A Argélia viveu o seu ano mais importante no futebol em 2014. A campanha da seleção na Copa do Mundo se tornou enorme motivo de orgulho. Não bastasse a classificação para os mata-matas, as Raposas estiveram próximas da vingança planejada contra a Alemanha desde 1982, no maior sufoco sofrido pelos futuros campeões durante a campanha do tetra. Não à toa, mesmo a derrota desencadeou a comemoração nas ruas de Argel, Oran, Constantine, Sétif e também nas principais cidades da França. Assim como o resto do país, a seleção tem a marca das relações ainda profundas com a antiga metrópole. Dos 23 do elenco, 16 nasceram na França. A maioria com passagem pelas seleções de base dos Bleus e sem sequer ter atuado por clubes argelinos.

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Não é de hoje que a elite do futebol da Argélia sai da França. A relação vem desde a montagem do time da Frente de Libertação Nacional, braço esportivo do exército de independência e embrião da seleção nacional, formado pelos craques da Ligue 1. Uma relação histórica que, no entanto, não significa que o futebol praticado no país sempre esteve fadado ao fracasso. E a resposta veio também em 2014, meses depois da passagem das Raposas pelo Brasil. Após uma espera de 24 anos, os argelinos reconquistaram a Liga dos Campeões da África. O Sétif buscou o seu segundo título continental e o quinto do país ao desbancar clubes bem mais tarimbados. Reforçou que o fortalecimento da seleção e dos clubes não precisa acontecer em paralelo.

Afinal, um dos protagonistas da Argélia na Copa foi formado pelo Sétif. Nascido na cidade, a quarta mais populosa do país com 300 mil habitantes, o meia Djabou anotou o gol contra a Alemanha na prorrogação. Não permaneceu no clube a ponto de viver a glória africana neste ano, mas reforça a capacidade dos alvinegros na formação de talentos. Um clube que valoriza em sua própria história a cultura argelina e, sobretudo, a oposição aos franceses às vésperas da independência do país.

Símbolo do massacre que ajudou a libertar a Argélia

setif

O Sétif nasceu em uma cidade milenar, que chegou a ser tomada até mesmo pelo Império Romano. Também marcada por um dos maiores massacres da história da Argélia. Em 8 de maio de 1945, a população local saiu às ruas para comemorar a rendição dos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Uma festa que se transformou também em manifestação contra o domínio francês no país, com cartazes anticolônia erguidos pelos cinco mil árabes que foram às ruas. A manifestação resultou em confrontos com a polícia local e, depois, em ataques aos franceses que viviam no norte da França, deixando 103 “pieds-noirs” mortos.

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A resposta da metrópole, então, se deu em um genocídio que deixou milhares de argelinos mortos – os números oficiais franceses e as notícias árabes da época variam entre mil e 45 mil assassinados, enquanto as estimativas atuais da historiografia calculam seis mil vítimas das legiões francesas. Aquele episódio acabou sendo considerado um ponto de virada nas relações entre franceses e argelinos, especialmente sobre os muçulmanos que haviam defendido a metrópole durante a Segunda Guerra. Desdobrou-se no sentimento das lutas pela independência na década seguinte, libertando o país do domínio francês em 1962.

Criado em 1958, exatamente durante o período das batalhas da FLN, o Sétif se tornou o principal representante do orgulho da cidade. E não poderia estar desvinculado do triste passado local. As primeiras cores do clube eram o verde e branco, mas, logo após a fundação, a ação repressiva dos militares franceses durante uma partida provocou os dirigentes a adotar o preto e o branco, em sinal de luto pelas vítimas do massacre. Já o próprio das Águias Negras, inaugurado em 1972, se chama “8 de maio de 1945”.

As glórias de um gigante

Membro da elite do futebol argelino a partir da independência, o Sétif se sagrou o primeiro campeão da Copa da Argélia, atravessando um período glorioso durante os anos 1960. Porém, apenas na década de 1980 que o clube ligado à indústria petrolífera chegou ao topo do continente, faturando sua primeira Copa dos Campeões da África. Já a partir de 2007 os alvinegros se estabeleceram como principal potência do país. Em uma liga com razoável alternância no topo, o Sétif conquistou quatro dos últimos oito títulos nacionais. E, depois de um vice-campeonato na Copa das Confederações Africanas, a equipe recuperou a glória máxima com o bicampeonato da Champions Africana.

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O Mundial de Clubes é a grande oportunidade para o Sétif. O clube tem a chance de ser reconhecido no resto do planeta e a proximidade do Marrocos deve levar milhares de torcedores ao estádio. Para bradar a história dos alvinegros e as suas origens, para encher de orgulho os argelinos. Se a classificação às semifinais vier, o que é bem possível diante do Auckland City, a honra ao futebol verdadeiramente nacional estará completa.