Imediatamente após o apito final, os aplausos tomaram o Maracanã. E não havia outra reação possível além de se aplaudir, de pé, o que acabara de se presenciar no gigante de concreto. Alguns podem reclamar de questões técnicas, das falhas excessivas na defesa. Ainda assim, quem esperava um grande clássico viu algo muito mais imponente diante de seus olhos: viu uma partida memorável, daquelas que entram para a história da rivalidade. O Flamengo 4×4 Vasco ofereceu uma verdadeira catarse nesta quarta-feira de Brasileirão. Tudo que se pede a um jogo deste calibre se concretizou nos 90 minutos do Maraca. Para que nenhum torcedor se esqueça.

O clássico teve vibração do início ao fim. Literalmente do início ao fim, entre o gol precoce de Éverton Ribeiro e o empate tardio de Ribamar. Teve golaços, de ambos os lados. Teve lances individuais marcantes. Teve coração, vibração, superação. Teve virada, mais de uma, o que não permitiu em nenhum momento se acreditar piamente que o vencedor estava definido. Teve até rispidez em excesso, com um monte de cartões e jogadores que se estranharam na saída de campo. E o mais importante: teve duas equipes gigantes, que fizeram jus ao peso de suas camisas, à paixão de suas torcidas, ao passado do clássico. O Flamengo x Vasco dos oito gols entra para os anais instantaneamente.

É uma pena que o jogo não tenha sido transmitido ao vivo em rede nacional, como bem merecia. Mas foi ótimo que, numa rara noite de calendário vazio no Brasil, apenas o clássico tenha acontecido pela Série A. Mereceu todas as atenções e todas as repercussões, único em diferentes sentidos. O empate por 4 a 4, ao final, não premia totalmente nenhum dos clubes, mas faz justiça a ambos. Qualquer lado não merecia o gosto amargo da derrota. Os rivais terminam com o sabor agridoce – um pouco mais adocicado aos vascaínos, pela forma como se portaram. Mas, esfriados os ânimos, o resultado é o de menos diante da intensidade que se viveu. É exatamente esse o tipo de partida que permite ao futebol ser o fenômeno popular que é.

Em instantes de bola rolando, o Flamengo se permitiu acreditar na vitória. Mais do que isso, pensou que poderia golear o Vasco, num show que coroaria a caminhada rumo ao título tão próximo. Míseros 38 segundos bastaram para que os rubro-negros abrissem o placar. E que atitude de Reinier. O garoto tem 17 anos nas costas e nem parece só isso. Juntou habilidade e coragem. Rompeu a defesa vascaína numa jogada individual maravilhosa, em que se livrou de quatro marcadores e bateu prensado na saída de Fernando Miguel. A bola sobrou para Éverton Ribeiro e a conclusão nem foi das mais bonitas. Pouco importava, quando a beleza estava em um preâmbulo tão espetacular. O prenúncio de uma noite especial.

O domínio inicial rendeu outra boa chance ao Flamengo nos primeiros minutos. No entanto, não seria tão fácil vencer o clássico. Não seria simples derrotar o Vasco. Se de um lado Jorge Jesus assume o sebastianismo do futebol-magia rubro-negro, Vanderlei Luxemburgo domina outras artes essenciais no futebol. Alguém que conhece tão bem a Gávea e, mais importante, os próprios meandros do boleirismo. Se tem algo que Luxa sabe fazer é tirar o máximo de seus jogadores através da motivação. Ele tem consciência plena da história e da tradição cruzmaltinas. Nesta quarta, os vascaínos não jogaram como um time ameaçado contra o rebaixamento, ante o provável campeão. Não jogaram como um clube com dificuldades financeiras, ante o elenco milionário. Jogaram de igual para igual, de rival para rival, e com a valentia que a camisa manda.

O Vasco, assim, não demoraria a se equiparar ao Flamengo. Não se acovardaria. E daria trabalho aos rubro-negros, em uma apresentação especialmente desencontrada da zaga adversária. Diego Alves logo foi exigido à primeira defesa, antes que Rodrigo Caio quase marcasse contra. Os vascaínos iam para um inimaginável abafa. Seriam premiados pela postura aos 33 minutos, num gol muito bem construído, explorando o buraco dos rivais. Rossi cruzou, Raul ajeitou e Marrony bateu de primeira. Pois o empate fez os cruzmaltinos acreditarem ainda mais.

Yago Pikachu foi um personagem à parte no clássico. Arisco, partindo para cima da marcação, tratando o grande jogo no Maracanã como tinha que ser. Assim ele criaria o segundo gol do Vasco a partir de sua imaginação. Livrou-se de dois metendo a bola por entre as canetas de Pablo Marí e terminou de assinar a jogada dentro da área, derrubado por Rodrigo Caio. Nem tinha como ser outro jogador a cobrar o pênalti. E Diego Alves também não merecia negar o gol a Pikachu, arrancando uma virada que fazia sua torcida explodir.

Longe de sua noite mais inspirada no ataque, o Flamengo era travado no meio-campo por um oponente organizado. Tinha mais posse de bola, só não conseguia fluir. Não via Bruno Henrique ou Gabigol desta vez – ao menos por enquanto. E até pelas atuações menos brilhantes do time nas rodadas recentes, os rubro-negros tinham seus motivos para temer. Seria bom reagir o quanto antes. A sorte também sorriria ao Fla nos acréscimos. Sorte de campeão? Talvez. A cobrança de falta ensaiada permitiu a Gabigol acionar Rafinha na borda da grande área e o cruzamento do veterano desviou em Danilo Barcelos antes de entrar. Rolou até uma imitação de Edmundo nos 4 a 1 de 1997, provocação básica que apimentava mais o segundo tempo.

