Por Felipe dos Santos Souza e Ubiratan Leal

Matéria originalmente publicada em maio de 2009, na Revista Trivela

A versão mais aceita da história do Brasileirão estabelece: o campeonato foi criado em 1971 e seu primeiro campeão foi o Atlético Mineiro. Como se fosse o Big Bang – a expansão de uma massa infinitamente densa e quente que deu origem a tudo (inclusive ao tempo) – dos torneios nacionais no Brasil. Não é bem assim. Ao contrário da explosão cósmica, houve o “antes” no futebol brasileiro, na forma de várias competições que identificariam, cada uma a sua maneira, o melhor time do país.

A pré-história do Campeonato Brasileiro se tornou atual a partir do momento em que os clubes vencedores de Taça Brasil e Torneio Roberto Gomes Pedrosa (o Robertão) pleiteiam a equiparação desses títulos ao da atual Série A. Mas, antes de determinar se é justo ou não igualar as conquistas, é preciso conhecê-las.

Até a década de 1960, o grande obstáculo para o surgimento do Brasileirão era a dificuldade de transporte em um país tão extenso. Por isso, a estruturação se deu em campeonatos estaduais. Os torneios interestaduais eram restritos a poucos clubes, geralmente de Rio de Janeiro e São Paulo, cidades próximas e de melhor infraestrutura.

Outro motivo para a demora na criação de um Nacional de clubes é que já havia uma competição considerada como Campeonato Brasileiro. Entre 1922 e 1959, o torneio que carregava o status de mais importante do país reunia seleções estaduais. “O Brasil era mais provinciano e as seleções, ainda que tomassem como base o clube que os jogadores defendiam, eram quase dos estados de nascimento”, explica Roberto Assaf, autor do livro “História Completa do Brasileirão”.

Essa identificação ajudava a legitimar o torneio e a lhe dar relevância diante do público. Em 1934 e 35, no auge da disputa entre amadorismo e profissionalismo, entidades ligadas aos dois lados organizaram suas próprias versões. “Era um torneio oficial muito respeitado, mas, como não envolve a paixão clubística, hoje ninguém tem interesse em recuperá-lo”, comenta Odir Cunha, responsável pelo “Dossiê de Unificação dos Títulos Brasileiros”, apresentado à CBF pelos clubes que pedem a equiparação de torneios pré-1971 com o Brasileirão.

Vários fatores explicam a queda de popularidade do torneio. O fato de cariocas e paulistas perderem a hegemonia para Minas Gerais, em 1962, ajudou a enterrar a competição (que até teve, em 1987, uma edição extraordinária, vencida pelo Rio de Janeiro, representado pelo Americano). Mas o Brasileiro de Seleções já perdia espaço desde a criação, em 1959, da Taça Brasil.

Os melhores de cada Estado

O primeiro torneio a reunir clubes de todas as regiões do país surgiu como uma forma de a CBD definir o representante brasileiro na Copa Campeões da América (atual Libertadores), que teria sua primeira edição no ano seguinte. Como ainda havia limitação de data e restrições para viagens interestaduais, a competição foi montada de modo mais econômico possível. No caso, um grande mata-mata reunindo os campeões estaduais.

Logo em sua primeira edição, a Taça Brasil já teve uma surpresa. Na final, o Bahia superou o favorito Santos e foi o primeiro campeão. Para o Tricolor, a conquista é tão importante que é lembrada pela presença de uma estrela, do mesmo peso da utilizada pelo Brasileirão de 1988, na camisa.

Como não havia outra competição que abraçasse clubes de tantos Estados, a Taça Brasil era a melhor referência da relação de forças do futebol de cada região do país. Tanto que o Santos registrou, durante anos, o “pentacampeonato brasileiro” de 1961 a 1965 em um muro na Vila Belmiro.

Por isso, há quem rechace a relação automática que se faz entre Taça Brasil e Copa do Brasil, ainda que suas fórmulas de disputa e formas de definição dos participantes sejam semelhantes. “Comparar os dois torneios é ver o passado com olhos de hoje. A Taça Brasil era realmente valorizada. A Copa do Brasil é um torneio secundário, ainda que importante”, defende Celso Unzelte, autor de “O Livro de Ouro do Futebol”.

É verdade, tanto quanto que países como Inglaterra e Espanha criaram suas copas antes dos campeonatos e, nem por isso, os vencedores foram considerados campeões nacionais. Por isso, o jornalista defende que o título tenha seu valor reconhecido, mas isso não significa que tenha de ser equiparado ao dos Brasileirões ou Copas do Brasil.

Rio-São Paulo crescido

Roberto Gomes Pedrosa nasceu em 1913, no Rio de Janeiro. Conhecido como Pedrosa, foi goleiro do Botafogo e defendeu a Seleção na Copa do Mundo de 1934. No final de carreira, defendeu o São Paulo, clube do qual foi presidente em 1946. No ano seguinte, assumiu a direção da Federação Paulista de Futebol.

