Por Felipe Lobo e Leonardo Escudeiro

Algumas promessas do futebol brasileiro estão constantemente sob holofotes, dando entrevistas atrás de entrevistas antes mesmo de terem idade para dirigir. São comparados a estrelas do passado para que o público dimensione do que são capazes esses garotos, e esses paralelos acabam exercendo pressão extra por um crescimento meteórico. Andreas Pereira não vive essa realidade. Fala pouco, não aparece muito na televisão e também não precisa viver a expectativa de ser um novo alguém. Sem alarde ou pressa, busca seu espaço no Manchester United e, presença constante na seleção sub-20, sonha em um dia defender também a equipe principal.

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Mesmo após o ótimo desempenho individual na Copa do Mundo sub-20, em que fez um belo gol na decisão que o Brasil perdeu para a Sérvia, por 2 a 1, Pereira não ganhou muita exposição diante do torcedor brasileiro. A distância do país que pretende defender tem seu papel no desconhecimento do grande público sobre o garoto. Se tivesse crescido em alguma das capitais brasileiras e atuado nas categorias de base de um grande clube nacional, poderia ter tido a mesma exposição precoce que outros jovens talentos brasileiros. Em vez disso, tendo nascido em Duffel, na Bélgica, e jogado dos nove aos 15 anos nas categorias de base do PSV, da Holanda, antes de se transferir para o Manchester United, seu cenário foi bem mais tranquilo.

Se muita gente acredita no mito de que Van Gaal não gosta de sul-americanos, especialmente os brasileiros, e faz o necessário para chutá-los dos clubes que comanda, Pereira conheceu uma outra faceta do técnico holandês, essa muito mais verificável em suas decisões tanto no Manchester United quanto em outras equipes: a de apostador no talento de jogadores da base. Desde a chegada do holandês a Old Trafford no início da temporada passada, o brasileiro e outros atletas das categorias inferiores dos Red Devils passaram a ser mais integrados ao elenco e a ter chances na equipe principal.

As primeiras chances para Pereira vieram na temporada passada, mas foram ínfimas. Menos de 60 minutos disputados entre dois jogos: contra o Tottenham, na Premier League, e diante do MK Dons, na humilhante eliminação da Copa da Liga Inglesa 2014/15 com uma derrota por 4 a 0. O diferencial mesmo foi o espaço que conseguiu na pré-temporada 2015/16, quando, durante o tour pelos Estados Unidos, esteve presente em boa parte dos jogos e deixou até mesmo o seu gol, fazendo ótima atuação contra o San Jose Earthquakes.

Apesar do bom nível mostrado nos jogos preparatórios para a temporada, Pereira ainda está atrás na lista de preferências de Van Gaal entre os jogadores ofensivos mais jovens. Lingard, por exemplo, tem constantemente entrado em campo, sem impressionar, enquanto o brasileiro, em um dos três jogos oficiais que fez em 2015/16, anotou um belo gol de falta na vitória sobre o Ipswich, pela Copa da Liga Inglesa, no fim do mês passado – o último jogo foi nesta quarta, contra o Middlesbrough, também na Copa da Liga. Mas pode ser questão de tempo para que chegue a sua vez de poder mostrar que pode ser utilizado com maior regularidade. Em entrevista à Trivela, ele demonstra entender que é preciso paciência e trabalho duro até que esse momento chegue.

Confira a entrevista completa com Andreas Pereira:

Trivela: Antes da pré-temporada, você havia tido alguma conversa com Van Gaal sobre ele aproveitá-lo mais no time?

Andreas Pereira: Ele falou para mim que gostaria de me ter no elenco e que eu teria que trabalhar forte para me manter. É o que eu tenho feito aqui, me dedicado nos treinos para estar preparado.

Trivela: Você fez uma boa pré-temporada e já marcou o primeiro gol em uma partida oficial. Apesar disso, ainda não teve muitas chances (não tem um minuto em campo na Premier League 15/16), enquanto Lingard tem ganhado seus minutos em campo pelo time principal. Por que acha que não está ganhando seu espaço?

Andreas Pereira: Essa é uma decisão do técnico, estou trabalhando forte, dando meu máximo. Estou esperando o momento certo. Eu tenho que ter paciência.

Trivela: Em que posição poderia atuar no esquema atual do Van Gaal? Onde você mais gosta de atuar?

