Escolhida em dezembro de 2010 para sediar a Copa do Mundo que começa nesta quinta-feira, a Rússia enfim realiza o objetivo que almejou desde os tempos em que o país integrava a União Soviética. No início dos anos 80, a antiga nação esteve bem perto de conquistar o direito de sediar o Mundial de 1990, aproveitando a estrutura dos torneios de futebol de seleções que havia organizado na época. Mas a honraria acabou ficando com a Itália, numa escolha feita pelo Comitê Executivo da Fifa em meio a um complicado contexto político e esportivo internacional.

O caminho até a escolha do país-sede

A mobilização para o lançamento das candidaturas à sede da Copa de 1990 começou por volta de 1982. Alguns projetos, no entanto, morreram no nascedouro: Áustria e Hungria, sonhando com uma realização conjunta, desistiram ao considerarem tal ideia inviável. Já a Iugoslávia deixou a disputa temendo os altos custos da empreitada. França e Alemanha Ocidental, por sua vez, saíram da briga por considerarem a Itália favorita. Além dos italianos, outros três países – União Soviética, Inglaterra e Grécia – seguiram na briga e receberam o caderno de encargos da Fifa.

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Mas antes havia uma outra decisão bem mais urgente a ser tomada: escolher uma nova sede para a Copa de 1986, já que a Colômbia, país escolhido quase uma década antes, decidiu abrir mão de organizar a competição oficialmente no início de novembro de 1982, alegando problemas econômicos (que certamente se agravariam, já que agora o torneio era disputado por 24 seleções). Em maio do ano seguinte, ficou decidido que o México – pais-sede em 1970 – tornaria a receber o Mundial, suplantando as candidaturas de Canadá e Estados Unidos.

Em 1º de novembro de 1983, a Fifa confirmou as quatro candidaturas à Copa de 1990 e anunciou que a decisão final – antes prevista para dezembro – seria adiada em alguns meses, já que os documentos enviados pelos quatro postulantes ainda seriam analisados por seu Comitê, ficando ainda por serem feitas as inspeções em cada país. No meio do caminho, no entanto, a disputa se afunilou com a desistência dos ingleses.

Segundo um comunicado da Fifa, aquela candidatura “oferecia excelentes possibilidades”, mas os próprios ingleses deixaram claro que ela só seria mantida caso nenhum outro país europeu preenchesse os requisitos da entidade. Ao mesmo tempo, a Grécia – cuja seleção até então nunca havia participado de uma fase final de Copa do Mundo – era praticamente descartada, já que não conseguiria cumprir a maioria das exigências, especialmente a da quantidade de estádios aptos a receberem os jogos.

Sobraram então a Itália (que sediara a segunda edição da Copa do Mundo, num longínquo 1934) e a União Soviética, duas nações com milhões de fanáticos pelo futebol, vários estádios de boa capacidade e uma considerável tradição no jogo. E ambos com histórico recente na organização de outros torneios de futebol, colocando em prática sua infraestrutura: em 1980, enquanto os italianos receberam pela segunda vez a Eurocopa, os soviéticos realizaram os Jogos Olímpicos em Moscou, incluindo um torneio de futebol que se espalhou por outras cidades.

A primeira experiência: Os Jogos Olímpicos de Moscou

Foi, no entanto, uma edição dos Jogos marcada pela interferência política, com o boicote liderado pelos Estados Unidos em resposta à invasão soviética ao Afeganistão, ocorrida no fim de dezembro de 1979. Dessa forma, o torneio de futebol viu nada menos que sete de seus 16 participantes desistirem da disputa. Porém, ao contrário do que havia acontecido em Montreal, quatro anos antes, quando a retirada dos países africanos em um protesto contra a Nova Zelândia deixou a competição com 13 times, desta vez todos os que se retiraram foram substituídos, ainda que, em alguns casos, por equipes de nível inferior.

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De todo modo, a manutenção do número pré-determinado de participantes evitou alterações na tabela. Como costuma acontecer nos torneios olímpicos de futebol, os locais de competição de 1980 não se restringiram à cidade-sede: foram utilizados cinco estádios em quatro cidades – Moscou, Kiev, Leningrado (atual São Petersburgo) e Minsk – para a disputa das 32 partidas.

Dois deles ficavam na capital: o Estádio Central Lenin (atual Luzhniki) recebeu os dois primeiros jogos da seleção soviética no Grupo A, bem como uma das semifinais e a decisão do ouro. Já o estádio do Dinamo foi utilizado em sete partidas: a última da equipe da casa na primeira fase, três jogos no Grupo B, uma quarta de final, a outra semifinal e a disputa do bronze.

