Anthony Burgess, 100 anos: A visão do autor de ‘Laranja Mecânica’ sobre o futebol

Embora não fosse exatamente um apaixonado e tivesse uma visão elitista sobre as massas, Burgess não negou a importância do futebol como fenômeno

Anthony Burgess foi uma das principais referências da literatura britânica no Século XX. Por anos trabalhou como crítico literário em alguns dos principais jornais do Reino Unido, assim como ofereceu traduções e estudos sobre obras clássicas. Além de, é claro, também perpetuar os seus próprios escritos. Por décadas compôs músicas, embora seus livros tenham ganhado maior fama. Sobretudo, ‘Laranja Mecânica’, distopia publicada em 1962 e que repercutiu ainda mais a partir de 1971, com o lançamento do filme adaptado por Stanley Kubrick. Autor cultuado e bastante celebrado nos últimos dias, diante do centenário de seu nascimento, completado no sábado.

Nascido em Manchester, Burgess não se manteve alheio ao futebol, como conta artigo publicado pela The International Anthony Burgess Foundation. A paixão das massas eclodia mais e mais ao seu redor, em uma região que foi berço do profissionalismo no esporte. Enquanto o escritor completava sua formação acadêmica, pôde sentir a comoção sobre a epopeia do Manchester City, indo do céu ao inferno com a conquista do Campeonato Inglês e o surpreendente rebaixamento na temporada seguinte. Da mesma maneira, quando retornou ao país no final da década de 1950, o Manchester United estava no centro das atenções, se recuperando depois do desastre aéreo de Munique.

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Particularmente, Burgess não se impressionava com o futebol. Em 1928, aos 11 anos, esteve pela primeira e única vez em um estádio. Foi levado por seu tio Jack Tollitt, para assistir ao Manchester City em Maine Road. Em sua autobiografia, ‘Little Wilson and Big God’, o britânico comenta o episódio em uma breve passagem, dizendo que aprendeu naquele dia de arquibancada “todas as inclinações da palavra ‘fuck'”. O escritor tinha concepções um tanto quanto elitistas, tratando o esporte como uma vulgaridade. Considerava o espetáculo que mobilizava multidões como algo menor, quando comparado a outras áreas mais ‘nobres’ do interesse humano. Ainda assim, não ignorava o poder de atração em torno do jogo, como fenômeno para entender o comportamento da sociedade.

A citação de Anthony Burgess mais famosa sobre o futebol acontece em ‘Inside Mr. Enderby’, publicado em 1963. No livro, o personagem Walpole afirma ao protagonista: “Hoje é sábado. Por cinco dias trabalharás, diz a Bíblia. O sétimo dia é para o Senhor teu Deus. O sexto é para o futebol e espalhar a palavra e punição e coisas do tipo”. Erroneamente, a frase muitas vezes tenta caracterizar o escritor como um fanático pela bola, fora de contexto, suprimindo também a parte após ‘futebol’ na última frase. Algo, por exemplo, que se torna questionável quando se recorda a posição enfática do britânico após as tragédias de Heysel e Hillsborough. O intelectual dedicou artigos de jornal ácidos (e um tanto quanto preconceituosos) a ambos os episódios.

“Onde há uma multidão, não há moralidade”, escreveu em 1985, para o Daily Mail, diante das mortes após o duelo entre Liverpool e Juventus, na final da Copa dos Campeões. Quatro anos depois, foi ainda mais duro sobre Hillsborough: “Os britânicos são um povo violento. Sua história tem sido, em partes, uma crônica da subjugação através da violência. Ironicamente, os esportes como o futebol foram considerados no passado um substituto para a agressão da guerra civil ou da colonização de territórios. Nós agora vemos que não é assim. Se os educados podem atingir suas catarses ouvindo Beethoven ou assistindo a Hamlet, o proletariado apenas pode expurgar seus instintos mais básicos com um entretenimento que desperta a solidariedade e desencadeia a belicosidade. Para milhares de britânicos, não há nada mais importante que o grito da multidão aos sábados, assistindo a 22 homens chutando um pedaço de couro. Há algo errado com nossa cultura se chegamos a isso”. Visão um tanto quanto conservadora, em anos pesados de hooliganismo. Falecido em 1993, o autor não veria o desdobramento da Premier League.

Anthony Burgess at home in 1968.

E, como não poderia deixar de ser, o trabalho mais famoso de Burgess possui intersecções com o futebol. Em ‘Laranja Mecânica’, há uma rápida referência em certo trecho, no qual Alex comenta: “A gazeta trazia o habitual… jogadores de futebol deixando todos paralisados de medo com a ameaça de não jogar no próximo sábado, se eles não ganhassem salários maiores, malchickiwicks maldosos como eram”. O trecho seria referência a Jimmy Greaves, que em 1961 (época na qual o livro estava sendo redigido) se transferiu do Chelsea ao Milan e se recusava a disputar três amistosos pelos Blues no final da temporada, a não ser que ganhasse mais dinheiro por isso. Sinal de que o escritor não ignorava totalmente o caderno de esportes em seu jornal.

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Já em 1974, Burgess esteve presente na Alemanha Ocidental, durante a Copa do Mundo. Dedicou ao tema um artigo na revista Time, publicado em 8 de julho, um dia depois da decisão: “O futebol é tradicionalmente bruto e atrai rudes, bêbados e barulhentos. Não pode ser discutido em bares sem paixão e obscenidade. Certamente não é um jogo para cavalheiros. Mesmo sua sutileza e sua habilidade falharam em recomendá-lo… Para estes que não são cavalheiros, o paradoxo do futebol delicia e intriga. Albert Camus foi goleiro. Sir Frederick Ayer, o filósofo, é um torcedor, e tem um senso de que o futebol atende à lógica positivista. Isto é, acima de tudo, um sistema semiótico preciso e múltiplo”.

Curiosamente, Burgess não aprovava as duas releituras que tornaram ‘Laranja Mecânica’ mais popular. Refutava a adaptação feita para os cinemas por Kubrick, especialmente se basear na edição americana do livro e suprimir o último capítulo da versão original, que representava a maturidade de Alex diante de seu passado caótico. “Meu livro tornou-se conhecido como matéria-prima para um filme que parecia glorificar o sexo e a violência. O filme facilita aos leitores a deturpação do que está escrito. E essa interpretação errada irá me perseguir até a morte”, declarou. Além disso, também desagradava a ideia de que sua obra pudesse ser relacionada a um time de futebol, como a Holanda de Johan Cruyff e Rinus Michels – desconhecendo a revolução que aquele timaço representaria.

No fim das contas, o filme e o esquadrão eternizaram-se tanto quanto o livro. De certa forma, Burgess deve a eles pelo interesse contínuo a seu livro atemporal. E, por sorte, sua noção elitizada sobre o futebol tem cada vez menos espaços entre intelectuais. Apesar do ranço, o escritor oferece um ponto de partida a visões mais amplas sobre aquilo que, embora negasse a nobreza, não negava a importância.