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A janela de transferências em janeiro costuma ser usada para resolver problemas. É a chance de corrigir carências no elenco e encontrar substitutos a jogadores lesionados ou que estão abaixo do rendimento. Os grandes clubes espanhóis possuem seu histórico de negócios bombásticos durante o inverno e, até pela temporada morna que fazem os principais candidatos ao título, esperava-se uma contratação ou outra de impacto. Não foi dessa vez. A janela se manteve silenciosa durante a maior parte do tempo e, no máximo, os gigantes olharam para o futuro.

Barcelona e Real Madrid não pareceram dispostos a realizar loucuras neste mês de janeiro, por diferentes motivos. Num mercado inflacionado, trazer reforços neste momento poderia repetir erros de outros tempos. Melhor confiar no trabalho de recuperação desenvolvido atualmente, seja no acerto do time planejado por Zinedine Zidane, que acumula uma longa invencibilidade de 21 partidas, seja na mudança de filosofia promovida por Quique Setién.

O Real Madrid, afinal, possui um elenco caro demais para aparar suas arestas. O mercado de agosto havia sido abastado o suficiente, com investimentos superiores a €300 milhões. E a melhora de rendimento pouco se tornou perceptível, com as dificuldades de Eden Hazard em emendar uma boa sequência e o período de adaptação de diversos jovens valorizados, a exemplo de Luka Jovic. Num plantel que pode entregar mais do que vinha se notando na primeira metade da temporada, Florentino Pérez preferiu esperar. Este, aliás, tem sido o padrão do presidente no meio da temporada: durante os últimos anos, preferiu mudar treinadores a trazer jogadores com a pecha de salvadores da pátria.

E certas lacunas do Real Madrid até podem ser repensadas internamente. O clube permanece com vários medalhões de altos salários que andam subaproveitados. Antes arriscar negócios no mercado, os merengues precisam definir o destino de Gareth Bale e James Rodríguez, dois craques que se desvalorizaram como encostos no setor ofensivo. Isco é outro que poderia se encaixar neste exemplo, mas ao menos voltou a recobrar seu moral com Zidane nas últimas semanas.

O Barcelona, por sua vez, talvez esteja ressabiado por outros invernos pouco proveitosos. Gastar uma fortuna em Philippe Coutinho e apostar no empréstimo de Kevin-Prince Boateng foram transações que surtiram pouquíssimos efeitos práticos, em um clube antes mais contido em janeiro. Desta maneira, os blaugranas preferiram não quebrar a banca em 2020 para fazer contratações de gosto duvidoso. Por mais que Luis Suárez tenha se lesionado e o time precise de reforços pontuais, a diretoria não cometeu sandices – até tomando uma decisão eticamente questionável com Cedric Bakambu para desistir das tratativas.

Olhando para o papel, o Barcelona possui um elenco até mais curto que o Real Madrid. De qualquer forma, se aproxima da mentalidade dos rivais, no ponto em que muitos jovens ainda se adaptam ao clube e outros nomes mais experimentados podem render mais. É nessa curva ascendente que os blaugranas se agarram, enquanto Quique Setién muda as características de jogo após a saída de Ernesto Valverde. Antoine Griezmann e Frenkie de Jong já foram caros o suficiente no início da temporada. Melhor dar um pouco mais de tempo ao encaixe desses atletas, bem como confiar na eclosão de Ansu Fatih e na recuperação física de Ousmane Dembélé – por mais que isto pareça difícil de acontecer, ante as notícias recentes.

Barcelona e Real Madrid têm receitas gigantes e as contratações geram efeitos positivos ao marketing. Todavia, os clubes parecem mais conscientes de que os resultados em campo são mais importantes. Da mesma maneira, também veem outro caminho, ao comprarem jovens promessas que representam um investimento menor de momento e podem render (esportivamente, sobretudo) bem mais no futuro. Foi o que aconteceu nesta semana, com os únicos anúncios providenciados pelos dois gigantes. Reinier se juntará inicialmente ao Real Madrid Castilla, enquanto Trincão e Matheus Fernandes se somarão ao Camp Nou apenas na próxima temporada. Seus preços ainda são altos, levando em conta a parca experiência que possuem no nível principal. Pelo menos, o risco de culminarem em um déficit como o de Coutinho inexiste.

E se Real Madrid e Barcelona possuem conjuntos ao menos para lutar pelo título do Campeonato Espanhol, quem surpreendeu pela atuação modesta na janela de inverno foi o Atlético de Madrid. As necessidades de Diego Simeone são bem mais claras, a um clube que sofreu embargos recentes no mercado de transferências e não repôs à altura algumas de suas lideranças. Também há essa espera comum por jogadores jovens que podem se desenvolver. Mas, mesmo precisando se alavancar na tabela para que o declínio recente não coloque em risco a vaga no G-4, a diretoria colchonera não arriscou.

