Brasil x Argentina, Maracanã, 80 mil torcedores. As arquibancadas não estavam tão abarrotadas quanto em outras ocasiões naquelas décadas. Ainda assim, não deixava de ser uma tarde grandiosa. A Copa Roca servia para alimentar a rivalidade, assim como auxiliou as relações diplomáticas. Naquele domingo, porém, a partida era vista como uma etapa de preparação a duas equipes que miravam a Copa do Mundo. Tanto brasileiros quanto argentinos sofriam com os desfalques, por diferentes motivos, e aproveitaram o amistoso para dar espaço a novos jogadores. Entre eles, um menino que começava a despontar com a camisa do Santos. Há 60 anos, Pelé fazia a sua estreia na seleção brasileira – com derrota, mas com gol.

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A Argentina vinha de um momento esplendoroso. Em abril, a Albiceleste conquistara o Campeonato Sul-Americano (atual Copa América) com uma grande campanha. A confirmação do título aconteceu em inapelável vitória por 3 a 0 sobre os brasileiros, consagrando o quinteto de ataque eternizado como “Los Carasucias de Lima” – em referência às espinhas nos rostos dos jovens craques. No entanto, eram tempos nos quais os clubes europeus intensificavam o assédio sobre os jogadores sul-americanos. Dezenas de olheiros e dirigentes estiveram presentes no torneio disputado no Peru. Promoveram um desmanche no elenco argentino, especialmente pela saída de três dos prodígios da linha de frente: Sívori, Maschio e Angelilo. Sem poder contar mais com os destaques, o técnico Guillermo Stábile precisou buscar soluções para reformular o elenco.

O Brasil também havia sofrido a sua perda após o Campeonato Sul-Americano, com a venda de Evaristo de Macedo ao Barcelona. O time não conseguiu competir com a Argentina, mas teve um alento nas semanas seguintes, ao confirmar a classificação à Copa de 1958. O entrave para a Copa Roca, entretanto, vinha dos clubes. Os grandes cariocas estavam excursionando pela Europa ou pela América do Sul, o que impediu a presença de várias referências do elenco. Assim, o técnico Sylvio Pirillo, que assumira o lugar de Osvaldo Brandão no mês anterior, confiou em um grupo formado majoritariamente por jogadores de São Paulo – além daqueles “cariocas” que não haviam seguido às turnês. Após alguns cortes em relação à primeira lista, Pelé ganhou sua chance. Sequer acreditou quando seu pai, Dondinho lhe trouxe as boas novas – como relata o ótimo artigo de Rafael Valente no ESPN.com.br.

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O craque de Três Corações ainda era um menino imberbe. Chegara de Bauru no ano anterior e, depois de dois jogos como profissional, se firmou no Santos durante o primeiro semestre de 1957. Quando recebeu a convocação, já acumulava 25 gols em 34 jogos. E estava no Rio de Janeiro na época do chamado de Pirillo. Os santistas formaram um combinado com vascaínos que não excursionaram para alguns amistosos. Assim, o prodígio conquistou vários admiradores na imprensa da capital. Um deles era Geraldo Romualdo da Silva, notável articulista do Jornal dos Sports, de Mário Filho.

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“Até onde, Pelé? Aos 16 anos e meio, apenas, esse menino-homem Pelé dia a dia se afirma como a mais importante das revelações como ‘forward’. Um fabuloso jogador com virtudes inatas, que raros têm apresentado no Brasil, como a facilidade inimitável em ver o arco e essa impressionante fertilidade de recursos, embora, a nosso juízo, perca muito a sua ferocidade quanto maior for a distancia que o separa das balizas. De qualquer forma, é um caso novo, um autêntico fenômeno, que surge para luminosas jornadas no futuro”, escreveu, em 28 de junho. E foi além em sua coluna publicada quatro dias depois: “A subida vertiginosa de Pelé só se compara em termos à de Leônidas em 1929. Vivo, preciso, objetivo e atrevido, têm a vantagem de possuir base física e um talento inato para não se deixar ficar para trás no redemoinho das promessas não realizadas”.

