Os 32 anos podem pesar nas costas de um jogador de futebol. Ainda assim, oferecem experiência e maturidade para recomeçar. André Santos não repetiu seus melhores momentos de sua carreira nos últimos clubes que defendeu no Brasil. Depois de deixar o Arsenal em 2013, teve passagens modestas por Grêmio e Botafogo de Ribeirão Preto, enquanto alternou a conquista da Copa do Brasil e a queda precoce na Libertadores pelo Flamengo. Além disso, também chegou a se aventurar pela Super League Indiana, onde agradou. Mas, nos últimos sete meses, o veterano se reencontrou na carreira. Longe dos holofotes ou do melhor nível técnico, é verdade. Ainda assim, liderando um projeto promissor na Suíça.

André Santos já não é mais lateral. Assumiu o posto de meia do Wil 1900, clube que conquistou a Copa da Suíça há 12 anos e já militou na elite, embora hoje esteja na segunda divisão. E vem ajudando o time a perseguir o tradicional Lausanne na briga pelo acesso. Em 16 partidas, o brasileiro soma oito gols e seis assistências. É o grande destaque da equipe que recentemente foi comprada por um magnata turco, e possui vários jogadores badalados – como Márcio Nobre, Johan Vonlanthen e Egemen Korkmaz. Além do bom momento, o ex-jogador da Seleção ainda pode aproveitar a qualidade de vida de seu novo país.

Em entrevista à Trivela, André Santos falou sobre futebol, mas não se restringiu àquilo que acontece dentro de campo. Conversou também sobre as experiências de sua carreira e as realidades que viveu em diferentes países. Além disso, comentou diferenças culturais e o comportamento dos torcedores. Confira:

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O que te levou ao Wil e o que te atraiu na segunda divisão suíça?

André Santos: O presidente do clube é turco e apresentou um projeto bastante interessante, que me atraiu. Ele tem uma empresa de aviação e também trabalha com construção civil, e comprou o clube. Ele já me conhecia do futebol turco, foi conselheiro do Fenerbahçe, e fez a proposta. O projeto é muito bom e me deu a chance de vir para a Suíça, que é a capital da Europa, oferece uma vida ótima para a minha família. O time tinha alguns jogadores que eu já conhecia, o Márcio Nobre e alguns turcos, investiguei para saber como era. Estão ampliando o estádio e planejam subir para a primeira divisão, têm muita ambição. E, com as boas promessas e a qualidade de vida, a chance veio em um momento oportuno.

Você se destacou como um jogador de qualidades ofensivas, mas quase sempre na lateral. Como é viver essa transição para o meio, e ainda se tornar artilheiro?

André Santos: Eu joguei no começo da minha carreia como meio de campo e joguei assim em outros momentos da carreira, então não foi muito um problema. Estou passando por um bom momento, focado no projeto do Wil. Vim para mostrar o meu potencial, não para ser mais um. É importante jogar no meio, exercendo uma nova função e ajudando o time. Eu até me sinto polivalente aqui, já joguei em diferentes funções. Agora, estou mais como camisa 10, contribuindo com o ataque. E, se eu subi com outros times no Brasil, também quero buscar o acesso aqui.

Como você compara a Suíça com os outros países que você passou, em qualidade de vida e também em qualidade do futebol?

André Santos: Eu estou tendo a chance de vivenciar outra cultura aqui. Sempre gostei disso, de conhecer outros países. Eu viajei muito como jogador, pela Seleção, mas morar é diferente. É uma experiência única, não tem preço poder aproveitar da qualidade de vida aqui. Tenho minha privacidade, uma relação de respeito com o torcedor que é diferente. E posso desfrutar o país, oferecer uma boa educação para minha família. Já no futebol, a segunda divisão aqui é mais correria e força, enquanto a primeira tem mais técnica – uma diferença parecida com a que acontece no Brasil. Mas o Campeonato Suíço é bom, sempre acompanhei, e tem a vantagem de oferecer cinco vagas para a Europa entre os dez times da primeira divisão, o que ajuda bastante.

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Falando um pouco sobre sua passagem pelo Arsenal, como você vê o atual momento do clube, brigando pelo título da Premier League? Como o Arsène Wenger lidava com a pressão por reconquistar o título, que aumentou nos últimos anos?

