O Espérance deixou de representar uma novidade no Mundial de Clubes. A equipe tunisiana vai para a sua terceira participação na competição da Fifa, fruto de sua relevância na Liga dos Campeões da África. Muito se questiona sobre a lisura da última conquista do “Sangue e Ouro”, em uma decisão contra o Wydad Casablanca que sequer terminou. Ainda assim, não se nega a imponência registrada pelo clube nos últimos 25 anos. Desde sua primeira conquista continental em 1994, quando ainda não existia Mundial, são quatro taças e quatro vices. Desde 2010, o Taraji disputou cinco finais. E prova de poder é o próprio elenco, no qual há uma espécie de seleção continental. O plantel possui jogadores de seis nacionalidades diferentes, contando os locais.

Estar no centro dos holofotes é constante ao Espérance. Desde antes da independência da Tunísia, o clube se colocou como um dos mais importantes do país. Teve a participação de militares franceses em sua fundação, com o nome se referindo à “esperança” posterior à Primeira Guerra Mundial. Também contou com a presença das elites árabes, incluindo em seus quadros de dirigentes ninguém menos que Habib Bourguiba, primeiro presidente tunisiano pós-independência, que permaneceu 30 anos à frente do país.

Além disso, durante a ditadura de Zine el-Abidine Ben Ali (chefe de estado de 1987 a 2011) o Esperánce viveu sua maior prosperidade, com o sucesso muitas vezes atrelados ao poder. Foi neste período que estabeleceram sua hegemonia no Campeonato Tunisiano e conquistaram seus dois primeiros títulos na Champions Africana. Agora, reafirmam sua força de repetidamente ao longo da década. O atual bicampeonato continental do clube, entretanto, foi carregado de controvérsias e suspeitas. Ambas as campanhas contaram com favorecimentos de árbitros e imbróglios extracampo. As suspeitas são pertinentes, ainda mais num momento em que a agremiação comemora o seu centenário.

Em 2018, o maior problema aconteceu nas semifinais, contra o Primeiro de Agosto. A condução da partida foi tão questionável que rendeu a própria suspensão do árbitro pela Confederação Africana de Futebol. Nada, porém, comparável ao que ocorreu na decisão de 2019. O Wydad Casablanca estava descontente desde o jogo de ida, em Rabat, quando teve um gol mal anulado e um pênalti erroneamente negligenciado. Já no Estádio Olímpico de Radès, tudo piorou. Além das intimidações em duelo de clima tenso, já dentro de campo o árbitro Bakary Gassama simplesmente alegou que o VAR “não estava funcionando”. Anulou um gol legítimo do Wydad, sem poder revisar.

Diante da situação, o Wydad preferiu se retirar de campo. Gassama esperou cerca de uma hora para que os marroquinos voltassem, e então decretou o Espérance como campeão. No entanto, não demorou muito para que surgissem imagens mostrando que, em meio à confusão pelo gol anulado, um policial danificou o monitor do VAR. Diante das críticas, a CAF chegou a suspender o título dos tunisianos, pedindo as medalhas de volta e remarcando a final para campo neutro. No fim das contas, o Tribunal Arbitral do Esporte anulou a remarcação e, por mais fraudulento que pareça, confirmou o que aconteceu em campo, referendando a taça ao Sangue e Ouro. No fim das contas, o clima de impunidade é tamanho que o próprio Gassama, vejam só, foi designado como árbitro de vídeo neste Mundial de Clubes.

O Espérance, desta maneira, precisará superar as desconfianças sobre seu próprio potencial no Mundial de Clubes. E o seu histórico recente não o beneficia, com duas eliminações logo na fase de entrada. Em 2011, a equipe sucumbiu contra o Al Sadd na primeira etapa classificatória. Já em 2018, seria vítima do Al Ain em derrota inapelável contra a grande surpresa da competição. Apesar da força que representa no continente africano, o clube tunisiano ainda não foi capaz de dar um passo além. E o favoritismo neste sábado, durante as quartas de final, recai compreensivelmente sobre o Al Hilal.