Menos ousados não apostariam em uma etapa complementar tão galopante quanto a primeira. Pois aconteceu, e com a dose de imprevisibilidade que o enredo de uma partidaça necessita. Jorge Jesus acionaria o seu banco de reservas logo de cara. Saiu Reinier, que não rendeu tanto além do gol, para a entrada de Arrascaeta. Sugeria-se um Flamengo mais aceso. Logo surgiria outro gol do Vasco, o terceiro, aos seis minutos. A defesa continuava dessintonizada e abriu a avenida. Pikachu deu um passe magistral para Rossi passar às costas de Filipe Luis na lateral e o atacante cruzou de primeira, para Marcos Júnior completar sozinho dentro da área, sem que ninguém o acompanhasse.

O Flamengo tinha a pressa, mas carecia de calma. E, no limite do paradoxo, foi do inferno ao céu em questão de instantes. Um cochilo da defesa quase permitiu a Richard o quarto, em chute que explodiu na zaga. Logo na sequência, seria um contragolpe de manual a render o novo empate, o 3 a 3, aos 19. O terceiro gol do Fla contou com a aceleração máxima de Bruno Henrique. O melhor de Bruno Henrique, até então enclausurado pela defesa vascaína. Craque. O atacante arrancou e carregou consigo mais dois marcadores, mordendo seus calcanhares, comendo poeira. Abriu com Arrascaeta na esquerda e o uruguaio foi preciso como os ponteiros de um relógio. Recebeu e deu o passe impecável, no meio da área, para que o furacão chamado Bruno Henrique passasse, mandando a bola nas redes. Não dava para respirar.

Até então, o Flamengo estava distante de ser o melhor Flamengo do Brasileirão. Ainda assim, o Vasco que se superava não era capaz de conter totalmente aquele punhado de jogadores individualmente avassaladores, melhores ainda quando se combinavam. Os vascaínos jogavam uma final, mas os rubro-negros possuem genuínos campeões. Neste momento, o Fla aumentava sua intensidade. Era o Flamengo de Jorge Jesus. Gabigol teve um gol anulado logo na sequência. Pouco depois, o artilheiro e Bruno Henrique desperdiçaram duas chances claríssimas. Porém, até pelos mais de 20 minutos no relógio, a virada dos flamenguistas se tornava iminente.

O que não se encerrava era o risco. O Flamengo partia para cima, mas também expunha com uma defesa permissiva. O clássico passou a ficar picotado pelas faltas, muitas delas flagrantes, rendendo uma sequência de cartões amarelos. Já aos 35, Vitinho entraria em campo e, mais um tempero no Maracanã, não poderia ser parado nem com falta. Foi dele o lance da virada. O substituto desatou sua dose de arte, mais uma à noite. Pegou a bola na direita e rabiscou pra cima de dois adversários. O primeiro, no chão. O segundo, no vácuo. O cruzamento no meio da área foi aparado por Gabigol e Bruno Henrique, num sem-pulo bailarino, pegou na bola em cheio. Fez o véu da noiva balançar, garantindo uma virada épica ao Fla.

Poderia ser a vitória mais lembrada do Flamengo no campeonato, entre tantos resultados simbólicos. Terminou com um Vasco que nunca desistiu, deixando em campo todas as suas forças. Que não merecia o revés, afinal. Ribamar também saiu do banco. Também não era o herói mais esperado. Mas encarnou o espírito vascaíno ao final da epopeia. Parou em Diego Alves na primeira tentativa, uma bomba. E nos últimos suspiros, surgiu para determinar o salomônico empate, 4 a 4. Em meio aos chuveirinhos, o atacante se meteu no meio de todo mundo para uma cabeçada fulminante. A que fechou a noite. Ainda era possível buscar o quinto gol nos quatro minutos restantes, e o Fla até insistiu, mas a igualdade daria um prêmio idêntico aos rivais, sem romper a satisfação.

O apito final rendeu os imediatos (e supramencionados) aplausos, mas terminou muito mais pautado pela briga no gramado. Pablo Marí não aceitou os cumprimentos de Ribamar e a confusão se desenrolou. Não precisava, diante de tudo o que foi o clássico, mas retrata bem uma noite de nervos tão aflorados. Inaceitável é a agressão a Gabigol cometida por André Souza, gerente de futebol vascaíno. Ato para se punir com rigor.

O episódio lamentável, entretanto, merece apenas uma nota de rodapé ao que viveu o Maracanã. Nelson Rodrigues e os tricolores que me desculpem, mas que o Fla x Flu seja mais poético, nenhum duelo no Rio de Janeiro supera o Clássico dos Milhões em emoção e alma. Algo que se consagrou ao longo de décadas, em grandes decisões, e que se eternizou neste embate flamante de oito gols.

O Flamengo não ficou com a vitória, mas saiu com lições, com craques e com um jogo que engorda a lista desta campanha para ser recontada por décadas. O Vasco também não se livra totalmente dos riscos, mas compensa pelo orgulho intacto, pela vontade imensa. Encarou nos olhos, de igual, como o clássico deve ser. Torcedores vivem uma noite em que não conseguirão dormir, e que nas lembranças nunca terminará. Já aos felizardos que puderam apreciar apenas a palpitante loucura sem clubismo envolvido, fica o prazer pelo grande jogo. Ganha o futebol, numa noite de mestres a Jesus e Luxemburgo.

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