O ano que começou com uma conquista marcante terminaria com um golpe injusto. Não só pelo nível condizente com a Serie A que o América Mineiro tinha, mas também pelas circunstâncias que o fizeram cair para a segundona do ano seguinte. Mesmo com a ajuda da virada de mesa no ano anterior para subir, o Coelho de 1993 merecia permanecer na elite do futebol brasileiro. Tinha até numericamente feito por onde, mas um regulamento desbalanceado, feito para corrigir os erros do passado, o fadou ao retorno à Série B, de onde só viria a sair novamente no final de 1997, por causa de uma disputa judicial neste meio tempo.

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Entre 1972 e 1992, não houve espaço para outras equipes que não Atlético Mineiro e Cruzeiro no estadual. Dos 21 campeonatos disputados neste intervalo, nove títulos foram para a Raposa, enquanto o Galo faturou doze. O último campeão fora da dupla, em 1971, havia sido justamente o América. Vencedor no início do século, o Coelho já completava 22 anos sem levantar uma taça sequer, e a seca incomodava. Para tentar levar o time ao título naquele ano, a diretoria apostou na contratação de Chico Formiga, que tivera passagem interessante pelo Corinthians em 1987, levando o time da penúltima colocação do Paulistão no primeiro turno ao vice-campeonato daquele ano, vencido pelo São Paulo.

Quando chegou a Belo Horizonte, Chico Formiga assumiu um time com uma defesa estável, mas com debilidades ofensivas. “Encontrei uma equipe com bons jogadores, mas que jogava muito retrancada. Consegui nesse período implantar uma filosofia mais ofensiva”, revelou o técnico em entrevista à Folha de S.Paulo naquele ano. Com a mesma base do ano anterior, Chico de fato fez isso. E o melhor: sem que o time perdesse a força defensiva que tinha.

Assim como Cruzeiro, Atlético e Democrata, o América começou sua participação na segunda fase. Jogando apenas com equipes do outro grupo, liderou sua chave – que contava também com o Galo – com 19 pontos em 12 jogos, quando a vitória no estadual ainda valia dois pontos. Nessas 12 partidas, foi derrotado apenas uma vez, pelo Valeriodoce. Saiu vencedor dos dois confrontos contra o Cruzeiro, primeiro por 3 a 1, e depois por 1 a 0. No total, venceu oito dos 12 jogos, levando apenas cinco gols.

Além da estabilidade defensiva, um dos grandes responsáveis pela defesa pouco vazada do time de Chico Formiga era o goleiro Milagres. Com um sobrenome desejável para qualquer um da posição, o arqueiro fazia jus ao “título” e era um paredão embaixo da meta. E esse bom momento pelo qual passava foi de grande serventia ao América Mineiro no quadrangular que definiria o campeão. Das seis rodadas da fase final, Milagres foi vazado apenas na quinta. Passou mais de 400 minutos sem ver sua rede balançar, tendo uma atuação de destaque sobretudo no 0 a 0 com o Cruzeiro, na quarta rodada.

O América chegou à última rodada precisando vencer o Democrata e contando com um tropeço do Atlético. Caso o Galo vencesse o Cruzeiro, forçaria a realização de um jogo extra. Antes da rodada derradeira, Chico Formiga embarcava no sucesso de outro time que, no mesmo ano, havia encerrado seu jejum de títulos. Sob o comando de Luxemburgo, o Palmeiras voltou a conquistar o Paulistão após 16 anos. Para Formiga, era um bom sinal: “O feito do Palmeiras não foi por acaso, e nós estamos nesse caminho. O espírito do Palmeiras é verde. É uma boa coincidência”.

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E, exatamente no aniversário de 22 anos da última conquista, Minas Gerais voltava a ser do Coelho. O 4 a 1 sobre o Democrata, junto com a vitória do Cruzeiro por 1 a 0 sobre o Galo, foi mais que suficiente para o título do América. Os cerca de 1500 torcedores americanos que haviam viajado até Governador Valadares então invadiram o gramado, enquanto em Belo Horizonte a torcida tomava as ruas para dizer que o Coelho havia voltado. A campanha irreprensível, liderada pelo talento de Flávio, Hamilton (artilheiro da competição) e, sobretudo, Euller, que ali ganhava o apelido de “Filho do Vento”, era suficiente para encher de confiança a equipe de uma boa campanha no retorno à Série A do Campeonato Brasileiro.

