De José “Mazzola” Altafini a Rodrigo Moreno, de Francileudo a Alex Santos, passando por Marcos Senna e Paulo Rink, jogadores brasileiros que acham mais espaço no futebol de outros países protagonizam casos até comuns. E o protagonista de um dos casos mais extremos e conhecidos de um brasileiro identificado com outro país no ludopédio completa 50 anos neste domingo. Afinal de contas, se Luís Aírton Oliveira Barroso terá sempre no seu cartão de identificação a capital do Maranhão, São Luís, como sua cidade natal, foi jogando pela Bélgica (em seleções) e pela Itália (em clubes) que Oliveira – ou melhor, “Oliverrà”, como os belgas o chamam – ganhou um lugar para chamar de seu no futebol mundial.

Oliveira até começou a buscar esse lugar no Brasil: começou a sua carreira no Tupan, de São Luís, aos 17 anos. Histórico familiar, ele tinha: seu pai, Zezico, fora ponta-esquerda do Moto Clube. No entanto, a carreira do atacante só começou a embalar a partir do momento em que o empresário José Rubulota ganhou o passe dele, junto ao Tupan. Responsável por várias negociações de vários jogadores maranhenses para o exterior, Rubulota encaminhou Oliveira ao Anderlecht, já em 1985. Oliveira se destinava ao país em que viraria “Oliverrà”, e ainda demoraria até receber o impulso decisivo.

Até lá, na base dos Mauves, chegou a jogar como lateral direito, à espera da chance no ataque. A chance começou a vir em 1988: foram cinco jogos na campanha do vice-campeonato do Anderlecht. As coisas já melhoraram em 1989/90: foram 26 jogos e oito gols, em mais um vice do clube de Parc Astrid. Finalmente, na temporada 1990/91, “Oliverrà” embalou definitivamente: 18 gols em 33 jogos, destaque absoluto na campanha do título da equipe roxa e branca. Foi o segundo mais votado na eleição do melhor jogador do futebol belga em 1990, só perdendo para o meio-campista Leo van der Elst. O brasileiro era o grande nome da equipe treinada pelo holandês Aad de Mos. E já abria espaço definitivo para mais uma nação em seu coração, como deixou claro em maio de 1991 à revista “Placar”: “Minha intenção era vestir a camisa amarela. Mas acho que já esperei demais”. E se naturalizou belga, ainda em 1991.

Assim, o brasileiro concluiu mais uma temporada no Anderlecht antes de viver duas mudanças decisivas em 1992. A primeira, por seleções: num amistoso contra a Tunísia (vitória belga, 2 a 1), em 26 de fevereiro, Oliveira estreou pelos Diabos Vermelhos. A segunda, por clubes: as portas do Campeonato Italiano se abriram, e o receberam calorosamente. Primeiro, no Cagliari, clube em que o brasileiro se consolidou como ídolo: foi goleador, titular absoluto, o grande nome da campanha semifinalista da equipe da Sardenha na Copa Uefa 1993/94. De quebra, foi titular em boa parte da campanha da Bélgica nas Eliminatórias da Copa de 1994, mas acabou ficando fora do Mundial.

Após bom desempenho na temporada 1995/96 – 33 jogos e 15 gols pelos Rossoblù -, Oliveira ganhou mais outra grande chance: foi para a Fiorentina. Na Viola, o brasileiro-belga viveu outra grande fase. Se os gols já eram providos aos borbotões por Gabriel Batistuta (e as jogadas, armadas por Rui Costa), Oliveira ajudava bastante, tanto balançando as redes também – 15 gols em 33 jogos, na temporada 1997/98 – quanto se movimentando no ataque. No meio da temporada mencionada, 1997/98, Edmundo chegou à Fiorentina, vindo de um ano em que mandara e desmandara no futebol brasileiro. Na Itália, foi diferente. Pelo banzo de Edmundo, saudoso do Brasil – a ponto da célebre “esticada” no Carnaval de 1998, quando a Fiorentina disputava para valer a liderança do Campeonato Italiano com Juventus e Internazionale. E por aquele ser um time já entrosado: mesmo ajudando em campo, com algumas boas atuações, Edmundo não teria em Florença o espaço que tinha no Rio (e no Vasco). Porque já havia Batistuta… e Oliveira, já profundamente identificado com a Itália. A ponto de sentir saudades da Bota, quando viajava para ver a família no Maranhão.

Se ficara de fora da Copa de 1994, em 1998 Oliveira enfim teria sua primeira participação num Mundial: titular na campanha de qualificação que levou os Diabos Vermelhos a mais uma Copa, também viajou à França como um dos 22 convocados por Georges Leekens, o técnico que lhe dera a chance no time adulto do Anderlecht em 1988. E teve lembranças boas e ruins da Copa: esteve nas três partidas da Bélgica na primeira fase. Mas num time envelhecido, Oliveira pouco apareceu, sendo substituído contra Holanda e Coreia do Sul. A seleção caiu já naquela fase de grupos, e o atacante só faria mais dois amistosos, em 1999, antes de sua passagem pela equipe belga se encerrar, com 31 jogos e sete gols.

Se o “capítulo belga” de sua vida se encerrava ali, o capítulo italiano continuou de vento em popa. Oliveira voltou ao Cagliari na temporada 1999/2000, e a partir dali iniciou o périplo por clubes menores, na reta final da carreira: Bologna (2000/01), Como (2001/02 – brilhou no título do clube da Lombardia na segunda divisão, sendo artilheiro do campeonato, com 23 gols), Catania (2002 a 2004), Foggia e Venezia (ambos na temporada 2004/05), Lucchese (2005/06). A partir de 2006, uniu o futebol ao conforto familiar: para ficar mais próximo da esposa, que morava na Sardenha, foi para o Nuorese, da terceira divisão. Na mesma região, ainda passou por Derthona (quarta divisão) e Muravera (da liga regional), clube em que encerrou a carreira dentro de campo, aos 41 anos, em 2010.

Dentro de campo, bem entendido. Fora, Oliveira seguiu como treinador. No próprio Muravera, por três vezes. No Pro Patria. No Floriana, este um clube maltês. Todos clubes europeus. Todos perto da Itália. O país que abraçou mais fortemente o atacante que começou no Brasil e que virou um futebolista definitivo na Bélgica. Andanças que fazem com que, hoje, Luís Aírton Oliveira Barroso, às vezes chamado “Lulu”, seja mais “Oliverrà” do que “Oliveira”.