O estádio Kirov, em Leningrado, foi a sub-sede do Grupo A e a principal do B, recebendo ainda uma das quartas de final. Já as chaves C e D – e as partidas de seus respectivos vencedores nas quartas – foram divididas entre o Estádio da República (atual Olimpiyskiy), de Kiev, e o estádio do Dinamo Minsk. Todos eles com capacidade oficial acima de 50 mil espectadores. Ao fim do torneio, todas as sedes foram elogiadas pela Fifa em seu relatório técnico.

Uma seleção com muitas casas

A seleção soviética principal, por sua vez, embora tivesse Moscou como palco mais frequente, não se furtava de mandar seus jogos em outras praças. Nas Eliminatórias para a Copa de 1982, havia recebido seus dois principais adversários (Tchecoslováquia e País de Gales) em Tbilisi, no estádio do Dinamo, não incluído no programa olímpico provavelmente pela distância dos demais. O mesmo campo também recebera jogos das fases de classificação para a Copa de 1978 e a Eurocopa de 1980, mais amistosos contra Suécia e Alemanha Ocidental.

Além da capital da república socialista soviética da Geórgia, Kiev e Yerevan também haviam sediado jogos de Eliminatórias anteriores. A cidade ucraniana, inclusive, recebera todos os quatro jogos da campanha da seleção naquela etapa da Eurocopa de 1976. Por fim, nos dez anos que antecederam a escolha por parte do comitê da Fifa, o time nacional já vinha se apresentando em amistosos até mesmo em cidades como Odessa, Volgogrado e Simferopol.

Os outros torneios em solo soviético

Depois do torneio olímpico, a União Soviética também teria no horizonte outros dois campeonatos de seleções para organizar. Um deles, o Europeu Sub-18, começaria em 25 de maio de 1984, seis dias após a votação final na Fifa, e reuniria 16 seleções jogando em quatro cidades: Moscou (agora utilizando não só o Estádio Central Lenin e o do Dinamo, como também os do Torpedo e do Lokomotiv), Kiev, Leningrado e Minsk.  A final foi disputada em 3 de junho.

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Aquele campeonato também servia de classificatório para o Mundial Sub-20, que também seria realizado na União Soviética no ano seguinte, entre agosto e setembro. Este torneio, que reunia 16 seleções, foi o que contou com o maior número de cidades-sede: oito. Curiosamente, Kiev não foi uma delas, enquanto duas bem menos expressivas dentro do futebol soviético – Sumqayit, no Azerbaijão, e Hoktemberyan (atual Armavir), na Armênia – figuraram, ainda que com os menores estádios e recebendo apenas uma partida.

Nas demais sedes, além das já frequentes Moscou, Leningrado e Minsk, notava-se a forte presença das repúblicas do Cáucaso: Yerevan era a sede do Grupo A com cinco partidas no estádio Hrazdan, que comportava 70 mil pessoas (a outra foi no acanhado Yubileynyi, em Hoktemberyan, para 10 mil torcedores). Tbilisi era sede do Grupo B com dois estádios: o Lenin Dinamo (atual Boris Paichadze), para 74 mil espectadores, e o Lokomotivi, para 36 mil.

O que de certa forma era novidade era a presença de Baku, no Azerbaijão, como sede de cinco jogos no Grupo D, disputados no estádio Vladimir Lenin (atual Tofiq Bahramov). Sumqayit, com seu pequeno estádio Mehdi Huseyzade, para pouco mais de 15 mil pessoas, era a subsede. O Grupo C, por sua vez, era jogado em Minsk, com o já conhecido estádio Dinamo (que comportava 40 mil torcedores) como principal e o pequeno Traktor, para 17 mil, como subsede.

Moscou e Leningrado só tomaram parte na reta final naquele torneio de 1985: o Central Lenin recebeu uma das semifinais, a decisão do terceiro lugar e a final (na qual o Brasil derrotou a Espanha por 1 a 0 na prorrogação e conquistou seu segundo título na competição), enquanto o Kirov sediou a outra semifinal (na qual os brasileiros derrotaram a Nigéria).