Tudo parecia conspirar a favor de Pelé. Primeiro, pela própria oportunidade de jogar no Maracanã. O duelo contra a Argentina estava inicialmente marcado para o Pacaembu, mas um evento público da prefeitura de São Paulo provocou a transferência ao Rio de Janeiro. E, ao invés dos tradicionais embates da Copa Roca, com ida e volta nos dois países, o segundo jogo aconteceria na praça esportiva paulista, três dias depois. Além do mais, o próprio acerto entre as federações sobre as regras do torneio amistoso abriram uma brecha. Em tempos nos quais o número de substituições não possuía uma regulamentação tão estática, os dirigentes concordaram em permitir três alterações durante os confrontos. O garoto seria um destes a sair do banco.

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Em 7 de julho de 1957, Pelé vestiria a camisa amarela pela primeira vez. Sua estreia pela Seleção, todavia, seria massacrada na imprensa. Não por sua participação, mas pela fraca atuação do Brasil, derrotado pela Argentina. A Albiceleste abriu a contagem no primeiro tempo, com um tiro rasante do já lendário Ángel Labruna, do alto de seus 38 anos. Apenas no segundo tempo é que os brasileiros reagiriam, a partir das alterações. Moacyr, Urubatão e Pelé foram as armas de Sylvio Pirillo, com o adolescente entrando na vaga de Del Vecchio, seu companheiro no Santos. Precisaram de pouco tempo em campo para incomodar a zaga argentina. O ilustre estreante fez o gol aos 32 minutos, escorando uma bola de Tite, outro santista. Contudo, o que se desenhava como um razoável empate ruiu logo nos instantes seguintes, em erro da defesa que Miguel Juarez não perdoou, decretando a vitória dos visitantes por 2 a 1.

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Segundo o Jornal dos Sports, Pelé mereceu uma nota 6 por seu primeiro jogo. Entre os jogadores da Seleção, ficou abaixo apenas de Bellini e Oreco, ambos com 8. “Moacir e Pelé – em particular o menino santista – deram alento novo aos companheiros. Embora não chegassem a solucionar tantos problemas, emprestaram um sentido mais agressivo à vanguarda. […] Moacir entregou a pelota a Tite e, este, de primeira a Pelé, que igualou a contagem. Excelente o tento e o trabalho dos três”, avaliou Geraldo Romualdo da Silva. Ficou como legado a fotografia que flagrou o momento exato do gol: a imagem do garoto de olhos arregalados e expressão assustada vendo a bola entrar, emoldurado pelo Maracanã repleto, enquanto o mítico goleiro Amadeo Carrizo, caído na grama, observava o tento.

“Neste momento, a aparição de um ‘pibe’ na seleção brasileira não era nada de especial para mim. Ele entrou no segundo tempo e somente no final soube de seu nome, chamavam-no de Pelé…”, relembra Carrizo, em entrevista à revista El Gráfico, anos depois. “Pelé não tinha tocado em nenhuma bola. Mas, nesta jogada, um deles escapou e bateu muito forte. Eu tive que me jogar e não alcancei para defendê-la. Aí apareceu Pelé, antes que pudessem pará-lo Vairo, Gianserra, Urriolabeitia, Pizarro e eu, que estava caído. Tudo foi muito veloz e ele definiu bem, tocando com a direita. Por sorte, dois minutos depois Gitano Juárez meteu um golaço e terminamos ganhando. Agora que vejo a foto e vou me dando conta do que significou depois esse rapazinho ao futebol mundial, me assombro. Este era Pelé!”.

