Antes de tudo, um forte: o Nordestão vem aí

Depois de três anos fora do calendário, a Copa do Nordeste volta a ser disputada com seus prós e seus contras: confira a apresentação do torneio

Salvador, Aracaju, Itabaiana, Recife, Campina Grande, Natal e Fortaleza. Não se trata do roteiro de alguém que decidiu conhecer o Nordeste brasileiro durante as férias de verão. Tampouco, da mais recente turnê de algum artista muito popular da região. Quem está desfilando por essas cidades é a taça da Copa do Nordeste, o popular Nordestão, que voltará a ser disputado em 2013, depois de um hiato de três anos. Embora a sensação seja de que ele não acontecia já há dez temporadas, dado que a desastrada edição anterior tenha passado em branquíssimas nuvens.

Banhado a ouro e contando com sete arcos, uma referência aos estados que estarão representados na disputa, o troféu (de gosto um tanto duvidoso) traz grandes alças, que, intencionalmente ou não, remetem às da taça da Liga dos Campeões da Europa. Na Espanha, o prêmio ao campeão do principal torneio de clubes do continente foi apelidado de “La Orejona”, fazendo com que muitos a chamem de “Orelhuda” por aqui. Então, nada mais justo que a cobiçada taça do Nordestão ganhe uma alcunha carinhosa e compatível com o modo coloquial de falar da região, que envolve muito mais sotaques diferentes do que a teledramaturgia da Globo parece conhecer:

– Teje batizada de Zoreiúda!

Serão 16 clubes brigando para colocá-la no currículo e na sala de troféus. Ironicamente, o melhor nordestino no Brasileirão do ano passado não se fará presente, já que as vagas foram distribuídas com base na classificação dos estaduais e o Náutico acabou em quarto no Pernambucano de 2012, atrás de Santa Cruz e Sport, seus ferrenhos rivais, e do emergente Salgueiro. Uma iniciativa louvável, que pode incentivar a competitividade dos campeonatos de cada estado, aqueles que, em tese, são os principais perdedores com a chegada de um torneio mais lucrativo e desafiador para todos os clubes da região.

Na primeira fase, os participantes estarão divididos em quatro grupos. No Grupo A, o ABC terá a companhia de três campeões estaduais do ano passado: Bahia, Ceará e Itabaiana. No B, só vices: Sport, Fortaleza, Confiança e Sousa. O América de Natal foi o único integrante do Grupo C a dar uma volta olímpica em 2012, mas não deve esperar facilidade de um grupo que conta também com Vitória, ASA e Salgueiro. Para completar a lista, temos o D, onde os campeões Santa Cruz, CRB e Campinense terão pela frente o caçulinha da competição, o Feirense, fundado em 2007.

O regulamento é simples e objetivo. Os dois primeiros de cada grupo, onde todos se enfrentam no sistema de ida e volta, avançam para as quartas de final. E assim o torneio seguirá se afunilando, sempre na base do mata-mata. A primeira rodada acontece já neste fim de semana, com quatro jogos no sábado e outros quatro no domingo. As finais serão disputadas nos dias 10 e 17 de março. Cada clube receberá 300 mil reais pela participação, independente do desempenho apresentado. O campeão pode acrescentar bem vindos 800 mil ao agrado inicial.

Mais operários que medalhões

Naturalmente, os favoritos ao título são os clubes mais tradicionais de Bahia, Ceará e Pernambuco, estados mais ricos da região e com mais história no futebol brasileiro. Por disputarem a Série A, Bahia e Vitória talvez se credenciassem pela maior capacidade de investimento, mas dificilmente pintarão nomes de maior destaque em seus elencos antes do começo do nacional. O Bahia, que perdeu o promissor Gabriel, ainda está devagar nas contratações. No Vitória, os nomes que chamam mais atenção são o do volante Cáceres, ex-Libertad, e do meia Renato Cajá, ainda lembrado pelo que fez na Ponte Preta há alguns anos. Ah, Maxi Biancucchi, o famoso “primo do Messi” também pintou por lá. Será que o Cristiano Ronaldo não tem um primo também?

Recém-rebaixado à Segundona, o Sport aposta no goleador Roger, outro que só fez sucesso na Macaca, e em Marcos Aurélio, que vem de passagem apagada pelo Internacional, devido a constantes lesões. Cicinho e Hugo, os medalhões do elenco, nem estão garantidos pela temporada inteira, mas podem fazer a diferença neste torneio de tiro curto. De campanha sofrível na Série C, o Santa manteve a base de sua defesa, mas ainda busca reconstruir o seu ataque, que não conta mais com o artilheiro Dênis Marques. Por enquanto, a única contratação que dá alguma esperança ao torcedor coral é a de um atleta que, acredite, estava inscrito na Liga dos Campeões da Europa. Sendo que o atacante Paulo César, pouco conhecido por aqui, mal vinha sendo aproveitado pelo Braga.

No Ceará, o destaque dentro de campo é o veterano Magno Alves, embora existam rumores de que ele deixará o clube para atuar no exterior. Quem chama atenção mesmo é o técnico Ricardinho, AQUELE, campeão do mundo pela seleção brasileira em 2002. O Fortaleza, outro sem motivos para sentir saudades de 2012, “repatriou” Ronaldo Angelim, que depois de anos de bons serviços prestados ao Flamengo, volta ao clube que o revelou. Mesmo com 37 anos, parece ser um reforço mais confiável do que Leandro, o atacante que, depois de se tornar campeão brasileiro com o São Paulo e subir nas traves do Morumbi, só despencou na carreira.

