Torcedores do Bury compareceram ao estádio Gigg Lane, nesta terça-feira, para limpar as arquibancadas e deixá-lo pronto para a partida contra o Doncaster, no próximo sábado, estreia do clube centenário na League One, terceira divisão do futebol inglês, depois que as suas cinco primeiras rodadas foram suspensas, enquanto a situação financeira era resolvida. Os esforços, de todos, foram em vão. Após 134 anos de filiação, o Bury foi excluído da Football League.

A entidade organiza da segunda à quarta divisão do país (e era também responsável pela primeira antes da criação da Premier League). Bicampeão da Copa da Inglaterra, o Bury nunca havia deixado a estrutura completamente profissional da Football League desde que foi aceito, nove anos depois de sua fundação, em 1885. Abaixo dela, o futebol inglês continua em uma série de degraus, mas com muitos clubes amadores ou semi-amadores. É a primeira exclusão da Football League desde as liquidações do Maidstone e do Aldershot, em 1992.

O Bury subiu na temporada passada, com o segundo lugar da quarta divisão, mas, com sérios problemas financeiros, o proprietário Steve Dale não conseguiu apresentar evidências de que o clube conseguiria cumprir seus compromissos financeiros, que incluem dívidas, hipotecas do estádio Gigg Lane e altos salários para os seus padrões. Sem essas garantias, a Football League determinou a sexta-feira da semana passada como prazo para que o Bury fosse vendido ou apresentasse as informações exigidas e suspendeu suas cinco primeiras rodadas, além da estreia na Copa da Liga contra o Sheffield Wednesday.

Uma proposta da empresa C&N Sporting Risk Limited havia sido aceita pelo proprietário Dale, que comprara o clube por £ 1, em dezembro do ano passado. A perspectiva positiva levou a Football League a estender o prazo até o fim da tarde desta terça-feira. No entanto, durante o processo de compra, a C&N Sporting Risk decidiu “não dar sequência ao seu interesse”. “Logo, após todas as opções disponíveis serem consideradas, inclusive uma série de expressões de interesse de última hora apresentadas à EFL, o comitê da EFL determinou, com unanimidade, e com enorme lamentação, que a filiação do Bury fosse retirada”, escreveu a entidade. A terceira divisão terá 23 equipes nesta temporada e apenas três serão rebaixadas, para restaurar o número total de 24 na próxima.

Torcedores limparam o estádio para o jogo de sábado contra o Doncaster, mas seus esforços foram em vão (Foto: Getty Images)

Em 2013, o Bury foi comprado por um empresário do ramo imobiliário chamado Stewart Day. Ele financiou o clube com empréstimos da sua empresa Mederco, especializada em construir prédios para estudantes. O problema é que o panorama econômico levou a própria Mederco a entrar em administração, e Day recorreu a hipotecas para levantar dinheiro. Além do negócio de risco, parte do dinheiro nunca chegou ao clube, segundo o antigo dono, para garantir baixas taxas de juro.

Apesar da grana curta, o Bury fortaleceu o seu time no começo da temporada passada, com uma série de contratações, para tentar o acesso à terceira divisão. Segundo o Transfermarkt, contava com o terceiro elenco mais valioso da League Two, em estimados € 5,9 milhões. Em campo, tudo certo: com o segundo lugar, a promoção foi garantida. Fora dele, os problemas financeiros continuaram levando Day a vender o clube para Steve Dale pelo valor simbólico de £ 1 em dezembro. Os atrasos de salário continuaram, com o novo proprietário alegando que herdou uma situação pior do que a avaliada durante os procedimentos da aquisição.

Os credores do Bury aprovaram um acordo que permitia ao clube pagar apenas 25% das suas dívidas, incluindo impostos. No entanto, esse acordo, chamado de Company Voluntary Arrangement (em tradução livre, Arranjo Empresarial Voluntário), levou à dedução de 12 pontos nesta temporada da League One. Além disso, insatisfeita com a capacidade de o clube cumprir seus compromissos, a Football League estabeleceu um período de 14 dias para que as garantias necessárias fossem apresentadas ou para que o clube fosse vendido, prazo que terminou na última sexta-feira.

“Este é sem dúvida um dos piores dias da história recente da liga”, afirmou a presidente-executiva, Debbie Jevans. “A Football League trabalhou com determinação para evitar esse resultado e é com coração pesado que a situação nos foi forçada. A Football League tem que colocar a integridade de nossas competições no coração de cada decisão que tomamos e simplesmente não podemos permitir que essa situação inaceitável continue, com a perspectiva de mais adiamentos de partidas. Ninguém queria estar nesta posição, mas, após vários prazos não cumpridos, e a suspensão de cinco rodadas, além de não receber evidências exigidas para os compromissos financeiros e uma possível venda não se materializando, o comitê da EFL foi forçado a tomar a mais difícil das decisões”.

Torcedor do Bury nos portões do Gigg Lane (Foto: Getty Images)

O Bolton também está próximo de ser excluído. Recebeu uma extensão de 14 dias para resolver os seus problemas, e a situação de dois clubes importantes para suas comunidades levantou algumas discussões no futebol inglês. Uma delas é se esses clubes de pouca relevância nacional, mas fortes regionalmente, ainda têm um espaço dentro de um jogo em que a discrepância financeira para a elite é cada vez maior. A segunda, também muito importante, diz respeito às regulamentações da Football League para aprovar as vendas dos seus filiados. Por que, meses depois da aquisição, a entidade ainda está exigindo garantias financeiras do novo dono do Bury? Porque não fez isso em dezembro, antes da venda?

Enquanto essas questões não são respondidas, um clube centenário praticamente deixou de existir. Pode, segundo a EFL, se candidatar junto à Federação Inglesa para retornar ao futebol organizado em um nível inferior da pirâmide a partir de 2020/21. Mas nem isso é garantido, e jogadores e funcionários ficaram sem empregos, e toda uma comunidade que exercia boa parte de suas relações sociais por meio do Bury ficou órfã.