Andreas Pereira: Rendo melhor atrás do centroavante, como meia atacante, número 10.

Trivela: Como você descreveria os métodos de treinamento do holandês? São diferentes do que você já tinha visto?

Andreas Pereira: Não, sempre o mesmo trabalho do ano passado. Estamos tentando continuar o melhor trabalho.

Trivela: Você observou alguma evolução da primeira para a segunda temporada sob o comando de Van Gaal? O time está no caminho certo em sua reconstrução?

Andreas Pereira: O time melhorou bastante, nosso elenco está mais forte que no ano passado, mais qualificado. O trabalho de resto é sempre igual. E nosso objetivo é conquistar um título nesta temporada.

Trivela: Você vislumbra a possibilidade de, assim como Januzaj, ser emprestado em breve para ganhar ritmo em outro lugar ou acha melhor lutar por seu espaço no Manchester United?

Andreas Pereira: Meu objetivo é ficar por aqui, tentar conquistar meu espaço aqui no United. Mas se por acaso eu tiver a opção de sair emprestado e fazer o mesmo que Januzaj,  ganhar experiência em outro time, eu vou sem problema.

Trivela: Com qual jogador do elenco você mais aprende ou tem melhor relação?

Andreas Pereira: Eu tenho uma boa relação com muitos jogadores por aqui, como o Rojo, o Mata.

Seleção

Trivela: Como foi a decisão de jogar pelo Brasil, vivendo sempre fora do país?

Andreas Pereira: Para mim, sempre foi um sonho jogar pela seleção brasileira. Quando tive a oportunidade de jogar a Copa do Mundo (sub-20), eu não pensei duas vezes. Quando o [Alexandre] Gallo ainda estava na Seleção, ele veio conversar comigo, depois me convocou para um jogo na China. Fui convocado outras vezes e depois fui para a Copa do Mundo. Nunca tive dúvidas sobre defender o Brasil.

Trivela: Você foi muito bem na seleção sub-20 e foi chamado para o time olímpico. Você se imagina jogando a Olimpíada no Rio de Janeiro?

Andreas Pereira: É algo em que penso, sim. Esse é um grande sonho que eu quero realizar. Nós, do time olímpico, queremos mostrar do que somos capazes, que podemos ir bem e dar o máximo para ganhar, porque sabemos que é um título importante.

Trivela: Uma das suas qualidades é a cobrança de faltas. Você treina para isso? Como é a sua rotina para se manter bem nesse fundamento?

Andreas Pereira: Eu treino todos os dias. Sempre depois dos treinos a gente vai bater falta, a gente sempre fica praticando finalização e tentando aprimorar.

Trivela: Qual é a diferença para quem jogava na Bélgica jogar na Inglaterra?

Andreas Pereira: O físico aqui na Inglaterra é mais forte, os jogadores correm mais, e aqui o jogo é mais rápido. Eu tive que me adaptar no começo. Agora, já me sinto bem adaptado ao estilo de jogo.

Trivela: Apesar de ter nascido fora do Brasil, você tem um estilo de jogo muito identificado com o futebol brasileiro. Qual a sua relação com o futebol brasileiro?

Andreas Pereira: Meu pai sempre jogou bola, sempre olhei como ele jogava. Sempre assisti ao futebol brasileiro também, mas acho que isso foi mesmo algo que está dentro de mim. Eu sou brasileiro, então tem a ver com isso, é algo de sangue.

Trivela: Indo bem na seleção olímpica, dá para pensar em seleção principal?

Andreas Pereira: A gente sempre quer dar o máximo no clube, se eu começar a jogar a jogar mais aqui. Acho que tem que trabalhar por aqui, ganhar o meu espaço no clube. Jogando mais pelo Manchester United, espero um dia chegar à seleção principal. É um sonho.

Trivela: Que jogador você gostava de ver, que te inspirou a se tornar um jogador também?

Andreas Pereira: Eu sempre gostei muito do Kaká, sempre assisti aos jogos dele. Gosto do estilo que ele tem. E tive oportunidade de falar com ele uma vez, em um jogo do Real Madrid aqui no Old Trafford. Não conseguimos conversar muito, foi rápido, eu falei depois do jogo, quando ele estava entrando no vestiário. Ele me deu o calção dele. Fiquei muito feliz.