André Santos: Torço para que o Arsenal leve esse título. Fico feliz que esteja acontecendo, é um clube pelo qual joguei e tenho carinho, mas não foi campeão da Premier League nos últimos anos. Ver isso é importante, até voltam algumas sensações que tinha quando jogava por lá. Já o Wenger é tranquilo, um ótimo técnico que sabe o que quer e sabe o que gosta. Falam que ele está pressionado, mas ele leva o trabalho com tranquilidade. Está há 19 anos no clube e tem a confiança da diretoria para comandar. Aprendi muito com ele.

E em questão de fanatismo, dá para traçar um paralelo entre as experiências que você teve na Inglaterra, na Turquia e nos grandes clubes brasileiros?

André Santos: Cada um tem as suas diferenças. Era emocionante no Corinthians, até pelo momento que vivi no clube, que me levou à Seleção. O Arsenal tinha uma sensação única, com o clássico de Londres, um grande interesse dos torcedores pelo clube. E na Turquia é um fanatismo absurdo, tem um dos clássicos mais difíceis de jogar no mundo. Cada um tem sua qualidade, consegui me enquadrar, gostei de experimentar tudo isso. Mas a motivação no Corinthians e no Fenerbahçe era maior, até pelo calor da torcida, pela pressão, pela festa que fazem quando te encontram na rua.

Você chegou a ter ótima reputação no Fenerbahçe. Como era lidar com esse fanatismo da torcida no dia a dia?

André Santos: Eu vivi o meu melhor momento no Corinthians, então não sofri nada para me adaptar no Fenerbahçe. O carinho dos torcedores segue muito grande, quando me encontram pedem para eu voltar. Eu saía para jantar e eles cantavam, tiravam fotos, pediam autógrafos. Um episódio que me marcou muito aconteceu em um jogo decisivo para o título. Depois dos gols, eles costumam cantar o nome dos jogadores três vezes. Mas eu marquei nesse jogo e eles cantaram 12 vezes, até o fim. Era muito bacana. Só que, a partir do momento em que o clube teve problemas com manipulação de resultados, eu pedi para ser transferido. Eles entenderam e veio a proposta do Arsenal.

Mais recentemente, você passou pela Índia. Como é o projeto do futebol por lá? Dá para ter uma expectativa de que ele cresça, e não fique apenas como uma liga de apenas alguns meses no ano?

André Santos: O campeonato por lá é muito organizado. O pessoal é fanático por futebol e vivi um momento bom por lá, me ligam para voltar. Eu conheci a Índia jogando e percebi como as pessoas por lá respira futebol, como enche os estádios. Só em uma das cidades eu não senti tanto essa ligação. E tem também os jogadores europeus, que dão uma qualidade grande ao campeonato. Pela organização, pela qualidade e pelo público, acredito que pode evoluir sim.

E como você vê a expansão do mercado na China, após a experiência na Índia?

André Santos: Os chineses vieram fortes para o futebol. São inteligentes para crescer e vão se expandir. Estão levando grandes jogadores e tem condições de fazer um campeonato de qualidade. Também contrataram treinadores de qualidade, o que ajuda. E os valores que oferecem são altos, todo mundo pensa no futuro, mesmo sem a qualidade de vida da Europa.

Como você compara a questão de estrutura e a paixão dessas suas duas últimas experiências no exterior, em mercados menores, com o vivido no Brasil?

André Santos: Estamos muito atrás no Brasil. Em estrutura, em organização do clube. Aqui, cumprem o que te prometem, não tenho problemas em relação a isso. Vai demorar para o Brasil conseguir chegar nesse nível de organização.

Você pensa você pensa em voltar ao futebol brasileiro?

André Santos: Neste momento, não tenho perspectiva de voltar. Aqui minha qualidade de vida é ótima. Se eu recebesse uma proposta, claro, iria analisar com carinho. Mas as coisas estão acontecendo para mim aqui, estou jogando bem. Neste momento não tenho vontade de voltar. Estamos na briga para subir, com 15 rodadas pela frente. É um trabalho muito bem feito, que oferece uma ótima estrutura, tem um presidente ambicioso.


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