Virada de mesa promove o Coelho, e regulamento absurdo o rebaixa

A vaga conquistada na elite do Brasileirão de 1993 havia acontecido de forma controversa. Assim como o Grêmio, que terminara em 9º na Série B de 1992 mas subiu, o América havia sido apenas o sexto da segunda divisão, mas se beneficiou com a mudança de regulamento feita pela CBF, que subiu à primeira divisão não dois times, como era previsto para aquele ano, mas 12, inchando a Série A de 1993 com 32 equipes. A virada de mesa que contribuíra com o acesso do Coelho teria como consequências um torneio de regulamento esdrúxulo, que seria também o motivo do descenso do campeão mineiro.

Em 1993, o Campeonato Brasileiro foi dividido em quatro grupos. Nos dois primeiros deles, com equipes mais tradicionais, simplesmente não havia rebaixamento. Integrante do Clube dos 13, o Grêmio, que havia subido no tapetão, estava virtualmente seguro na primeira divisão do ano seguinte, independentemente de sua campanha. Nos outros dois grupos, todo os outros 11 que haviam subido juntos com o Tricolor precisavam lutar contra o retorno ao segundo escalão. Colocado no Grupo D, o América terminou na quinta colocação, sendo rebaixado, ainda que, na classificação geral dessa primeira fase, tenha ficado na 14ª posição, bem longe da relação de oito piores times do torneio. O Atlético Mineiro, que oferecera resistência ao Coelho no primeiro semestre, no estadual, fez uma campanha horrível, bastante inferior à do América, mas se manteve pela proteção do regulamento: perdeu 11 de seus 14 jogos, vencendo apenas um.

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A situação fez o América entrar na Justiça Comum, sendo punido pela CBF, sem poder participar de seus torneios entre 1994 e 1996, e o retorno aconteceu apenas em 1997 – já com a disputa e o título da Série B do Brasileirão e a consequente volta à primeira divisão cinco anos depois de sua queda injusta, fruto de trapalhadas e interferência de cartolas no campeonato. Se, por um lado, é verdade que o América foi prejudicado por causa de algo que lhe havia beneficiado anteriormente, por outro, a equipe daquela época tinha condições de, talvez em 1993, conseguir seu acesso independentemente dos formatos que fossem decididos para as competições.

A campanha em campo

Dentro de campo, o América não conseguiu demonstrar a mesma competência que no primeiro semestre o tornara o primeiro campeão mineiro em duas décadas de supremacia de Atlético e Cruzeiro. Ainda assim, fez uma campanha regular o bastante para que continuasse na elite – caso não fosse prejudicado pelo regulamento.

O início no Grupo D foi promissor. Fora de casa, venceu o Paraná na estreia por 3 a 1, com gols de seu trio de destaque – Flávio, Hamilton e Euller. Arrancou um empate com o Atlético Paranaense, mais uma vitória diante da Portuguesa e depois outro empate com o Coritiba. A primeira derrota veio apenas na quinta das 14 rodadas, um 3 a 1 para o Criciúma, em Santa Catarina. Seguiu-se um período de inconstância, até a 9ª rodada, quando sofreu seu maior golpe dentro de campo (ainda menor que o fora deles): 5 a 1 para o Furacão.

Depois da goleada sofrida para o Atlético Paranaense, a resposta veio com outra goleada, 4 a 1 sobre a Portuguesa, com show de Euller e Hamilton, cada um responsável por dois gols. Entretanto, a influência da dupla no destino do Coelho terminaria ali. Nas quatro rodadas restantes, o time derrapou de vez. Não fez nenhum gol, foi batido pelo Coritiba e ficou apenas no empate contra Criciúma, União São João e Desportiva Ferroviária.

Na última rodada, contra a Ferroviária, entrou com chances de se salvar. Mesmo diante daquele regulamento bizarro, ainda tinha sua chance. O 0 a 0 não era completamente fatal para o Coelho, mas a vitória do Criciúma sobre o Furacão por 1 a 0 foi. O Tigre então ultrapassou os americanos por um ponto, rebaixando o campeão mineiro.

A perda do ímpeto defensivo do primeiro semestre foi um dos fatores importantes para a queda. A seca pela qual passou o artilheiro Hamilton, sobretudo nas rodadas finais, também prejudicou a equipe. A presença de Euller no jogo derradeiro, contra a Ferroviária, também poderia ter feito a diferença, e hoje nem estaríamos falando do rebaixamento do Coelho. Todos detalhes técnicos, da campanha no gramado, que poderiam ter sido diferentes e terem escrito um capítulo final distinto. Nenhum deles, no entanto, tão determinante quanto a bagunça feita pela CBF.