Orgulho. Apesar de tudo, orgulho. O apito final na Bombonera não cessou as vozes que vinham das arquibancadas. Pelo contrário, os torcedores do Boca Juniors cantaram mais alto para agradecer ao seu time, por todo o espírito exibido contra o River Plate na semifinal da Copa Libertadores. Os xeneizes souberam reconhecer como sua equipe não deixou de lutar e, assim, colocou a paixão acima de tudo. Porém, a cena de alento não significa que o clima é positivo em La Boca. Mais uma vez, os boquenses precisarão repensar os seus rumos, após a quinta eliminação consecutiva ante os maiores rivais.

A derrota na final da Copa Libertadores de 2018 provocou um desmanche geral do Boca Juniors. E não era exatamente um expurgo do elenco vice-campeão diante do River. Na verdade, a debandada mais parecia um desgaste. Guillermo Barros Schelotto teve uma passagem expressiva pelo banco de reservas do clube, ao conquistar o bicampeonato argentino, mas preferiu se mudar aos Estados Unidos. Da mesma maneira, outros tantos jogadores importantes viram os seus ciclos chegarem ao fim e partiram a novas experiências. Se os xeneizes já desejavam renovar seus brios, as contratações se tornaram obrigatórias.

Desde então, o Boca Juniors se reforçou à profusão. Trouxe jogadores renomados e outros tantos promissores para se reconstruir. Montou um elenco até mais recheado que o do próprio River Plate, dadas as diversas opções. E que rendeu resultados em campo, com a boa arrancada no Campeonato Argentino ou as imposições nos mata-matas anteriores da Libertadores. No entanto, os desgastes vieram no momento menos oportuno. As limitações já conhecidas ficaram ainda mais claras nestas semifinais. Restou se agarrar ao que o Boca representa, não ao que o Boca poderia fazer dentro de campo.

Não à toa, o reconhecimento da Bombonera veio a um time que jogou acima de seus próprios limites. O Boca Juniors conseguiu diminuir as distâncias contra um adversário superior, numa noite que parecia destinada às lagrimas. Na base do abafa, quase conseguiu uma reação miraculosa. Apoiado pelo jogador número 12, conseguiu intimidar os visitantes, que não aplicaram seu estilo usual e abusaram dos erros. A força defensiva boquense, entretanto, não surtiu efeito quando as necessidades estavam no ataque. O excesso de cruzamentos e de ligações diretas representou a insistência, mas também a falta de criatividade da equipe. Não seria suficiente, apesar da vitória.

Se os jogadores receberam os aplausos, nem todos no Boca Juniors desfrutam a mesma tranquilidade. O técnico Gustavo Alfaro falou em tom de despedida durante sua entrevista coletiva. Dono de um currículo ligado a clubes modestos, o comandante nunca desfrutou de muito moral na Bombonera. Aumentou a solidez defensiva e vinha colhendo resultados, mas falhou na sua principal missão. E não parece dos nomes mais indicados para liderar uma reinvenção dos xeneizes. Enquanto isso, as arquibancadas vociferavam contra o presidente Daniel Angelici. Com as próximas eleições se aproximando, os seguidos fracassos contra o River Plate explicam muito o descontentamento.

Há uma base para o Boca Juniors se redescobrir. Esteban Andrada não é um goleiro tão confiável, mas se coloca como uma figura importante na equipe. Possui à sua frente uma dupla de zaga muito firme, formada por Lisandro López e Carlos Izquierdoz. Uma fornada de jovens também surge, encabeçada por Alexis Mac Allister, que se soma a garotos forjados nas categorias de base e ganham vez nos últimos meses. E alguns medalhões possuem sua lenha para queimar, a exemplo de Mauro Zárate, outra vez negligenciado nas partidas decisivas contra o River Plate.

A mudança que o Boca Juniors precisa agora não é necessariamente uma limpa no elenco, até porque os gastos recentes foram altos. É possível aparar as arestas com o que está disponível na Bombonera e lutar pelo Campeonato Argentino. A questão maior é de filosofia. Por mais que a raça seja um fator indissociável à história xeneize, o amargor recente contra o River Plate mostra como isso não basta. O Boca precisa de mais recursos dentro de campo. Por isso, mesmo que precoce, a reavaliação de Alfaro tem sua razão. O resultadismo no entorno além da Libertadores não satisfaz.

Além disso, o passo natural também será uma mudança mais ampla na tomada de decisões. Apesar dos altos investimentos, Angelici esteve longe de cumprir suas metas à frente do Boca Juniors. A sina nos superclássicos também entra na conta do ex-presidente, que conduziu os processos nestes últimos cinco anos e não conseguiu dar a volta por cima contra Gallardo. Talvez até por isso, os xeneizes não se importam tanto em viver meses de entressafra. Muitas escolhas da diretoria se provaram erradas com o tempo. Carlos Tevez, que se sustenta muito mais por nome do que por bola, deve ser o primeiro a apagar a luz.

A eliminação para o River Plate é um choque de realidade, mas também um laço com a identidade. O Boca Juniors nesta terça-feira dependeu menos de nomes para acreditar, confiou mais em seus símbolos. Só isso não garantiu a virada contra os millonarios, é fato. Em compensação, conferiu um sentimento que prevalece além da tristeza. O Boca segue como Boca, mesmo em tempos duríssimos para sua torcida. É a certeza para seguir a caminhada e buscar as mudanças necessárias.