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Quem assiste aos jogos mais recentes da Serie A pode achar, pelo futebol jogado, que a Atalanta é quem lidera e que será difícil pará-la. A segunda parte da sentença pode ser verdadeira, mas a primeira não. É a Juventus que está com a mão na taça, pelo desempenho ao longo de toda a temporada. Isso, porém, não parece animar muito. A Juventus que deve ganhar o seu nono título italiano consecutivo, mas a sensação é que este time é a pior versão de toda essa sequência.

O desempenho do time dirigido por Maurizio Sarri não vem sendo bom desde antes mesmo da pandemia, ainda que os resultados sejam positivos, na maioria das vezes. A derrota para o Milan, porém, levantou questionamentos. Os jogos seguintes trouxeram ainda mais críticas. O empate por 2 a 2 com a Atalanta veio com os adversários jogando melhor. Nesta quarta-feira, diante do Sassuolo, fora de casa, o que se viu, mais uma vez, foi um adversário melhor na maior parte do jogo, que finalizou incríveis 22 vezes ao gol da Juventus. O empate por 3 a 3 pareceu mais do que a Juventus merecia.

Com tudo isso, a Velha Senhora é líder absoluta, com 77 pontos, sete a mais que a Atalanta, segunda colocada no momento, e pode ser de seis, caso a Inter vença o jogo a menos que tem para fazer. A vantagem é grande demais e parece bastante improvável que seja perdida até o fim da Serie A. Ainda assim, a sensação é que o time de Sarri está chegando ao fim do campeonato no seu pior momento, torcendo para que o final chegue logo.

Sarri tem um trabalho difícil em mãos, mas a culpa não é só do técnico. Há uma falta de sintonia entre o que deveria ser esta temporada e o que efetivamente é. O técnico contratado tinha a missão de mudar o estilo de jogo do time, construído em bases com Antonio Conte e Massimiliano Allegri, com um jogo que tinha em lançamentos longos uma estratégia de jogo, diametralmente diferentes do que faz Sarri. Era de se esperar, portanto, alguns problemas. Só que mais do que um problema de transição, há, aparentemente, uma resistência grande em relação a mudar de forma tão grande uma fórmula que vinha sendo vencedora e que os jogadores pareciam confortáveis em aplicar. O desgaste de Allegri tinha mais a ver com o seu temperamento explosivo do que propriamente com o estilo de jogo.

O Chelsea foi uma experiência dura para Sarri nesse sentido. Em um país onde o estilo de futebol é muito corrido, o jeito de jogador do ex-técnico do Napoli, com mais cadência e controle, por vezes irrita os torcedores. Sua passagem terminou com a classificação à Champions League e o título da Liga Europa, mas os torcedores estavam infelizes com o que viam em campo. Mesmo com a melhora na reta final, que foi clara. Por lá, o “Sarribol” nunca foi plenamente incorporado e muito menos aceito.

No caso da Juventus, a mudança veio a reboque de uma tentativa de subir o sarrafo especialmente na Champions League. Sarri voltava ao país onde teve que fazer a Juventus ser a melhor versão de si mesma para impedir o scudetto do Napoli em 2017/18. Foi naquela temporada que o Napoli do treinador chegou a 91 pontos, obrigando a Juve a manter um ritmo alto e chegar a 95. Quando Sarri é contratado, é esse tipo de resultado que se espera. O que se viu, porém, tem muito mais a ver com o conflito interno do Chelsea.

A diferença é que o Napoli tinha jogadores que foram moldados para jogar com o estilo de Sarri. Alguns foram adaptador por ele para renderem. Hamsik e Jorginho davam uma cadência com estilo, com Allan sendo a musculatura. Jogadores como Lorenzo Insigne e Dries Mertens aprenderam a jogar com mais paciência e se tornaram melhores assim. Na Juventus, em geral quem chega é que precisa se adaptar ao clube – algo que, por exemplo, Daniel Alves sentiu na pele como jogador. Se no Chelsea isso já aconteceu, em menor medida, na Juventus o choque cultural é ainda maior. O time bianconero pareceu muito mais resistente ao estilo de Sarri do que se imaginava. Até porque foi o estilo que venceu o melhor Sarri que já se viu até aqui.