Todavia, reconhecer o poderio dos sauditas não significa menosprezar os tunisianos. O Espérance conta com um elenco forte e de peso internacional. O investimento em estrangeiros se tornou mais significativo ao longo desta década, sobretudo pela visão do Sangue e Ouro no mercado de transferências. Desde 2007, o clube é presidido por Hamdi Meddeb. Dono de uma empresa do ramo alimentício, o empresário já se envolveu em diferentes controvérsias por sua relação com o antigo regime ditatorial da Tunísia, derrubado na Primavera Árabe. Ainda assim, tornou a agremiação realmente mais atrativa aos atletas.

Entre as estrelas do Espérance, aparecem alguns jogadores da seleção tunisiana que disputou a Copa do Mundo de 2018. E o maior símbolo do poderio é o craque da equipe, Anice Badri. O atacante é um dos tantos descendentes tunisianos nascidos na França e iniciou sua carreira no Lyon, passando também pelo Lille B. Atuava no Mouscron, da primeira divisão belga, quando aceitou a proposta do Sangue e Ouro em 2016. Desde então, transformou-se num dos principais nomes do país. Além da titularidade na seleção, decidiu a Champions Africana de 2018 com um golaço nos minutos finais contra o Al Ahly. Talvez possuísse mercado em um clube médio na Europa, mas prefere se tornar protagonista em casa.

Assim como Badri, outros dez jogadores do Espérance já integraram a seleção da Tunísia no nível adulto. O elenco atual conta com três atletas: o goleiro Moez Ben Cherifa, o prodígio Mohamed Romdhane e o atacante Taha Yassine Khenissi – este, importante na equipe nacional durante as últimas competições. Ainda assim, alguns dos companheiros tiveram seu momento no passado, a exemplo do capitão Khalil Chemmam, que disputou três edições da Copa Africana de Nações no começo da década. Para o nível local, o Sangue e Ouro está bem à frente.

Além do mais, a força econômica do Espérance em relação a outros mercados permite à diretoria olhar além das fronteiras. O clube pode não ser dos mais atrativos a jogadores de Marrocos e Egito, por exemplo. Mas consegue superar os clubes da Argélia, a ponto de pinçar destaques locais com nível de seleção. São cinco jogadores argelinos no atual elenco do Sangue e Ouro, três deles com convocações no currículo. O lateral Ilyes Chetti, inclusive, chegou à equipe nacional graças ao seu sucesso na Tunísia. Outro vizinho contratado nos últimos meses foi o líbio Hamdou Elhouni, frequente em sua seleção e com passagem pelo Benfica.

E não é que há uma preferência aos jogadores árabes. As diferenças nos mercados também tornam cada vez mais frequente o fluxo de atletas da África Subsaariana rumo às equipes do Mediterrâneo. O Espérance se aproveita deste leque e possui representantes de Gana, Costa do Marfim e Nigéria em seu elenco. Junior Lokosa, por exemplo, foi contratado após ser artilheiro do Campeonato Nigeriano com o Kano Pillars. Fousseny Coulibaly deixou o Campeonato Marfinense para atuar em outro clube tunisiano, antes de se juntar ao Sangue e Ouro. Já Kwame Bonsu passou pela Suécia, até retornar ao Asante Kotoko no Campeonato Ganês e de lá ser contratado pelo Espérance. O meio-campista foi mais um que alcançou sua seleção.

A projeção internacional do Espérance ainda fica na dependência de um jogo isolado no Mundial de Clubes. Mas a estratégia se mostra bem sucedida para colocar o clube como uma potência dentro da África, apesar das controvérsias. As repetidas finais, ganhas de maneira legítima ou não, indicam isso. Neste ponto, uma vitória sobre o endinheirado Al Hilal teria representatividade imensa dentro do círculo de realidade do Sangue e Ouro. Será também uma oportunidade. E a massiva torcida presente em Doha indica tal desejo.