O Real Madrid estabeleceu nesta década uma hegemonia na Champions League que apenas o próprio Real Madrid havia vivenciado de maneira parecida, mas nos tempos lendários de Di Stéfano e Puskás. Conquistar o título continental quatro vezes em cinco anos pareceu tornar tudo algo meramente trivial aos merengues – ao menos a quem via de fora. O tricampeonato contra o Liverpool, em 2017/18, permitiu à equipe de Zinedine Zidane repetir uma façanha que não se experimentava na Europa desde os anos 1970. E o time sentiu essa pressão pelo feito. Aliás, sentia o peso a cada final, em que o temor da ocasião motivava a vontade.

Marcelo já escreveu outra vez ao Players’ Tribune, em carta relembrando os seus primórdios no futebol. Desta vez, o lateral resolveu retomar a sua história particular com o Real Madrid na Champions. Repassou o filme que vem à sua cabeça quando relembra cada decisão e também a vontade para se recuperar da má fase recente com os merengues. “Me lembro que era um contrato de cinco anos, e meu objetivo era ficar no Real Madrid por dez. Bem, faz 13 anos agora, e o pequeno Marcelinho do Rio ainda está aqui. Peço desculpas àqueles que duvidaram de mim, mas eu não vou para lugar algum. Ser o jogador estrangeiro que mais tempo vestiu a camisa do Real Madrid é mais do que uma honra. É um conto de fadas. Não faz sentido. É insano. Espero que agora, depois de ler esta carta, você entenda o que isso significa pra mim”, reconta.

Abaixo, reproduzimos o início da versão do texto em português, sobre a decisão de 2018. O conteúdo na íntegra pode ser conferido através deste link.

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Eu não conseguia respirar. Tentava não entrar em pânico. Isso aconteceu no vestiário pouco antes final da Champions League contra o Liverpool em 2018.

Era como se tivesse uma coisa presa no meu peito. Uma pressão monstruosa. Você sabe qual é essa sensação? Não estou falando de ficar nervoso. Ficar nervoso é normal no futebol. Estou falando de uma coisa diferente.

Tô te falando, cara, era uma parada sufocante.

Tudo começou na noite anterior à final. Não conseguia comer. Não conseguia dormir. Só pensava no jogo. Era engraçado, já que minha esposa, Clarice, fica com raiva de mim porque fico roendo minhas unhas, e ela finalmente tinha conseguido que eu parasse alguns anos atrás. Mas quando eu acordei naquela manhã da final minhas unhas todas tinham ido embora.

Ficar um pouco tenso é normal no futebol. Seja você quem for, se não ficar nervoso antes de jogar uma final, você não é uma pessoa de carne e osso. Seja você quem for. Você faz de tudo para não borrar as calças. É a verdade, cara!

Para mim, a pressão foi mais intensa antes da final contra o Liverpool. Talvez as pessoas achem isso estranho. Nós já tínhamos conquistado duas Champions League seguidas. E todo mundo queria que o Liverpool fosse o campeão. Então, qual era o problema?

Bom, quando existe a chance de fazer história, você sente o peso disso. Mas, por alguma razão, eu realmente estava sentindo essa pressão. Nunca que eu tinha passado por tanta ansiedade assim antes, então, eu não sabia o que estava acontecendo. Pensei em chamar o médico, mas estava com medo que ele não me deixasse jogar.

E eu tinha de jogar, 100%.

Tinha que provar algo para mim mesmo.

A poucos dias daquela final, um ex-jogador do Real Madrid tinha dito algo sobre mim na TV que ficou impregnado na minha cabeça. Perguntaram o que ele achava sobre aquela decisão, ele respondeu: “Acho que o Marcelo deveria comprar um pôster do Mohamed Salah, colocar na parede, e rezar todas as noites”.

Depois de 12 anos e 3 conquistas da Champions League, ele me desrespeitava desse jeito, ao vivo, na TV. Esse comentário foi feito para me derrubar. Mas acabou me motivando muito.

Eu queria a terceira Champions seguida pelo Real Madrid. Queria que os meninos no Brasil olhassem para mim do jeito que eu olhava para o Roberto Carlos. Queria que eles deixassem o cabelo crescer por causa do Marcelo, sabe?

Então, eu estava lá, sentado no vestiário, lutando pra conseguir respirar novamente, e pensei comigo mesmo: quantos moleques no mundo jogam futebol? Quantos deles sonham em jogar uma final de Champions? Milhões, milhões, milhões. Relaxa, cara. Amarra as chuteiras, irmão.

Eu sabia que, se conseguisse chegar ao gramado, estaria tudo bem. Para mim, nada de ruim pode acontecer no campo de futebol. Você pode ter crescido em meio ao caos, tudo ao seu redor pode estar de cabeça pra baixo, mas se estiver com uma bola aos seus pés, você para de pensar. Tudo fica em silêncio, na paz.