Em 10 edições do Nordestão, apenas quatro clubes tiveram a honra de levantar a taça. O Vitória foi campeão em metade das edições, incluindo a primeira, disputada em 1976, e a mais recente, disputada em 2010. Bahia e Sport foram campeões duas vezes e o América-RN completa a lista. Espera-se que, enfim, o torneio se firme no calendário do futebol da região. Além de 1976 e 2010, o ano de 1994 também contou com uma edição isolada. Somente de 1997 a 2003 o Nordestão foi disputado sem interrupções. A promessa da CBF é de que a competição está garantida pelos próximos dez anos. E com um atrativo a mais já para 2014: uma vaga direta na Sul Americana para o campeão.

Copo meio cheio

A retomada da Copa do Nordeste atende a uma reivindicação antiga dos clubes da região. Os clubes maiores perderão menos tempo enfrentando adversários pouquíssimo qualificados de seus próprios estados, o que deve prepará-los melhor para os desafios do resto do ano. E nos estados onde o futebol não anda lá muito bem das pernas, há a chance de um renascimento, pelo menos a nível local. O caso mais grave é o de Sergipe, que não tem um representante sequer nas três primeiras divisões brasileiras. Mas há também o caso da Paraíba, cujo clube melhor posicionado é o Treze, que só entrou na Série C na base do tapetão.

Com o Brasileirão disputado em pontos corridos, a chance de uma surpresa na briga pelo título se reduziu consideravelmente. A Copa do Brasil, melhor chance de um nordestino incomodar os grandes do Sul e Sudeste, torna-se bem mais complicada com o retorno daqueles que estão classificados para a Libertadores. Não bastasse tudo isso, o abismo entre as cotas de TV faz com que os clubes do Nordeste tenham de trabalhar com o objetivo realista de se manter na Série A. Ir além disso, não passa de sonho, o que não justifica que eles parem de lutar e trabalhar para um dia quebrar a banca e reverter essa situação.

Por isso mesmo, é importante que clubes e torcidas valorizem o Nordestão. Se utilizado da forma correta pelos grandes, pode servir para descobrir novos talentos e outras formas de renda. Nada impede que, futuramente, possam expandir seu contingente de torcedores pelos estados vizinhos, por exemplo. Reafirmar o papel de potência diante de uma região que conta com mais de 50 milhões de habitantes e um PIB superior ao de países como Portugal e Chile não é pouca coisa. Levado a sério, o Nordestão pode ser um campeonato mais interessante do que várias ligas nacionais da América do Sul. Seria o sonho da Confederação do Equador transferido para o mundo do futebol.

Copo meio vazio

Assim como a diferença nas cotas de TV entre um Corinthians e um Bahia atrapalha a competitividade dos nordestinos em torneios de âmbito nacional, o desnível poderá ser notado também dentro do Nordestão. Bahia e Vitória, que disputarão a Série A, e o Sport, que continuará recebendo a mesma cota do ano passado, mesmo que tenha sido rebaixado (a cota daqueles que caem para a Série B só é revista se o clube não conseguir o acesso no ano seguinte), terão muito mais verba para investir que rivais tradicionais como Santa Cruz, Ceará e Fortaleza. Calcule então o tamanho do abismo para equipes como o Sousa e o Feirense.

Caso algum clube se firme na primeira divisão e veja suas cotas aumentarem, há o risco de que a competitividade da Copa do Nordeste “vá para as cucuias”, como se diz pelas bandas de cá. A princípio, isso não acontecerá, já que os clubes nordestinos não conseguem investir tudo o que ganham, tanto pelo acúmulo de dívidas, quanto pela dificuldade em brigar por contratações com clubes do Sul e Sudeste, que recebem uma bolada ainda maior. Algo que pode ser contornado rapidamente, caso haja um investimento mais forte em jovens valores da região, deixando de lado essa fixação por medalhões e desconhecidos cuja base é o interior de São Paulo.

É importante também que o número de datas dos estaduais não se some às do Nordestão e faça com que os clubes enfrentem uma maratona, ou acabem tendo de priorizar algum dos dois torneios. Um exemplo: se Santa e Sport chegarem à final, tanto do regional, quanto do estadual, disputarão 27 partidas em apenas três meses. E a conta pode aumentar, caso decidam o Nordestão, mas não se classifiquem às semifinais do Pernambucano, o que lhes obrigaria a participar do bizarro “Octagonal do Rebaixamento” e entrar em campo 30 vezes, no mesmo período. Para agradar os nanicos de cada estado, os presidentes das federações podem matar a sua novíssima galinha dos ovos de ouro.

Outro ponto negativo é a ausência de clubes de Maranhão e Piauí na Copa do Nordeste. Muitos falam na inclusão de representantes desses estados em 2014, o que desmancharia a boa forma de disputa escolhida, levando em consideração que os outros estados dificilmente aceitariam perder alguma de suas vagas para acomodar os vizinhos. Ainda assim, é fundamental que maranhenses e piauienses sejam acolhidos, já que se tratam de estados em que o futebol precisa evoluir e que, constantemente, são tratados como nordestinos pelos do Norte e como nortistas pelos do Nordeste. Eles também merecem a parte que lhes cabe nesse latifúndio.