segundo o Serviço de Acusação da Coroa, as denúncias são relacionadas às supostas mentiras sobre o seu envolvimento na repercussão de Hillsborough e na culpabilidade dos torcedores. Para ser condenado, a acusação precisa provar que ele deliberadamente negligenciou o seu dever ou deliberadamente agiu para quebrar a confiança do público. A sentença máxima também é prisão perpétua.

Graham Henry Mackrell: Era secretário do Sheffield Wednesday, dono do estádio de Hillsborough, e responsável pela segurança das pessoas durante o jogo. Há leis que regem a segurança de lugares públicos, e as pessoas responsáveis por esses lugares têm a responsabilidade de garantir a segurança das pessoas. Mackrell enfrenta duas acusações por não ter conseguido fazer isso.

Peter Metcalf, Donald Denton e Alan Foster: Respectivamente, procurador, superintendente e detetive-chefe da polícia de South Yorkshire na época dos primeiros inquéritos. São acusados de obstrução de justiça, de terem direcionado as investigações para o caminho errado. Teriam sugerido ou direcionado mudanças de depoimentos dos policiais que depuseram no inquérito.

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