Graças ao seu apoio, as colunas das cinco grandes ligas da Europa estão de volta, e terça é dia da Die Meister, com informações e análises sobre o futebol alemão. Faça parte do nosso financiamento coletivo no Apoia.se e nos ajude a bater mais metas.

A Alemanha se tornou o quinto país a superar os 100 mil infectados pelo coronavírus. Ainda assim, as ações das autoridades alemãs no combate à doença se tornaram exemplares. O número de vítimas por lá é menor do que em outras nações, com 2.016 mil mortos, enquanto um terço dos infectados já se recuperou da COVID-19. O sistema de saúde alemão se preparou com antecedência ao surto e absorveu a demanda, a ponto de auxiliar países vizinhos. Além disso, a curva de crescimento dos casos positivos se desacelera, com o alto número de testes realizados auxiliando no controle.

Para que a ação tenha sucesso, todavia, a Alemanha segue em frente com suas medidas de isolamento social e restrição das aglomerações. Tal postura é vital para evitar uma escalada de infecções ou mesmo uma nova onda de casos. Apenas serviços básicos no país seguem funcionando, com raras exceções. O futebol alemão, entretanto, se vê dentro de um privilégio que a maioria da população não tem. Todos os clubes da Bundesliga retomaram os seus treinamentos nos últimos dias, diante das perspectivas de reinício do campeonato em maio.

A posição é encabeçada pela DFL, a entidade responsável por gerir as duas primeiras divisões do Campeonato Alemão. A liga havia explicitado sua intenção de interromper o futebol minimamente, diante das preocupações quanto ao impacto financeiro sobre as equipes. Por mais que o presidente da organização, Christian Seifert, diga que os alemães são “menos dependentes do dinheiro da TV que as outras potências continentais”, suas ações indicam o contrário. A Bundesliga parece ávida a fazer o dinheiro das transmissões jorrar novamente, mesmo que as arquibancadas devam permanecer vazias indefinidamente.

Segundo Seifert, a DFL estabeleceu uma força-tarefa com médicos para determinar os procedimentos nos clubes e cumprir os parâmetros de segurança apontados pelas autoridades sanitárias. Também serão feitos testes independentes em jogadores e funcionários antes das partidas. Ainda assim, questiona-se se o futebol merece um status especial para fazer sua roda milionária continuar girando. Qual o exemplo ao restante da população? Como se sentem aqueles que não podem se valer desta condição e encaram suas incertezas no dia a dia?

Os elencos voltaram a trabalhar em pequenos grupos, evitando ao máximo o contato. O Werder Bremen se tornou o último a retomar suas atividades, após ganhar a permissão da prefeitura local. A intenção é recuperar a forma dos jogadores para que a Bundesliga recomece em alto nível em maio. Porém, não são apenas os atletas que retornam ao trabalho com a determinação da DFL. O isolamento social se encerra a uma parte da indústria do futebol, que emprega 55 mil na Alemanha. São mais pessoas expostas aos próprios riscos e mais pessoas que podem elevar o contágio. Segundo o Bild, ao menos 239 trabalhadores atuariam em média por jogo para torná-los viáveis. Seriam 4,3 mil na ativa por rodada.

O interesse da DFL, basicamente, está no dinheiro. E de fato a questão é crucial para que os clubes menores, sobretudo da segunda divisão, consigam manter todos os empregos. Conforme um estudo interno, 13 dos 36 times das duas primeiras divisões da Bundesliga correm o risco de iniciar um processo de insolvência nesta temporada, caso ela não seja encerrada. Cortes salariais já foram adotados por diferentes agremiações e até mesmo um plano de apoio financeiro foi oferecido por potências locais. Na Alemanha, ao menos, a solidariedade do futebol diante da emergência é enorme.

Mas também não quer dizer que tudo são flores na Bundesliga. Segundo reportagem da Deutsche Welle, as empresas terceirizadas que prestam serviços aos clubes não estão recebendo tanto apoio neste momento. Cerca de 60% do pessoal que trabalha nos dias de jogo, sobretudo os funcionários casuais, não têm seus empregos diretamente vinculados às equipes. São mais de 30 mil pessoas. Seguranças, atendentes e faxineiros muitas vezes são cedidos por outras companhias contratadas.

Com a suspensão do campeonato, parte dos times deixou de contratar esses prestadores de serviços e os trabalhadores perderam sua fonte de renda. Não há qualquer sinalização oficial da DFL sobre o assunto e nem mesmo uma posição de como será o processo quando as disputas forem retomadas. Com portões fechados, a tendência é que esses terceirizados sejam usados apenas parcialmente. Por enquanto, a consciência vai de cada clube. Equipes como o Borussia Dortmund, o Union Berlim, o Werder Bremen, o Hoffenheim e o RB Leipzig responderam à reportagem da Deutsche Welle, manifestando sua prioridade em relação aos trabalhadores.

