A carreira de Roberto Carlos sempre estará atrelada à sua história com o Real Madrid. Vestindo a camisa merengue, o brasileiro superou um início reticente no futebol europeu e passou a concorrer até mesmo à Bola de Ouro. Acumulou títulos, anotou golaços e se firmou como um dos melhores laterais esquerdos da história. Nesta sexta, o veterano aproveitou para resgatar algumas memórias em texto publicado no Players’ Tribune.

De maneira inescapável, Roberto Carlos falou sobre a pandemia e os efeitos dela na Espanha. Relembrou, principalmente, sua relação com Lorenzo Sanz – presidente responsável por sua contratação, que faleceu por causa do coronavírus há quase um mês. O defensor frisou também a importância de seguir as recomendações das autoridades. “Quero incentivar as pessoas, em Madri e em qualquer outro lugar, a serem otimistas. Minha filosofia sempre foi tentar resolver problemas com um sorriso no rosto. Portanto, mantenha a cabeça erguida e aguarde. Acredite em si mesmo. Seja paciente. Fique calmo. E tente ajudar os outros”, escreveu.

Entre seus pensamentos e suas recordações, Roberto Carlos falou sobre seus momentos marcantes no Real Madrid. Destacou principalmente a tensão sentida antes do título na Champions League em 1998, que encerrou um jejum de 32 anos aos merengues. E também frisou como era integrar os Galácticos. Abaixo, reproduzimos esse trecho. Para ler o texto completo, em português, você pode acessar o Players’ Tribune através deste link.

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Depois que eu assinei com o clube tudo correu muito rápido, mas eu me lembro da minha estreia, quando marquei contra o Deportivo La Coruña. Também me lembro da primeira vez que joguei no Bernabéu, em frente a 80.000 pessoas.

Eu estava tipo: Hum … o que estou fazendo aqui? O que acontece se eu cometer um erro agora?

Cara, foi aterrorizante!

Mas também foi um dos melhores dias da minha vida.

Depois de um tempo, me acostumei com a pressão que vem para quem joga pelo Real Madrid. Mas houve momentos em que até os maiores profissionais entre nós ficaram abalados. Quase dois anos depois da minha chegada, estávamos prestes a jogar com a Juventus a final da Liga dos Campeões. Como todos sabemos, o Real Madrid tinha – e ainda tem – o maior número de títulos na história da competição, mas naquela época nós não a conquistávamos há 32 anos. Tínhamos disputado a Liga naquela temporada. A Juve estava na final pelo terceiro ano consecutivo. Nós não entramos no jogo como favoritos.

Na noite anterior à final, nenhum de nós conseguiu dormir. Normalmente, íamos dormir às 22h, mas naquela noite estávamos sentados no saguão do hotel às quatro da manhã, contando histórias um para o outro. Não tínhamos medo, apenas tínhamos muito respeito pela Juve. E estávamos ansiosos para o jogo começar.

Disputamos muito bem aquela final. A Juve teve muitas chances, mas vencemos por 1-0. Vencemos esse jogo não apenas com a nossa qualidade, mas com a nossa motivação. Queríamos mais do que eles.

As ruas foram inundadas com centenas de milhares de pessoas, vestidas com camisas e cachecóis brancos, cantando e comemorando. Eu nunca vou me esquecer daquela noite.

Se eu tivesse que escolher um momento favorito do meu tempo no Real Madrid, seria essa conquista.

Quanto mais tempo você fica em Madri, mais você percebe o que esse clube significa para as pessoas – não apenas na cidade, mas também em outras partes da Espanha e do mundo. Não importava onde jogávamos, nós víamos nossos torcedores. Não importava se jogamos El Clásico ou uma copa pequena, o Bernabéu ficava cheio. As pessoas adoram o clube pela mesma razão pela qual decidi me juntar a ele: o prestígio, a base de torcedores, o glorioso sucesso na Liga dos Campeões. E a chance de fazer ainda mais história.

Posso dizer que a era dos galácticos no início dos anos 2000 não era apenas memorável para os torcedores. Também foi incrível fazer parte como jogador. Você se sentava no vestiário, olhava em volta e via o vencedor do Ballon d’Or, o jogador espanhol do ano, o artilheiro da liga, o melhor goleiro do mundo. Fazer parte desse ambiente era especial. Às vezes, eu ficava sentado e pensava: olhe de onde você veio e olhe para onde você está agora. Eu me sentia orgulhoso. Você nunca sabe onde pode parar na vida.

Vencemos a Liga dos Campeões mais duas vezes, em 2000 e 2002. E ainda é difícil para mim lembrar de todos os detalhes. Quando você joga para um clube como o Real Madrid, sempre tem que ficar no presente, porque tudo é muito intenso: os piques, as cabeçadas, as roubadas de bola, os treinamentos, as viagens para o exterior, os hotéis. As vitórias e as derrotas.

Somente no dia em que parei de jogar pelo Real Madrid percebi o que havia alcançado.