A contratação de um centroavante era a pauta quente no noticiário do Atleti. Álvaro Morata não goza de tanta confiança, Diego Costa passa mais tempo no departamento médico e Edinson Cavani parecia livre a procurar novos rumos. A especulação não se concretizou e os rojiblancos também não trouxeram um nome menor apenas para mostrar serviço à torcida. O único a chegar foi Yannick Carrasco, um empréstimo de ocasião pelos laços do belga com o Metropolitano e pela proximidade da diretoria com o Dalian Yifang, clube de propriedade do grupo Wanda. É um bom acréscimo, mas distante de atender as principais necessidades.

O Atlético de Madrid, até pela venda de Antoine Griezmann ao Barcelona, fez um mercado alto para os seus padrões em agosto. João Félix correspondeu a quase metade do investimento no período e quase todos os setores do time também ganharam suas novas peças. Não deixa de ser um caso parecido ao que ocorre no Real Madrid ou no Barcelona, de aguardar um pouco mais, ainda que a pressão por resultados esteja bem maior no Metropolitano. Mas se vê uma clara reflexão sobre a real validade de transferências caras e desesperadas em meio à má fase.

Os clubes espanhóis sabem como os preços dos jogadores dispararam nos últimos anos – muito por culpa deles mesmos. Apesar das receitas suntuosas com acordos comerciais e dinheiro da TV, um equilíbrio é necessário nas finanças. Não quer dizer que os gigantes ibéricos deixarão de fazer contratações surreais quando puderem mirar seus novos protagonistas – como Hazard, Griezmann e João Félix deixaram bem claro recentemente. No entanto, as cifras envolvidas também cobram menos imediatismo. E, enquanto outros entraves do elenco não se resolverem, melhor não gastar por gastar.

O objetivo dos espanhóis é encontrar uma resposta concentrada no campo, que corresponda às expectativas criadas pelos anúncios do início da temporada. Parece mais claro que o dinheiro não é infinito e que a continuidade é mais importante do que novos tiros no escuro. Até por isso, a postura dos três chama atenção, quando não se indicam tão embalados quanto outros oponentes rumo aos mata-matas da Champions. O comedimento tem sua razão – ainda que possa se transformar em cobrança.

Enquanto isso, no restante da Liga…

Os campeões de gastos nesta janela de inverno fugiram do óbvio. Os maiores investimentos foram realizados pelo Espanyol, que ocupa a lanterna e tenta fugir do rebaixamento. Os Pericos desembolsaram €40 milhões em quatro jogadores: o atacante Raúl de Tomás (Benfica), o ponta Adrián Embarba (Rayo Vallecano), o zagueiro Leandro Cabrera (Getafe) e o goleiro Oier Olarzábal (Levante). O desespero dos catalães fica evidente, embora os ganhos no setor ofensivo sejam notáveis.

O Villarreal, por sua vez, realizou o negócio mais caro entre os jogadores que vêm diretamente ao elenco principal. Paco Alcácer não escondia seu desejo de retornar ao país e o Submarino Amarelo viabilizou a compra junto ao Borussia Dortmund. Os €25 milhões pagos inicialmente, que podem alcançar os €30 milhões com bônus, saem em conta pelo acréscimo que o centroavante representa. Era um acerto de ocasião, que tinha mais urgência pelo próprio desejo do espanhol em disputar a Eurocopa.

Precisando melhorar o desempenho ofensivo, o Sevilla trouxe Youssef En-Nesyri e Suso, ao mesmo tempo em que desovou Munas Dabbur e Chicharito – além de outros seis jogadores emprestados. O Valencia, lutando pela Champions, acrescentou apenas Alessandro Florenzi. Mais importante foi não perder Rodrigo Moreno. Já o Getafe, entre os times da parte de cima da tabela, foi quem mais explorou suas possibilidades em janeiro. Com a saída de Cabrera, vieram à defensa Erick Cabaco e Chema. Peter Etebo chegou por empréstimo ao meio-campo, assim como Deyverson ao ataque. É um elenco com um leque maior de opções, entre a luta pelo G-4 no Espanhol e também a presença nos mata-matas da Liga Europa.

E, nas posições inferiores da tabela, o temor se refletiu no desembarque de figurinhas carimbadas em várias partes. O Alavés (com Ljubomir Fejsa e Víctor Camarasa), o Leganés (com Roger Assalé e Miguel Ángel Guerreiro) e o Valladolid (com Hatem Ben Arfa e Matheus Fernandes) chamaram atenção. Mas nenhum outro fez tantos negócios de gosto duvidoso quanto o Celta, que emprestou de uma só vez Fedor Smolov, Jeison Murillo e Filip Bradaric. A venda de Stanislav Lobotka ao Napoli, por €20 milhões, permitiu que os galegos atirassem para todos os lados. De qualquer maneira, não parece o mais sábio a se fazer em um clube que flertou com o descenso frequentemente nas últimas campanhas.

* O colunista (provisório) pede desculpas pelo atraso no texto, previsto para sexta. O fechamento do mercado e o especial sobre Auschwitz atrapalharam a rotina do site.