Gennaro Gattuso merece críticas pelo seu trabalho à frente do Milan, mas nenhuma desconfiança em relação amor que nutre pelo clube. Encarou a tarefa, a muito difícil tarefa, com a mesma energia e coração que deixava em campo nos tempos de jogador. Ao deixar os rossoneri, em decisão anunciada como consensual, deu uma última prova de devoção abrindo mão do que tinha direito de receber pela rescisão do seu contrato.

Gattuso tinha vínculo com o Milan por mais duas temporadas. Em caso de quebra de contrato na Itália, é comum que os clubes paguem o acordo até o fim, ou até o profissional encontrar outro emprego, exceto quando há uma cláusula específica de rescisão ou um acordo entre as partes.

Segundo a Sky Sports italiana, o total devido pelo Milan seria de € 11 milhões (€ 5,5 milhões líquidos para o treinador), mas Gattuso aceitou abrir mão deles em troca do pagamento imediato dos 24 meses dos membros da sua comissão técnica que também ficaram sem emprego. Total de € 5 milhões, de acordo com a emissora.

Ao mesmo tempo, o sacrifício de Gattuso garante o futuro próximo dos seus funcionários e faz o clube economizar uma boa grana, o que mostra muito bem quem ele é. A renúncia foi confirmada à La Repubblica. “Sim, porque minha história com o Milan nunca pode ser uma questão de dinheiro”, afirmou.

Gattuso assumiu o Milan das mãos de Montella, em novembro de 2017, repetindo uma receita batida e falha de apostar em antigos ídolos do clube com pouca experiência como treinador. Inzaghi e Seedorf foram moídos nessa máquina.

O seu antecessor havia deixado o Milan a 11 pontos do quarto lugar. O chinês Lin Yonghong, então dono do clube, havia contraído empréstimos para comprar a equipe e precisavam da vaga na Champions League para gerar receita. Gattuso começou com derrotas, mas emendou uma boa sequência de resultados que fez o clube sonhar com a classificação. Mas, no fim, ficou em sexto lugar, a oito pontos da rival Internazionale, quarta colocada.

Gattuso recebeu a confiança do fundo Elliot, que assumiu o Milan das mãos de Yonghong, após ele não conseguir pagar a dívida. E conduziu uma nova campanha cheia de altos e baixos, com sequências invictas intercalando-se com semanas em que foi difícil ganhar um jogo.

Entre o fim de dezembro e o começo de março, o Milan conseguiu sete vitórias em nove rodadas da Serie A, mas, a partir da derrota no clássico para a Internazionale, ganhou apenas um jogo em sete, e nem a sequência de quatro triunfos na reta final foi o bastante para assegurar vaga entre os quatro primeiros.

É verdade que foi por pouco – a Inter e a Atalanta ficaram um ponto à frente -, e que o Milan com Gattuso teve média de 1,81 pontos por partida, segundo o OptaPaolo, inferior apenas à de Juventus (2.44) e Napoli (2.13) no período, mas, coletivamente, era uma equipe que não funcionava bem e sofria constantemente para alcançar as vitórias, além de ter um time muito mais caro que o de Bérgamo.

A saída de Gattuso tem também a ver com a austeridade planejada para o mercado do Milan na próxima temporada. Precisando encontrar o equilíbrio financeiro até 2021, por exigência do Fair Play Financeiro, o planejamento para a próxima temporada envolve o recrutamento de jovens e de jogadores baratos.

Acreditando no anúncio de decisão consensual, corroborado pelas palavras de Gattuso, ele deve ter notado que, sem grandes reforços, seria muito difícil melhorar o quinto lugar na próxima Serie A. “Decidir deixar o banco do Milan não é fácil, mas foi uma decisão que tive que tomar. Não houve um momento preciso em que a amadureci: foi a soma desses dezoito meses como treinador de uma equipe que, para mim, nunca será como as outras. Meses que vivi com muita paixão, meses inesquecíveis. Foi uma escolha dolorosa, mas ponderada”, afirmou.

A diretoria, por sua vez, não deve ter feito muita questão de segurá-lo porque, se montará um time mais barato na próxima temporada, precisará de um profissional mais adequado a esse perfil, com mais experiência e um histórico de tirar leite de pedra, se quiser, enfim, retornar à Champions League.

O problema é que o Milan, de novo, precisa começar do zero. As decisões erradas na hora contratar um treinador significam que o último a ter um trabalho de médio prazo ainda foi Allegri, com quatro temporadas. Desde 2014, ninguém emplacou dois anos inteiros, e, assim, fica muito difícil chegar a algum lugar.