Quando finalmente pisei no gramado, eu ainda estava com alguma dificuldade de respirar, e daí pensei no seguinte: se eu tiver que morrer no gramado hoje, f***-se, vou morrer.

Talvez soe como maluquice pra algumas pessoas, mas vocês têm que entender o que isso significa pra mim. Quando eu era moleque… Real Madrid? Champions League? Era bobagem! Conto de fadas! Não era real! Beckham, Zidane, Roberto Carlos, esses caras eram tão verdadeiros quanto o Batman. Não é possível conhecê-los na vida real. Você não pode apertar a mão de um herói de quadrinhos, sabe o que eu estou dizendo?

Esses caras andam no ar. Eles flutuam sobre a grama.

E nada disso mudou. É a mesma coisa pra molecada hoje em dia.

Esta é uma história verdadeira: tem esse garoto que trabalha como jardineiro na minha casa em Madrid. Um dia, o Roberto Carlos veio até minha casa pra me encontrar, e o garoto estava lá.

Ele ficou congelado. Tinha virado uma estátua.

Eu disse: “este é o Roberto Carlos”.

O garoto ficou olhando pra ele… e disse “Não. Não é. Não pode ser.”

Roberto disse, “sou eu”.

Cara, o garoto teve de tocar na careca do Roberto pra comprovar que era o Roberto Carlos.

O garoto disse, “Roberto, é você”.

Isso é o que significa para nós. É diferente.

Falando sério, quando joguei minha primeira partida da Champions League pelo Real Madrid, ouvi aquele hino e pensei, “Caraca, irmão, é como no videogame. A câmera vai fazer um close, então, você não pode rir”.

Essa era a minha realidade, entende?

Olha só, há alguns anos voltei para o Brasil para reencontrar minha família, e eu peguei uma das bolas do jogo da final da Champions League para a pelada dos meus amigos. Os meus amigos estavam chutando a bola, e daí eu disse: “Vocês tão ligados que esta é uma das bolas da final, né?”

Tudo parou.

Eles olhavam pra bola como se fosse uma pedra da Lua.

Eles disseram” “zoeira”.

Todos aqueles marmanjos… era como se fossem moleques. Eles não conseguiam acreditar que aquilo era de verdade. Eles nem mesmo queriam encostar na bola. Como se fosse algo precioso. Como se fosse sagrado.

Você entende agora?

Então, para o pequeno Marcelinho do Rio de Janeiro ter uma chance de conquistar três Champions League na sequência? Pera aí. Pressão, pressão, pressão. Eu podia sentir nos meus ossos, irmão. Eu não tenho medo de contar a verdade.

Quando nós fomos para o aquecimento contra o Liverpool, eu ainda não conseguia manter a calma. Mas quando nós estávamos alinhados para o pontapé inicial, sob todas aquelas luzes, e eu vi a bola no centro do gramado, tudo mudou.

Eu vi o sagrado. Eu vi a pedra que veio da Lua.

Tirei aquele peso foi do meu peito. Eu estava em paz.

Não havia nada, a não ser a bola.

Eu não posso dizer muito a respeito daquele jogo. Só me recordo de duas coisas com muita vivacidade.

Com 20 minutos para o fim do jogo, quando nós estávamos ganhando por 2 a 1, a bola foi para escanteio e eu pensei comigo mesmo: “Pôster do Salah na minha parede, né? Obrigado, cara. Valeu pela motivação”.

Então, faltando apenas 10 minutos, nós já estávamos ganhando por 3 a 1, e daí que me toquei que nós seríamos campeões.

A bola foi pra fora de jogo, eu tive um momento para pensar e…

Irmão, de verdade: comecei a chorar.

Estava soluçando, lá no gramado.

Nunca tinha acontecido nada igual comigo antes.

Depois do jogo? Sim.

Segurando o troféu? Sim.

Mas não durante o jogo.

Foi apenas por 10 segundos, e depois a bola foi colocada em jogo novamente, e eu pensei: “Caraca, tenho que marcar o adversário”.

Voltei à realidade e segui jogando, como uma criança.

Como atletas, é nossa responsabilidade sermos o exemplo. Mas nós não somos super-heróis. É por isso que estou contando o que aconteceu comigo. Essa é a vida real. Nós somos seres humanos. Nós sangramos e nos preocupamos, como todo mundo.

Quatro títulos da Champions League em cinco anos, e cada uma dessas decisões foi brutal. Vocês nos veem com os troféus, sorrindo, mas não acompanham tudo o que acontece em nossa história.

Quando penso em cada uma das finais, tem esse lindo filme que passa na minha cabeça. Mas as imagens piscam de trás para frente – do final para o começo da história.

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