Alvo de críticas desde o momento da escolha do país como sede para a Copa do Mundo de 2022, o Catar esteve sob o olhar apurado de grupos ativistas e organizações independentes de mídia nos últimos anos, com diversas denúncias de condições precárias de trabalho, mas sempre se defendeu dizendo que as obras envolvidas não eram relacionadas ao Mundial. Desta vez, a Anistia Internacional divulgou um amplo relatório que comprova as irregularidades em um dos estádios para o torneio, colocando o governo do país contra a parede.

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Baseada em entrevistas conduzidas com mais de 132 operários das obras de reforma do Khalifa International Stadium, entre fevereiro e maio do ano passado, e em conversas com 99 trabalhadores que cuidam das obras de paisagismo nas redondezas de um complexo esportivo próximo ao estádio, a Anistia Internacional chegou a um relatório de 52 páginas, que traz à luz uma série de abusos sofridos pelos operários migrantes, em alguns casos chegando a trabalho forçado.

Segundo os relatos dos trabalhadores, os excessos praticados nas obras do estádio iam desde condições precárias de alojamento, passando por salários atrasados, confisco de passaportes para dificultar a saída dos trabalhadores do país, chegando até a ameaças de retaliação, como a proibição de deixar o Catar, caso alguns deles continuassem a se negar a trabalhar.

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O relatório traz comentários de pelo menos cinco operários que se encaixam neste último cenário. Seja pelo salário prometido e não cumprido, pelos atrasos no pagamento ou pelas condições a que estão sujeitos, esses trabalhadores tentaram deixar as obras e foram impedidos com intimidações de seus empregadores.

Segundo a Anistia Internacional, há ainda um número de trabalhadores sob risco de multas e até mesmo detenção porque seus empregadores não conseguiram renovar ou regularizar seus vistos de trabalho. Todos os problemas acima já haviam sido relatados em diferentes momentos, em matérias e relatórios de diversos grupos, mas a comprovação da Anistia de que essas irregularidades aconteceram em um dos estádios da Copa coloca ainda mais pressão sobre o Catar.

Em outubro do ano passado, o país já havia assinado uma série de mudanças na “kafala”, legislação trabalhista de alguns países árabes que coloca trabalhadores migrantes em condições precárias, dando poder em excesso aos empregadores. Apesar do compromisso do Catar com mudanças neste sentido, as alterações começam a valer apenas no fim deste ano, e foi justamente com a alegação de status de “trabalho em progresso” que o país se defendeu das acusações do relatório.

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“Apesar de muitos dos pontos levantados pela Anistia já terem sido resolvidos através das recentes mudanças legislativas, estamos preocupados com um certo número de alegações dentro do relatório. (..) O tom das últimas afirmações da Anistia Internacional pintam uma imagem enganosa e não contribuem em nada com nossos esforços. Sempre mantivemos que esta Copa do Mundo agiria como uma catalisadora para mudança – ela não será construída nas costas de operários explorados. Rejeitamos completamente qualquer noção de que o Catar não seja apropriado para sediar uma Copa do Mundo”, dizia trecho do comunicado divulgado pelo governo.

As informações divulgadas pela Anistia nesta quarta-feira são apenas o mais novo baque em cima de uma conturbada decisão de sede para uma competição da estatura da Copa do Mundo. Este, entretanto, pode ser mais forte do que os anteriores, pelas provas que apresenta. Diante da corrente investigação da Justiça americana em cima de esquemas de corrupção na Fifa, é possível que o país que, por enquanto, ainda sediará o torneio em 2022 tenha muito mais turbulência nos anos que restam até o pontapé inicial.