Num intervalo de cinco anos, Atlético Paranaense e Internacional experimentaram as maiores glórias de sua história. Se o Mundial possui um sabor insuperável aos colorados, os rubro-negros sentem um carinho igualmente especial por seu Campeonato Brasileiro. E os dirigentes de ambos os clubes certamente não imaginavam que, com uma transferência naquele início de 2006, criariam um ponto de intersecção entre os ápices de ambas as agremiações. Enquanto paranaenses e gaúchos voltam a se encontrar na decisão da Copa do Brasil, a lembrança inescapável é a de Adriano Gabiru, o herói em comum (e incomum) que brinda o passado.

O alagoano possui percepções diferentes na Baixada e no Beira-Rio. Gabiru até ganhou o seu apelido nos tempos de Atlético, mas a imagem que ficou aos rubro-negros é de Adriano, uma talentosa revelação que ajudou o Furacão a expandir suas fronteiras na virada do século. O meia chegou do CSA em 1997 e não demorou a engrenar com o clube. Além de quatro títulos no Campeonato Paranaense, seria fundamental nas grandes campanhas nacionais dos atleticanos. Primeiro, na efêmera Seletiva da Libertadores de 1999, competição que colocou os paranaenses na competição continental. Nada que se compare às emoções vividas em 2001.

Adriano era titular no fortíssimo Atlético Paranaense que conquistou o Brasileirão. Compunha a meia-cancha ao lado de Kléberson, municiando o imponente ataque que tinha Kléber Pereira e Alex Mineiro, além de Ilan. Dava muita energia na faixa central, com suas doses de intensidade e habilidade. Aparecia na área para concluir e se valia da boa finalização. Não à toa, terminou entre os protagonistas daquela final contra o São Caetano, ainda que sem o brilho de Alex Mineiro. Durante a vitória por 4 a 2 na Arena da Baixada, Gabiru deu a assistência para o primeiro gol e ainda sofreu o pênalti que resultou no quarto, sacramentando a vitória. Ali, a gratidão pelo que construiu em Curitiba prevalecia.

Graças ao Atlético, Adriano chegou à seleção olímpica em 1999, apesar de não ser chamado por Vanderlei Luxemburgo aos Jogos de Sydney. E a boa fase no clube também descolou um contrato para defender o Olympique de Marseille, levado por um tal de Abel Braga, que o comandara em seus primórdios na Baixada. O meia chegou ao Vélodrome em 2001 e teve uma curta passagem, em time que também contava com George Weah e Marcelinho Paraíba. Até marcou seus gols, mas não se adaptou ao clima e preferiu rescindir seu contrato.

De volta ao Furacão, Adriano chegou a se tornar o atleta que mais defendeu o clube na história do Campeonato Brasileiro, com 120 partidas pela competição. Recuperou a boa fase e, em 2003, ganhou algumas oportunidades com Carlos Alberto Parreira na seleção principal – sim, a foto acima não é montagem. O meia vestiu a camisa 19 na Copa das Confederações daquele ano, em elenco que também contava com Ronaldinho, Alex e Adriano Imperador. Seu caminho até Porto Alegre, entretanto, ainda contou com um empréstimo ao Cruzeiro, onde teve boas atuações principalmente durante o Brasileirão de 2005.

O preço da felicidade do Internacional custou US$1 milhão. O Atlético Paranaense não queria vender Adriano, apenas emprestar, mas aceitou um acerto por 50% dos direitos do meio-campista no início de 2006. E a verdade é que, até chegar ao Mundial, Gabiru parecia um negócio frustrado dos colorados. Levado para reforçar o time rumo à Libertadores, o alagoano teve problemas em sua aclimatação ao Beira-Rio. Protagonizou episódios de indisciplina e demorou a render em campo. Não à toa, perdeu a posição no time titular depois das oitavas de final da competição continental e passou a conviver com a insatisfação da torcida. Em outubro, depois de uma partida contra o São Caetano, terminou vaiado.

Abel Braga poupou Gabiru das críticas. Deixou-o de fora da equipe por algumas rodadas e passou a utilizá-lo com um pouco mais de frequência nas partidas fora de casa, para recuperar a sua confiança. “No momento, tenho que dar uma força para o homem. Ele é jogador de futebol, mas, como qualquer outra pessoa, sente quando é vaiado. Fazendo isso, também preservo os companheiros, que gostam muito do Adriano e também se sentem atingidos pelas manifestações da torcida”, declarou o treinador, na época. “Ele está psicologicamente atingido. E no futebol, o mental é muito importante”.

Recobrando o moral pouco a pouco, Adriano terminou elencado ao Mundial de Clubes. E até cogitou-se seu retorno ao time titular, mas a ascensão de Luiz Adriano e Alexandre Pato não permitiu. Melhor assim ao Internacional. Abelão ainda demonstrava acreditar no meia de 28 anos. Dizia que era um “jogador extraordinário”. E, mesmo sem ser utilizado contra o Al Ahly, Gabiru correspondeu às palavras nos 15 minutos em que esteve em campo contra o Barcelona. O extraordinário, no fim das contas, foi o que realizou com o gol que determinou a maior alegria da história dos colorados.

Pela importância daquele gol, Gabiru poderia ter recebido um contrato vitalício do Internacional. Não foi o que aconteceu – muito pelo contrário. A relação com a diretoria se quebrou pouco depois e, ainda em 2007, o meia passaria por dois empréstimos, a Figueirense e Sport. Não demoraria para iniciar uma carreira andarilha ao redor do país, que começou no Guarani, mas incluiu clubes de quase todas as regiões e até mesmo equipes amadoras. O veterano chegou a manifestar seu desejo de encerrar a carreira no Beira-Rio, mas, no fim das contas, os colorados só voltaram à sua vida em cobrança de uma dívida trabalhista.

Se durante os primeiros meses no Beira-Rio eram os torcedores que não compreendiam a serventia que Gabiru poderia ter, hoje são eles que não se esquecem da conclusão na saída de Victor Valdés após o passe de Iarley. Gabiru se tornou eterno naquele gol em Yokohama. Embora sua vida não tenha exatamente melhorado depois do tento decisivo, a dos colorados certamente se transformou para melhor. É por isso que, acima do folclore, há um tanto bom de reconhecimento pela estrela do substituto naquele momento tão decisivo.

Adriano Gabiru é um jogador como tantos outros. Teve um talento razoável, que o permitiu atuar em grandes clubes do país, vestir a camisa da seleção e se aventurar no exterior. Mas foi também o homem certo no lugar certo. Atlético Paranaense e Internacional reconhecem isso. Esperam que alguém com a iluminação de Gabiru comece a despontar na Baixada ou no Beira-Rio a partir desta quarta-feira, com o início das finais da Copa do Brasil.