Foram poucos jogadores que chegaram à Juventus na atual temporada e que ajudaram a promover a mudança que se esperava. Matthijs De Ligt foi o que mais poderia ajudar Sarri, mas ele teve dificuldades no início da sua trajetória, o que dificultou ainda mais a situação. Danilo chegou, mas é só um reserva para as laterais; Aaron Ramsey e Adrien Rabiot foram oportunidades de mercado que chegaram de graça e não conseguiram se tornar mais do que boas peças de reposição, e nem possuem estilo de jogo que se encaixe para o que o técnico quer fazer.

Dos reforços, o mais útil foi aquele nem foi um reforço e parecia mais uma sobra de elenco e que só ficou porque não se achou uma solução melhor: Gonzalo Higuaín. Ele voltou de empréstimo ao Chelsea e não parecia ter muito mais mercado depois de passagens pouco relevantes por Milan e no próprio Chelsea. E mesmo o argentino não está nas suas melhores temporadas, embora marque seus gols.

Nem diretoria e nem os jogadores parecem estar dispostos a abraçar as ideias de Sarri, o que é um problema. Só que aqui o técnico peca por um motivo similar ao que aconteceu no Chelsea: falta a Sarri a capacidade de convencimento e mobilização do grupo para seguir sua visão. Esta é uma parte bastante importante do trabalho. Bruno Grossi falou sobre isso no texto sobre este mesmo problema de Quique Setién. Ideias são essenciais, mas capacidade de mobilizar em torno disso é também muito relevante e fundamental para o sucesso. É preciso algum equilíbrio aqui, porque uma ideia sem mobilização é só uma abstração. Uma mobilização enorme com uma ideia fraca se torna um time apenas brigador.

A impressão que temos é que o time parece resistir a aderir ao “Sarribol”, com nomes consagrados parecendo entediados com uma ideia que eles não acreditam. O time parece cansar em tocar a bola de lado e logo busca uma brecha para o jogo mais direto. À medida que os jogadores veem aquilo que o técnico diz acontecer em campo, acreditam mais. Sem que os jogadores comprem a ideia, é muito mais complicado de tornar isso tudo uma realidade. A ideia não acontece porque os jogadores não compram, que por sua vez se tornam mais resistentes a fazê-lo, uma vez que os resultados não chegam como se espera. Um ciclo que desgasta todas as partes.

Há vários problemas que emergem deste time da Juventus. A melhor versão de Sarri tinha um meio-campo extremamente consistente e completo. Marek Hamsik, Allan e Jorginho formavam um trio que combinava bem técnica, físico e bom posicionamento. Na Juventus, o setor já foi cheio de astros com calibre até maior do que os citados do Napoli, mas o que vemos atualmente é um meio-campo que é uma sombra do que já foi.

Miralem Pjanic, Blaise Matuidi e Rodrigo Betancur têm qualidades, mas para um time que teve Andrea Pirlo, Arturo Vidal, Paul Pogba e Claudio Marchisio, parece muito mais fraco. Todos eles seriam bons coadjuvantes de um bom time. Juntos, são três coadjuvantes em um setor onde o Sarribol pulsa. Os jogadores que chegaram, Aaron Ramsey e Adrien Rabiot, também deixaram a desejar em termos de desempenho. Nenhum deles conseguiu desabrochar como um destaque técnico que pudesse ditar o ritmo do time. E Pjanic já foi descartado para a próxima temporada.

Jorginho se tornou o jogador que tinha a marca registrada de Sarri, mas Pjanic, por mais qualidade que tenha, não conseguiu ser. Betancur é um jovem que mostra capacidade de ser um ótimo jogador, mas ele tem muito mais características do estilo Allegri: físico, determinado e quase sempre bastante objetivo. Não é um jogador de controle, é um jogador de um jogo mais direto. Matuidi também. É um jogador que tem dinâmica para ser muito veloz na transição, tanto defensiva quanto ofensiva, mas não é um jogador de manutenção de posse de bola.

