O Cruzeiro campeão brasileiro não soube jogar a Libertadores de 2014. A base era bastante parecida, mas a regularidade da Série A não se transformou no sangue dos olhos que a Raposa precisava no torneio continental. A queda para o San Lorenzo foi acontecendo, acontecendo, e acabou fatal nas incapacidades do time. O Cruzeiro bicampeão brasileiro tem tempo para aprender a jogar a Libertadores. Mas, antes, precisa descobrir como jogar. Ainda que o empate sem gols com o Huracán no Mineirão seja digno das vaias recebidas, há tempo para se recuperar no grupo. A questão maior é quando a equipe em reconstrução vai achar o seu futebol, bastante deficiente nesta terça.

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O empate na estreia, com o Universitario em Sucre, não foi o fim do mundo. Até porque o Cruzeiro demonstrou algumas virtudes, por mais que Fábio tenha sido essencial. Porém, a Raposa parece ter regredido uma rodada depois. A falta de eficiência nas conclusões se repetiu. Dos 20 chutes cruzeirenses, apenas quatro foram na direção da meta argentina. Resume bem uma equipe que abusou dos erros e do nervosismo, em uma partida que deveria estar em suas mãos.

Do ponto de vista do domínio de jogo, o Cruzeiro foi superior. Estrategicamente, contudo, não conseguiu superar o Huracán. O Globo atuou como um visitante modesto, franco-atirador no Mineirão: se fechou defensivamente e esperava a mínima brecha do time da casa atacar. Ao menos neste ponto, a Raposa não falhou. O problema é que eficiência passava muito longe do ataque celeste. Se ao longo dos últimos meses tornou-se cada vez menos frequente o jogo vertical da equipe, desta vez ele foi totalmente horizontal. Passes sem profundidade e cruzamentos a esmo, em vão. Foram 39 bolas levantadas na área, e apenas oito certas.

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Marquinhos e De Arrascaeta, que jogaram bem em Sucre, tiveram pouco espaço para arrancar em diagonal. Alisson deu um pouco mais de respiro aos mineiros no segundo tempo, mas nada que quebrasse a solidez do Huracán. Ou a falta de criatividade do Cruzeiro. Faltava centralizar um pouco mais as jogadas, melhorar a criação para o arremate. Mas, na falta de capricho da construção, o final também era mal feito.

A vitória do Cruzeiro até poderia ter acontecido, em algum lance fortuito. No primeiro tempo, Marquinhos teve um gol erroneamente anulado por impedimento, enquanto o goleiro Giordano realizou uma grande defesa – a única em 90 minutos, em um cruzamento que finalmente funcionou. Já na segunda etapa, em um raro lampejo dos últimos tempos, Damião pareceu incorporar Dirceu Lopes e deu um chute fenomenal de fora da área, barrado pela forquilha. E, no finalzinho, Judivan aproveitou a única brecha dada pelo Globo, mas chutou para fora, mesmo de cara para o gol. Nada suficiente para alterar o placar.

As vaias ao apito final são plenamente compreensível. O Cruzeiro até podia desperdiçar pontos neste início de Libertadores, mas não duas vezes. E muito menos jogando desta maneira dentro de casa. Assim como aconteceu na Libertadores passada, o time precisa aprender a lidar contra adversários que tratam um jogo normal como decisão, que se montam para roubar pontos. Mas também precisa colocar ordem dentro de sua própria casa.

O trabalho de Marcelo Oliveira é delicado. Depois de perder tantos destaques, o técnico precisa remontar o time com jogadores tecnicamente inferiores. Quem acha que futebol não é mágica precisa de paciência. Entretanto, os primeiros passos dados até o momento não são muito satisfatórios. O time limitado desta terça está muito distante da eficiência que a torcida se acostumou nos últimos Brasileirões. E é ela que a Raposa precisa recobrar nos próximos quatro jogos da fase de grupos, se não quiser viver um desgosto ainda maior na Libertadores.