Os desdobramentos da crise política na Bolívia afetaram diretamente o Campeonato Boliviano. A competição permaneceu paralisada ao longo de 36 dias, impossibilitada pelo caos que tomou as ruas do país e que impediu o próprio transporte das equipes. No entanto, mesmo com uma queda de braço entre os clubes, chegou-se a um consenso para comprimir o calendário nas últimas semanas do ano e concluir o Torneio Clausura ainda em 2019, para evitar maiores prejuízos financeiros às agremiações. E, neste sábado, durante a última rodada, o Jorge Wilstermann proclamou-se campeão. O Aviador manteve a liderança que estava consigo desde a interrupção e comemorou seu 15° título nacional – apesar do risco de tapetão.

Durante toda a campanha, o Jorge Wilstermann se manteve na luta pelo topo da tabela. O Bolívar foi o principal concorrente até o final do primeiro turno do Clausura, mas o Aviador tomou a dianteira no final de setembro e não largou mais a primeira colocação. Na última rodada antes da paralisação, o clube de Cochabamba sustentava uma vantagem de três pontos após 16 partidas. E a gordura se manteve durante a maratona de nove rodadas nos últimos 34 dias. O Bolívar até chegou a encostar, sem ultrapassar o Wilstermann em nenhum momento. Além disso, o Strongest passou a correr por fora, mas sem ir além.

Neste sábado, o Jorge Wilstermann precisava de uma vitória para não depender de qualquer outro resultado e se sagrar campeão. Assim se cumpriu, ao derrotar o Oriente Petrolero por 3 a 1 no Estádio Félix Capriles, diante de uma enorme festa de sua torcida. O Strongest tomou a segunda colocação, ao derrotar o Destroyers por 3 a 2 fora de casa. Já o Bolívar caiu para o terceiro posto com o empate por 2 a 2 diante do Royal Pari, em La Paz. O Aviador encerrou sua campanha com 60 pontos, três a mais que o Strongest. Caso houvesse uma igualdade, as equipes seriam ainda forçadas a um jogo extra.

Com 18 vitórias e apenas duas derrotas, o Jorge Wilstermann se impôs em uma disputa nivelada por cima. Os três primeiros colocados do Clausura superaram os 70% de aproveitamento. Embora o ataque do Aviador tenha sido apenas o quarto melhor do certame, a equipe compensou com a força de sua defesa, sofrendo apenas 21 tentos. Além do mais, o gás recente ajudou. Os cochabambinos não sabem o que é derrota há quase quatro meses. São 17 partidas de invencibilidade, com 11 vitórias no intervalo. Foram quatro triunfos nas quatro últimas rodadas, que permitiram o impulso final à conquista.

Nome frequente na seleção boliviana, Gilbert Álvarez foi o destaque do Jorge Wilstermann no título. O centroavante anotou 18 gols, vice-artilheiro do Clausura, um tento atrás de Carlos Salcedo, do San José de Oruro. Além dele, nomes como o brasileiro Serginho, o argentino Cristian Chávez, o paraguaio Arnaldo Giménez e o boliviano Edward Zenteno apareceram entre os protagonistas. Alex Silva, por sua vez, aposentou-se no primeiro semestre e recusou a proposta para se tornar dirigente do Aviador. O comando técnico esteve nas mãos de Cristián Díaz, argentino que chegou a dirigir o Independiente após se aposentar dos gramados e que chegou a Cochabamba durante este Clausura.

O desfecho do Torneio Clausura definiu os representantes do país nas competições continentais. O Jorge Wilstermann passou a integrar o Grupo C da Libertadores, adversário do Athletico Paranaense. Strongest e San José entram nas preliminares. O Bolívar, definido previamente, aparece na chave do Palmeiras. Já na Copa Sul-Americana, Nacional de Potosí, Blooming, Always Ready e Oriente Petrolero carimbaram seu lugar – este último, no caminho do Vasco durante a primeira fase.

O único impasse que resta ao Campeonato Boliviano fica para a definição do descenso, o que pode gerar consequências além. O Sport Boys de Warnes não disputou sua última partida contra o Real Potosí, alegando dificuldades nos transportes. Na penúltima colocação, a equipe terminou empatada com o lanterna Destroyers na tabela anual e o regulamento ordena que disputem um jogo-desempate. O último colocado cai diretamente, enquanto o penúltimo ainda disputa playoffs contra o vice-campeão da segundona. Em crise financeira e institucional, o clube de Warnes chegou a ter nove pontos deduzidos por conta de salários atrasados.

Caso a federação boliviana aplique o regulamento disciplinar e avalie a negligência do Sport Boys no caso, precisará desfiliar a agremiação e descontar seus pontos ao longo de todo o campeonato. Com isso, Jorge Wilstermann e Strongest terminariam igualados no Clausura, o que forçaria um jogo-extra. O Tigre já se manifestou através de uma carta, pressionando a posição do comitê disciplinar. A diretoria cochabambina, todavia, prefere não discutir os riscos no momento para comemorar a conquista, que coroa o final de década positivo à sua equipe.

O Jorge Wilstermann, afinal, confirma um importante momento de sua história. Desde 2016, o Aviador conquistou três títulos em oito possíveis, igualado com o Bolívar no período. É a fase mais vitoriosa do clube desde o fim dos anos 1950, quando ascendeu como uma força nacional. Enquanto isso, impressiona a regularidade do Strongest. Os aurinegros foram vice-campeões em sete das últimas oito edições da liga, exceção feita justamente ao título no Apertura 2016. Apesar do risco de reviravolta, ao menos neste sábado, os paceños acompanharam mais uma vez de longe a festa dos campeões.