Mas nem tudo era exaltação ao novato. O mais duro foi Ney Bianchi, em sua coluna no Jornal dos Sports: “Pelé deveria ter entrado antes. Ou deveria entrar, já que está mudando de andar e enfeitando demasiadamente as jogadas. Apesar de tudo, fez gol”. O célebre Ary Barroso, por sua vez, era ácido contra a correria e a improvisação que aconteceu. “Tínhamos na linha de frente três meias: Moacir, Pelé e Luizinho. Luizinho, que é direita, na esquerda; Pelé, que é esquerda, no centro. Descansando em seus respectivos pagos ficaram Gino, Índio e Paulo, todos excelentes comandantes. Vejam a que ponto atingimos! Por culpa do técnico? Por culpa da imprensa? Por culpa do rádio ou da televisão? Absolutamente! Por culpa e risco da CBD!”, escreveu. Até, até mesmo Sylvio Pirillo passou imune às críticas, quando todos se voltavam contra os dirigentes. Uma revolta gerada, principalmente, pelos jogadores que desfalcaram o elenco a pedido de seus clubes em excursão, algo visto como falta de planejamento.

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Diante da pressão, o Brasil se reencontrou com a Argentina no Pacaembu em 10 de julho, três dias depois. Os minutos satisfatórios no Maracanã fizeram com que Sylvio Pirillo promovesse Pelé ao time titular. E certamente o treinador não se arrependeu. Apresentando um futebol bem mais convincente, a Seleção venceu por 2 a 0, conquistando a Copa Roca. Bellini foi um dos mais elogiados por sua firmeza na zaga. Luizinho, o “Pequeno Polegar”, infernizou a marcação argentina e, depois de ser acertado no rosto por Néstor Rossi, resolveu se vingar com dribles. E havia o menino santista, que precisou de apenas 20 minutos para abrir o placar. Após uma cobrança de falta de Oreco, Mazzola ajeitou e o atacante bateu seco, sem chances para Carrizo. Já no segundo tempo, o próprio Mazzola encerrou a fatura para os brasileiros, diante de 38 mil empolgados torcedores nas arquibancadas.

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“Pelé, um dos realces da ofensiva brasileira”, destacava a capa do Jornal dos Sports. Já em suas páginas internas, a publicação avaliou a participação do futuro Rei: “Demonstrou mais uma vez todas as suas qualidades. Perfeito no manejo da pelota, foi ainda autor de um tento de grande inspiração. Grande figura”. Julinho Botelho, em entrevista, o chamava de “novo gênio do futebol”. O colunista Mário Júlio Rodrigues, por sua vez, sentenciava sem medo: “Imenso o pequenino Pelé. Não só pela claríssima visão de gol e dribles desconcertantes, como também (e talvez principalmente) pelo exato sentido dos passes, quase sempre de primeira, e a exuberante facilidade de deslocamento. É indicação certa para a Copa do Mundo”. Ceticismo, apenas por parte do irremediável Ary Barroso: “Pelé já é ‘gênio’ do futebol brasileiro. Está perdido! Tão moço…”.

O Jornal dos Sports ainda repercutiu o encantamento da imprensa argentina por Pelé, personificado por Horácio Besío, diretor do Mundo Deportivo de Buenos Aires: “Pelé foi quem mais me impressionou, nos dois compromissos. Vejo-o e me lembro do nosso ‘Trio de Ouro’, no Campeonato Sul-Americano em Lima. Como craque em formação, ele é uma esperança viva. Falem pouco nele. Assim, poderão tê-lo inteiro para a Suécia, e sem o perigo de compra por parte de italianos e espanhóis”. Naquele momento, Pelé discutia a renovação de seu contrato com o Santos. Boca Juniors e River Plate tentaram entrar na jogada, oferecendo valores “suntuosos”, segundo o noticiário. O fim da história, porém, todos sabem.

Pelé ficou na Vila Belmiro e continuou arrebentando pelo Santos. Convocado à Copa do Mundo por Vicente Feola, participou de quatro amistosos preparatórios, anotando mais três gols. Começou o Mundial no banco, até a história se transformar contra a União Soviética. Até o fenômeno decidir contra País de Gales. Até o craque destroçar a França. Até o menino chorar nos braços de seus companheiros, incrédulo pela vitória por 5 a 2 sobre a Suécia, em que ainda anotou o gol mais bonito da história das finais de Mundiais. Aos 17 anos, a Jules Rimet estava em suas mãos.

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