A interferência do contexto político

Politicamente, a União Soviética viveu uma primeira metade de década de 1980 bastante turbulenta, não apenas pela retomada da corrida armamentista em meio ao recrudescimento da Guerra Fria, mas também pelas seguidas trocas na chefia de Governo por falecimentos. O primeiro foi Leonid Brezhnev, no cargo havia 18 anos e símbolo de uma era, morto de infarto em outubro de 1982, aos 75 anos. Seu sucessor, Yuri Andropov, ficaria apenas 15 meses, morrendo em fevereiro de 1984, aos 69 anos, com quadro de problemas renais, hipertensão e diabetes.

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Menos tempo ainda (quase 13 meses) ficaria o governante seguinte, Konstantin Chernenko, entre fevereiro de 1984 e seu falecimento por problemas pulmonares, aos 73 anos, em março de 1985. Embora seu mandato tenha sido um tanto efêmero, Chernenko teria tempo de tomar uma decisão que marcaria o esporte do país: em retaliação ao boicote norte-americano de 1980, os soviéticos anunciaram, no dia 8 de maio de 1984, que, juntamente com seu bloco de aliados, não participariam da edição daquele ano dos Jogos Olímpicos, realizada em Los Angeles.

Então a apenas 11 dias da decisão sobre a sede da Copa de 1990, o boicote teve no mínimo um péssimo timing. O anúncio da candidatura vencedora aconteceria em 19 de maio em Zurique, durante um evento que celebrava os 80 anos de fundação da Fifa, que compreendeu ainda um congresso executivo da entidade internacional, uma partida entre astros veteranos e um amistoso entre Itália e Alemanha Ocidental valendo um troféu comemorativo.

A vitória da candidatura da Itália, anunciada pelo Comitê Executivo, veio por meio de votação secreta e não teve seu resultado numérico divulgado. Mas gerou comentários sobre o quanto o boicote havia pesado na decisão. Porém, Vyacheslav Koloskov, o líder da representação soviética e integrante do Comitê, afirmou publicamente ter ouvido de João Havelange, então presidente da Fifa (e que, em janeiro, havia visitado e aprovado os estádios de Minsk, Leningrado e Kiev), não haver qualquer relação entre os dois casos. Por outro lado, antes disso, no dia seguinte ao anúncio do boicote, o secretário-geral da entidade, Joseph Blatter, havia comentado que, diante daquela situação, as possibilidades da URSS “diminuíram significativamente”.

Ainda que ninguém afirmasse claramente, era nítido o temor da Fifa que um boicote nos moldes dos ocorridos nos Jogos Olímpicos viesse a acontecer também na Copa do Mundo, em especial uma disputada em solo soviético. A ideia de que a entidade não queria que crises políticas entre os dois blocos antagônicos interferissem no futebol pode ser lida de modo subliminar em uma outra declaração de Blatter na mesma ocasião, admitindo a possibilidade de a modalidade ser riscada do programa olímpico para os próximos Jogos, devido ao desagrado da federação internacional com os problemas ocorridos nas últimas edições.

Não seria necessário. A chegada de Mikhail Gorbachev ao poder na União Soviética em março de 1985, acompanhada por um discurso de abertura econômica e desburocratização do regime, serviu para acalmar as tensões internacionais. Os Jogos de Seul, em 1988, colocaram novamente frente a frente as grandes potências olímpicas de ambos os blocos – e, curiosamente, os soviéticos levaram a medalha de ouro (sua segunda, com a de 1956) no torneio de futebol.

A rigor, o único fato que poderia ter prejudicado uma Copa soviética naquela segunda metade da década de 1980 seria o acidente ocorrido na usina nuclear de Chernobyl, em abril de 1986, numa região relativamente próxima de Kiev. Mesmo com a economia no país estagnada, havia a estrutura deixada pelos outros torneios recentemente organizados, além da perspectiva das divisas as quais o país receberia com o turismo e outras atividades relacionadas ao Mundial.

Os novos ares da chamada “perestroika” (ou “reestruturação”) viabilizaram até mesmo a saída de jogadores soviéticos para clubes do lado ocidental da Cortina de Ferro, no fim da década. Logo após a Eurocopa de 1988, na qual a seleção foi vice-campeã, o goleiro Rinat Dasaev seguiu para o Sevilla, os zagueiros Sergei Baltacha e Vagiz Khidiyatulin foram contratados por Ipswich e Toulouse, respectivamente, e o meia-atacante Aleksandr Zavarov se tornou um dos estrangeiros da Juventus (recebendo, na temporada seguinte, a companhia do meia Sergei Aleinikov).