O retorno antecipado da Bundesliga pode potencializar o rendimento comercial da competição. Basta perceber que, neste momento, as outras grandes ligas europeias têm perspectivas mais tardias de retomada. Espanha e Itália enfrentam situações bem mais críticas em relação à pandemia, enquanto a Inglaterra iniciou suas ações sanitárias depois de seus vizinhos. Certamente esse tipo de atenção potencial serve como atrativo à DFL quando tenta acelerar seus passos. De qualquer maneira, há uma série de questões em aberto.

A real proteção aos trabalhadores é uma delas. Enquanto a federação alemã lançou um projeto para escorar as equipes profissionais da terceira divisão e para apoiar as associações abaixo disso, o mesmo não se nota por iniciativa da DFL na elite e na segundona. O caso dos terceirizados serve de exemplo neste sentido. E a situação ganha outros contornos com o possível retorno da Bundesliga. Esses funcionários se submeterão a uma condição de exceção em meio ao isolamento, trabalhando a uma indústria que não oferece serviços básicos e nem precisará operar em sentido de emergência para ajudar o país. Ficam expostos.

Outro ponto são as próprias alternativas que podem existir para retardar um pouco mais o retorno do futebol e prezar pela preservação das pessoas. Mexer em reservas econômicas seria uma delas. Pensar em uma redistribuição do dinheiro que privilegie mais os pequenos do que os grandes é outra, contando com o apoio dos grandes financiadores do futebol na Alemanha. Neste momento, a DFL parece muito mais interessada em apresentar diversas ações ao que deseja fazer do que pensar em cenários distintos para que o futebol sofra menos com a paralisação. O interesse pelo dinheiro máximo pesa muito mais.

Além disso, é necessário pensar nos próprios torcedores. Está claro que o retorno das aglomerações e, assim, do público nos estádios, não será imediato. Muito provavelmente a Bundesliga precisará realizar partidas com portões fechados também na próxima temporada. Entretanto, seria razoável tentar reduzir ao máximo os encontros sem torcida. Até porque a falta de bilheteria tende a ser mais sentida pelos clubes menores, principalmente aqueles que militam na segunda divisão e não possuem tantas parcerias comerciais como alternativa de renda.

Na Alemanha, há um senso coletivo muito forte ao redor das torcidas. O movimento para evitar jogos com portões fechados já tinha elevado sua voz quando se cogitou isso no início da pandemia e também deve exercer pressão neste novo momento. Num país onde a cena das arquibancadas é muito mais ativa, a ideia de que jogar para o estádio lotado é o intuito primordial do esporte costuma ser bastante compartilhada. Diferentes jogadores e treinadores se manifestaram no sentido de que o futebol perde boa parte de sua razão quando não há espectadores nas tribunas.

Obviamente, o intuito da DFL é embolsar o dinheiro da televisão e distribuir aos clubes. De fato, a medida contorna um prejuízo financeiro maior e evita um efeito dominó – por mais que Christian Seifert force a barra ao apontar a retomada da Bundesliga como algo essencial ao país, por “providenciar entretenimento às pessoas confinadas”. Como bem definiu o grande Gerd Wenzel em sua coluna na Deutsche Welle: “É legítimo que a Liga defenda os seus interesses econômico-financeiros ao insistir na realização de ‘jogos-fantasma’ que trariam aos cofres dos clubes uma boa grana – quase 400 milhões de euros ao todo – mas faça-o claramente sem usar o subterfúgio da função social de distrair as massas para abstraí-las das agruras da pandemia”.

No entanto, diante de tudo o que está em jogo, proteger a saúde das pessoas deveria estar à frente como prioridade também à DFL. Até parece que não existem outras soluções a uma indústria de cifras bilionárias. Soa mesmo que a DFL deseja tirar proveito da situação menos drástica na Alemanha em relação a outros países, para impulsionar a Bundesliga – que, atravessando uma de suas melhores temporadas dos últimos anos, poderia gerar mais interesse do público internacional se voltasse antes. Fica a impressão de ganância, mais que de apoio aos desemparados.

E se a DFL não age para proteger todos os clubes, quem o faz mesmo no fim das contas são as torcidas. Diversas ações são realizadas na Alemanha para evitar os rombos financeiros de times médios e pequenos. As torcidas organizadas do Union Berlim, por exemplo, vão se abster de pedir o reembolso parcial dos carnês de temporada pelos jogos cancelados ou sem público. Nos níveis além da DFL, as ideias são ainda mais abrangentes, à exemplo do Lokomotive Leipzig, que promove venda de ingressos para o jogo contra o “oponente invisível” e já arrecadou o equivalente a 90 mil entradas. Estes clubes semiprofissionais e amadores, afinal, dependem do dinheiro da bilheteria e sequer cogitam retomar suas atividades sem público. A eles, o futebol neste momento serve como identidade para reforçar os laços e a solidariedade.

A DFL, por mais que tenha razão em parte de suas preocupações, também age para usufruir de privilégios. E os mais privilegiados dentro do próprio futebol serão os que mais aproveitarão dessa benesses de poder voltar a jogar. É uma situação que gerará seus desdobramentos na sociedade e que não deve ser resolvida apenas na base da canetada. O futebol deveria retornar com o restante do país, mas não é o que os cartolas desejam.