A Anistia Internacional aumentou a pressão sobre a Uefa ao dizer que Azerbaijão não pode “cobrir com esporte seu terrível desrespeito aos direitos humanos” ao receber grandes jogos de futebol. O estádio Olímpico de Baku será a sede da final da Liga Europa, na próxima quarta, dia 29, entre Arsenal e Chelsea. A cidade também receberá jogos da Eurocopa 2020, que terá 13 cidades-sede espalhadas pela Europa.

A escolha de Baku já foi alvo de contestação por causa da distribuição dos ingressos. Aliás, a própria Uefa respondeu as críticas do Arsenal sobre essa questão em uma carta aberta que explica os principais problemas de ter uma final com sede única pré-definida (embora essa não fosse a intenção da Uefa, imaginamos). Além disso, a questão de Henry Mkhitaryan, armeno, em um país que é acusado de matar entre 20 e 30 mil armenos em conflitos. O jogador do Arsenal se recusou a viajar para a capital do Azerbaijão por questão de segurança e explicamos exatamente o conflito aqui.

“Temos de garantir que o Azerbaijão não seja autorizado a esconder com esporte o seu péssimo registo de direitos humanos como resultado da fanfarra de futebol”, afirmou a diretora da Anistia Internacional no Reino Unido, Kate Allen. “O Azerbaijão está no caminho de uma repressão aos direitos humanos, com jornalistas, blogueiros e defensores dos direitos humanos sendo impiedosamente atacados. Julgamentos injustos e campanhas de difamação continuam sendo comuns”, diz ainda a representante da AI.

“As pessoas LGBTI foram presas e até mesmo pessoas que fugiram do país foram perseguidas e pressionadas a voltar. Torcedores, jogadores e bastidores podem ajudar a evitar a provável tentativa do Azerbaijão de limpar sua imagem, informando-se sobre a situação dos direitos humanos por trás da fachada chamativa do jogo de quarta-feira”, continua Allen.

“Com muita frequência, os governos estão usando competições esportivas de alto nível para desviar a atenção de políticas repressivas e violações de direitos humanos, para projetar uma imagem de abertura. Isso não poderia estar mais longe da verdade com a atual administração, e o confronto Arsenal x Chelsea é apenas o último lembrete disso”, diz ainda a diretora da Anistia Internacional.

Segundo defensores de direitos humanos do Azerbaijão, mais de 150 pessoas estão presas no país por acusações políticas. Mais do que isso, prisões em massa são usadas para silenciar a imprensa e reprimir organizações não governamentais. O país é governado pelo presidente Ilham Aliyev desde 2003 e está entre os piores países no ranking de liberdade de imprensa da organização Repórteres sem Fronteiras – é apenas o 166º do mundo, o pior de toda a Europa.

As principais críticas sobre a escolha de Baku até aqui foram mais pela questão dos ingressos, com apenas seis mil distribuídos a cada um dos finalistas, Arsenal e Chelsea, além da enorme distância para chegar ao país, que fica na Europa Oriental, literalmente para lá de Bagdá – sim, seria mais perto ir para a capital iraquiana do que para a capital do Azerbaijão, que inclusive faz divisa com o Irã.

A justificativa da Uefa para a escolha de Baku é muito similar ao que vemos a Fifa usar quando escolhe países como o Catar para sediar a Copa, ou outros tão questionáveis quanto para todo tipo de evento: a obrigação da entidade de crescer o esporte em todo continente. A Federação de Futebol do Azerbaijão, cinicamente, publicou uma nota dizendo que lamenta a decisão “injustificável” de Mkhitaryan de não viajar até Baku para jogar a final.

Bom, há mais motivos do que aqueles que foram apontados até aqui. O Azerbaijão vive um governo autoritário, que viola direitos humanos e, portanto, não deveria ser presenteado com eventos como esses. Mais do que os problemas de ingressos ou distância, esse é um motivo dos mais importantes na hora da escolha da sede. Algo que, claro, Fifa e Uefa costumam dar de ombros.