Copa de 90: A que foi e a que poderia ter sido

Falar sobre como teria sido uma Copa do Mundo na União Soviética em 1990, mesmo do ponto de vista de organização, é um exercício de especulação. Os registros do planejamento soviético, se ainda existem, estão confinados nos arquivos da Fifa, da federação russa (herdeira futebolística da URSS) ou da imprensa do antigo país. Mas, entrando no terreno das hipóteses, não é absurdo supor que algumas cidades e estádios teriam provavelmente recebido jogos do Mundial.

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O Estádio Central Lenin provavelmente teria sido sede de um grupo – talvez o da própria URSS – e também da final, com pelo menos mais um palco da capital (talvez o do Dinamo) servindo de subsede. Leningrado (com o Kirov), Kiev (com o Estádio da República), Minsk (com o Dinamo) e Tbilisi (com o Lenin Dinamo e talvez até também com o Lokomotivi) também deveriam receber os principais jogos de alguma das chaves. Yerevan, com o Hrazdan, também quase certamente seria incluída, com Baku podendo surpreender.

Algumas outras cidades são boas apostas, mesmo que apenas como subsedes. Uma delas é Simferopol, na região da Crimeia, que vinha ganhando destaque ao receber partidas da seleção pelas Eliminatórias à Eurocopa de 1988 e à própria Copa do Mundo de 1990 no estádio Lokomotiv, para mais de 30 mil espectadores. A ucraniana Odessa, com o antigo Estádio Central (também chamado de Estádio da Companhia Naval do Mar Negro), era outra opção, assim como a russa Volgogrado e seu Estádio Central.

Sem falar em algumas que nunca receberam jogos da seleção principal ou nem mesmo foram incluídas em outros torneios, mas tinham estádios com boa capacidade e alguma estrutura para servirem de subsede. Era o caso das também ucranianas Lvov (com o Druzhba), Kharkov (com o Metalist) e Donetsk (com o Lokomotiv, atual Olimpiyskiy), além da russa Rostov-on-Don, com o estádio do SKA Rostov, aprovado pela Fifa como campo de treinos durante a Copa de 2018.

A Copa de 1990 que aconteceu de fato, a da Itália, seria a última da seleção da União Soviética (vestindo uma camisa que sequer ostentava a tradicional sigla CCCP no peito) e também a única em que seria eliminada ainda na primeira fase. Mas não sem polêmica: na estreia, contra a Romênia, a derrota por 2 a 0 foi selada com um pênalti inexistente, marcado após toque de mão de Khidiyatulin quase um metro para a fora de área.

No jogo seguinte – outra derrota por 2 a 0, agora para a Argentina – seria a vez de Maradona usar o braço, dentro da área, para cortar um ataque soviético, em penalidade ignorada pela arbitragem com o placar ainda em branco. Houve também uma jogada confusa que resultou no segundo gol argentino, já no fim da partida: Caniggia caiu pedindo falta e segurou a bola com as mãos antes de ela escapulir para Kuznetsov, que, com um recuo errado, acabou servindo Burruchaga, que concluiu mandando para as redes.

Com as duas derrotas, a goleada de 4 a 0 sobre a já classificada seleção de Camarões – que era treinada por um soviético, Valery Nepomnyashchiy, o que motivou acusações de que os africanos teriam “facilitado” a tentativa de classificação dos europeus – não evitou a eliminação soviética. Naquela altura, aliás, a União Soviética já era um país prestes a rachar. Em março de 1990, três meses antes do Mundial, a Lituânia declarou unilateralmente sua independência (apesar de só reconhecida em caráter internacional no início do ano seguinte).

Os movimentos independentistas, que já vinham se fortalecendo desde o fim dos anos 1980, começaram a obter vitórias significativas no segundo semestre de 1991, quando Estônia, Letônia e Ucrânia também anunciam seu desmembramento da união, após plebiscitos. E em 24 de dezembro de 1991, era anunciado oficialmente o fim da União Soviética, ainda que o bloco se mantivesse agrupado (exceto pelas três repúblicas bálticas e pela Geórgia) sob o nome de Comunidade dos Estados Independentes, ponteado pela Rússia.

A escolha dos italianos pelo Comitê Executivo da Fifa para a sede da Copa do Mundo de 1990 acabou evitando a ironia simbólica de os soviéticos enfim conseguirem sediar um Mundial justamente na última edição antes da dissolução do país – mais ainda pelo fato de o torneio seguinte, o primeiro já em um cenário internacional sem nenhum resquício da Guerra Fria, ter sido outorgado aos Estados Unidos.


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