O ex-goleiro carioca que se transformou em dirigente paulista morreu em janeiro de 1954. Como homenagem óbvia, seu nome passou a batizar o Torneio Rio-São Paulo, algo que foi pouco notado até 1967. Naquele ano, a competição passou a ter equipes de Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná e o nome “Roberto Gomes Pedrosa”, ou “Robertão”, prevaleceu.

O campeonato foi organizado pelas federações carioca e paulista em sua primeira edição ampliada. A fórmula de disputa já se assemelhava à dos Brasileirões, com times divididos em grupos e mais de uma fase para definir o campeão. Cada equipe disputaria um mínimo de 14 partidas, o que já obrigava o campeonato a ter um espaço grande no calendário.

Em 1968, o Robertão passou a ser organizado pela CBD, incorporou equipes de Bahia e Pernambuco e passou a ser conhecido também como Taça de Prata (referência ao troféu oferecido pela entidade ao campeão). Foi também o último ano da Taça Brasil, que sentia a concorrência da rejuvenescida competição. Nas duas temporadas seguintes, o campeonato não teve mudanças, mas indicou os representantes brasileiros na Libertadores.

A Taça de Prata foi a base para a criação do Campeonato Nacional de Clubes, em 1971. As únicas alterações foram a inclusão de um time do Ceará e de mais uma vaga para Minas Gerais e outra para Pernambuco. A nacionalização do torneio era supostamente assegurada pela criação da segunda divisão, que abrigava clubes de todos os Estados que já tinham aderido ao profissionalismo.

Reconhecimento ou equiparação?

A relação histórica entre os torneios é inegável. Mas o que teria motivado a CBD, ao criar o Brasileirão em 1971, a deixar de lado Taça Brasil e Robertão, competições que ela própria organizou? Simples: política. “O Brasil vivia uma ditadura que descobria como o futebol podia ser usado para promover o ufanismo e a imagem de integração nacional. Era interessante para o governo da época vender a ideia de que estava sendo criado algo inédito”, comenta Roberto Assaf.

O rompimento entre o que já existia e o que surgiu criou um paradoxo. Ao mesmo tempo em que havia a noção de que os vencedores de Taça Brasil e Robertão eram campeões nacionais, a imprensa da época também debatia a respeito da falta de um campeonato verdadeiramente nacional. “A própria CBF não sabe o que a CBD determinou na transição de 1970 para 1971. A documentação da época está na Granja Comary [Teresópolis-RJ] e o responsável pelo arquivo histórico da entidade ainda não teve condições de procurar esse material”, afirma o jornalista Paulo Vinícius Coelho, comentarista dos canais ESPN.

João Havelange, presidente da CBD que criou o Campeonato Brasileiro, se diz hoje favorável à unificação de títulos da Taça Brasil e Robertão. Em evento oficial do Santos, afirmou que “se os títulos existiram é porque as competições foram oficiais e, se foram oficiais, devem ser respeitadas”. No entanto, o ex-dirigente não respondeu quando foi perguntado sobre o porquê de ele próprio não ter feito isso quando comandava o futebol brasileiro.

Com tantas verdades e mitos povoando as versões pró e contra a equiparação de títulos, o torcedor e até a imprensa têm dificuldades de fazer um julgamento sobre o assunto. O que é inquestionável é que Campeonato Brasileiro de Seleções, Taça Brasil e Robertão foram as competições mais importantes do país em suas épocas e seus vencedores eram consagrados como “campeões brasileiros”. Reconhecer isso é mais importante do que chamar de “campeão do Brasileirão”.

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Primeiros passos

Nas primeiras décadas do século passado, havia uma ideia no Brasil de que o melhor futebol do país estava em Rio de Janeiro e São Paulo. Por analogia, o time mais forte do país deveria estar na capital bandeirante ou no Distrito Federal (Brasília ainda estava longe de existir). Como a curiosidade para conhecer o melhor é tão antiga quanto o esporte, foi natural que surgissem desafios entre paulistas e cariocas.

A primeira experiência foi a Taça Salutaris, disputada em 1911 entre Botafogo e a Associação Atlética das Palmeiras (já extinta), que ficou com o título. Vários torneios de formatos parecidos – e vida intermitente – foram realizados entre as décadas de 1910 e 30. Foram a Taça dos Campeões Estaduais e a Taça Ioduran.

A Copa dos Campeões Estaduais de 1920 inovou ao ir além das duas maiores cidades brasileiras. Fluminense e Paulistano enfrentaram o Brasil de Pelotas, campeão gaúcho. Os paulistas ficaram com o troféu. Em 1937, foi realizado outro torneio nos mesmos moldes, vencido pelo Atlético Mineiro.

Com a consolidação do Rio-São Paulo em 1950 (houve duas edições isoladas, em 1933 e 1942), o Brasil passou a ter um torneio periódico que servisse de referência. Pelo menos foi assim até 1959, ano de surgimento da Taça Brasil. Mas o Rio-São Paulo manteve sua força, tanto que serviu de base para a nacionalização do Robertão.

Mesmo nessa época, ainda foram disputados torneios interestaduais isolados. Em 1967, o Bangu conquistou a Copa dos Campeões Estaduais ao vencer o Atlético Mineiro. Dois anos depois, o Grêmio Maringá venceu a Copa dos Campeões da CBD.