Anfield, enfim, despertou: suas famosas noites europeias retornaram para empurrar o Liverpool


	Champions League

A primeira noite de futebol europeu em Anfield foi estranha. Aconteceu em 14 de setembro de 1964. A imprensa inglesa, sem experiência para lidar com o assunto, deu muito destaque para as esposas dos jogadores do KR Reykjavik, que viajaram junto com a delegação islandesa para conhecer a Inglaterra. A torcida do Liverpool adotou uma postura singular. Ciente que o adversário apresentaria poucas dificuldades, já que o jogo de ida, fora de casa, havia sido 5 a 0, a Kop, na prática, torceu pelos adversários. Segundo um relato do Daily Mirror, vaiou Willie Stevenson, pediu a expulsão de Ron Yeats, xingou o bandeirinha por marcar um impedimento claro dos visitantes e gritou “Reykjavik” ao apito final. Apesar de os Reds terem vencido por 6 a 1, o gol mais comemorado foi o de Felixson, aos 35 minutos do primeiro tempo, a favor do KR. 

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Era apenas o início de uma rica história. Anfield tornou-se um dos maiores palcos de futebol europeu do continente. Uma mistura da tradição que o Liverpool construiu nesses torneios, garantindo um calendário constante de grandes duelos no estádio, com uma atmosfera única produzida por uma das torcidas mais apaixonadas da Inglaterra. As noites europeias em Anfield tornaram-se míticas. Viraram uma entidade própria. 

Aquela mesma campanha abrigou o grande duelo contra a Internazionale de Helenio Herrera nas semifinais. Nos anos setenta, o torcedor se lembra com carinho da virada contra o Club Brugge na decisão da Copa da Uefa, com três gols no segundo tempo após estar perdendo por 2 a 0, e da vitória contra o Saint-Étienne, nas quartas da Copa dos Campeões de 1976/77, com um gol decisivo de David Fairclough aos 39 minutos do segundo tempo. Este era indubitavelmente o maior exemplo dessa história até a equipe de Rafa Benítez operar alguns milagres.

A trajetória do título improvável de 2004/05 teve pelo menos três noites especiais em Anfield. A primeira foi na última rodada da fase de grupos. Quando Rivaldo abriu o placar para o Olympiakos, o Liverpool precisava de três gols para passar às oitavas de final. Conseguiu apenas aos 41 minutos do segundo tempo, com uma paulada de Gerrard. Nas quartas de final, venceu uma Juventus, superior no papel, por 2 a 1. E o gol fantasma de Luis García passou a rivalizar com o de Fairclough, na vitória por 1 a 0 sobre o Chelsea que recolocou o Liverpool em uma final de Champions pela primeira vez desde Heysel. 

Sem finais tão felizes, uma nova vitória sobre o Chelsea, em 2006/07, e o atropelamento por 4 a 0 sobre o Real Madrid, dois anos depois, são lembranças calorosas para o torcedor vermelho. Mas anos difíceis vieram pela frente. A troca de donos, as contratações erradas, o ocaso de Benítez e as passagens fracassadas de Kenny Dalglish e Roy Hodgson fizeram com que o Liverpool passasse muito tempo afastado do futebol europeu. No máximo, campanhas modestas na Liga Europa. A ausência da Champions League foi prolongada. Anfield adormeceu. 

E, então, apareceu Jurgen Klopp com seu projeto para reacender a chama de um gigante. A Liga Europa de 2015/16 foi um aperitivo. O 4 a 3 sobre o Borussia Dortmund, com gol de Lovren, aos 46 minutos do segundo tempo, foi o primeiro toque do despertador. Veio outra vitória categórica por 3 a 0 sobre o Villarreal que levou o Liverpool à final. Anfield abria os olhos. Mas apenas a Champions League seria capaz de acordá-lo definitivamente. 

A campanha que o Liverpool faz na atual edição da Champions League não deve nada a torneios do passado. Ela pode acabar no próximo jogo, em Roma, mas a última data em Anfield foi a prova cabal de que o estádio retornou como um dos grandes palcos europeus, um alçapão que causa medo aos adversários. Pergunte ao Spartak Moscou, que levou 7 a 0. Ou ao Manchester City, que sofreu 3 a 0 ainda no primeiro tempo. Ou à Roma, goleada por 5 a 2 no jogo de ida das semifinais. 

A atmosfera da partida contra os italianos nesta terça-feira foi mais uma vez exuberante. A paixão da torcida do Liverpool e o estilo do time de Klopp, incapaz de tirar o pé do acelerador, são uma mistura avassaladora. Fora de campo, o estádio foi o grande trunfo dos Reds na Champions League. Independente do que acontecer a seguir, cumpriu a sua função de intimidar os adversários e encher os donos da casa de confiança. As famosas noites europeias de Anfield estão de volta. 

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