Maurizio Sarri tem uma história peculiar. Trabalhou em banco enquanto sofria nas categorias inferiores da Itália até conseguir pagar as contas apenas com a prancheta. Ganhou destaque em cenário nacional com a promoção do Empoli e chegou ao seu primeiro clube grande, o Napoli, apenas em 2015, aos 56 anos, tarde para um treinador que tem tanta qualidade. Mais tarde ainda foi o seu primeiro título importante: nesta quarta-feira, ao conquistar a Liga Europa pelo Chelsea, aos 60 anos, vencendo o Arsenal por 4 a 1, em Baku.

Sarri levantou troféus em torneios regionais e de divisões bem inferiores da Itália, mas faltava conquistar um título importante para referendar a sua filosofia de futebol de posse de bola e ofensivo. Não deu no Napoli, embora os 91 pontos do vice-campeonato da última temporada mereçam muitos aplausos. No Chelsea, precisou de apenas um ano, apesar de todos os percalços, para, enfim, gritar campeão.

O irônico é que o título da Liga Europa pode ser o último ato de Sarri à frente do Chelsea. O Telegraph publicou que o Chelsea não tentaria segurar Sarri, se a Juventus aparecesse com £ 5 milhões de indenização, e que tomaria qualquer decisão sobre o futuro do técnico apenas depois da final da Liga Europa. O Milan também aparece como interessado.

Sua primeira temporada teve um saldo positivo. Os resultados dificilmente poderiam ter sido melhores para uma campanha em que o italiano tentou transformar o estilo mais vertical do clube em outro que favorece a posse de bola. Foi terceiro colocado da Premier League, garantindo vaga na Champions, vice-campeão da Copa da Liga, nos pênaltis, contra um Manchester City que conquistou tudo na Inglaterra, e agora campeão europeu contra um grande rival.

Nesse processo, como é natural, o Chelsea oscilou grandes momentos e outros bem ruins, como as goleadas por 6 a 0 para o City e 4 a 0 para o Bournemouth, na Premier League. Houve rusgas com a torcida, cobranças públicas a jogadores e pouco apoio da direção, com Roman Abramovich fazendo sua primeira aparição pública em Baku.

Sarri mostrou amadurecimento ao levar em conta as principais críticas da torcida e flexibilizar as suas ideias. Contra o City, na final da Copa da Liga, por exemplo, defendeu mais recuado e apostou em bolas longas para complicar a vida do campeão inglês. Passou a dar mais chances a Loftus-Cheek e Callum Hudson-Odoi, dois jogadores que as arquibancadas queriam ver mais em campo. Mesmo contra o Arsenal, em Baku, não foi um time que dominou a posse de bola – praticamente 50% para cada lado -, mas um que defendeu bem e soube aproveitar as oportunidades que apareceram.

As próximas semanas apresentam outros desafios, da punição da Fifa que impede contratações à provável saída de Hazard. O embargo de transferências, especialmente, pode ser decisivo para o futuro de Sarri. O elenco que ele herdou de Antonio Conte não parece o mais apropriado para o estilo de jogo que ele pretende desenvolver. Poucas mudanças foram realizadas nesta temporada. Em um cenário ideal, ele teria carta branca para reformular o time, principalmente com o dinheiro da provável venda de Hazard ao Real Madrid.

O Chelsea está recorrendo ao Tribunal Arbitral do Esporte para reverter a punição, mas, caso não possa mesmo trazer jogadores que consolidem seu estilo de jogo, e nem mesmo substituir Hazard, seria compreensível que Sarri aceitasse a chance de respirar novos ares, e a diretoria, paralelamente, buscasse um treinador de outro perfil, que fosse bom em utilizar jovens e a dezena de jogadores emprestados que devem, enfim, ganhar uma chance em Stamford Bridge.

A vaga na Champions League por meio da Premier League e o título da Liga Europa deixam Sarri em posição mais forte com a diretoria do Chelsea, especialista em demitir treinadores precocemente. Todo o contexto, porém, ainda deixa seu futuro em dúvida. Sair seria uma pena. Sarri deu bons indícios de que pode fazer seu estilo de jogo dar certo na Inglaterra, mesmo que precise fazer alguns ajustes. Mas, para isso, precisará de mais tempo.