Pjanic poderia e Sarri o colocou para ser o nome que dá ritmo. Mas ele não estava acostumado a atuar daquela forma, como um armador recuado, à frente dos zagueiros. Tem bons jogos, mas não tem sido consistente como já foi antes na própria Juventus e como era na Roma. É um meio-campista central bastante competente, mas não é um armador recuado como são Jorginho ou Marco Verratti, por exemplo, jogadores da seleção italiana, ou Sandro Tonali, do Brescia, que atuam dando um passo atrás para fazer a bola girar. Até porque a sua atuação sem a bola precisa ser tão boa ou melhor do que a com ela, para ter pressão e recuperação rápida. Quando o poder de marcação não é tão forte, é preciso que a pressão compense.

A Juventus é um time que não faz a bola girar, exatamente, e sim quer o ritmo forte que seus jogadores pedem, como Federico Bernardeschi, Paulo Dybala e mesmo Cristiano Ronaldo. Os que estão no banco também quase pedem isso com a bola, como Douglas Costa, sempre veloz e habilidoso. É um jogador que pouco se vê parar e tocar a bola, pacientemente, girando o adversário para criar espaços.

Arthur chegará para tentar fazer esse papel de um Pirlo, mas precisará de alguma adaptação, porque não é o que faz no Barcelona e nem na seleção brasileira. A essa altura, é difícil até garantir que o técnico será mesmo Sarri. Porque a Juventus parece um time que derrete a cada rodada, agonizando no seu próprio modo de jogar e vendo adversários o dominarem em largas porções do jogo. Para uma equipe tão dominante e vencedora, é algo que incomoda demais.

A Juventus conquistará o seu nono scudetto, mas precisará mostrar mais do que isso para a próxima temporada. Se a primeira temporada trazia muitas dúvidas sobre o desempenho do time de Turim e a capacidade de manter a coroa de rei da Itália pela mudança com Sarri, este primeiro ano não resolveu nada disso. O time se manterá no topo da tabela em 2019/20, mas o desempenho não convenceu que esse é o caminho a ser seguido. Em parte, se valerá de um desempenho muito irregular dos rivais, incluindo a Atalanta, que voltou voando depois da pandemia e que já fazia grandes jogos antes, mas que desperdiçou pontos ao longo do caminho que a impedem de estar a uma distância de buscar.

Times como a Lazio e a Inter tiveram bons momentos no campeonato, mas também outros ruins. A Inter foi alternando bons e maus momentos, enquanto a Lazio parecia em um embalo incrível e virou o fio de forma quase irreversível nesta reta final. A diferença é que todos esses times terão uma temporada a mais nas costas para a próxima, com a experiência de tudo que veio. Conte irá para o segundo ano sob o comando na Inter; a Lazio tende a buscar consertar o rumo e melhorar o elenco para ter mais profundidade na disputa; a Atalanta se tornou ainda mais atraente. Sarri terá outro ano na Juventus? Em que condições? Isso já faz com que as dúvidas aumentem.

Há, porém, uma tábua de salvação que pode dar muita força a Sarri e seu estilo: a Champions League. Afinal, é o grande desejo dos bianconeri e o time está na disputa. Precisará vencer o Lyon no jogo de volta das oitavas de final, em Turim, para garantir a passagem para Lisboa, onde será disputa da fase final. Se conseguir fazer o time render nessa fase final e crescer para levar a taça, o Sarribol conseguirá algo que a Juventus persegue desde 1996. E isso será uma força grande de convencimento.

Por enquanto, a sensação é que a Juventus será uma campeã sem muita graça, com o encantamento ficando todo para a Atalanta, quase que nos fazendo esquecer de um futebol insosso sem o público e em meio a tanta tristeza da pandemia de coronavírus.