O salto rumo ao vazio seria em vão. Andrada acertou o canto na cobrança do pênalti e raspou a bola, mas ainda assim ficaria a milímetros de desviá-la por completo. A insatisfação logo tomou a sua cabeça e, enraivecido, começou a dar socos no gramado. Ao seu lado, Pelé corria triunfante para buscar a bola no fundo das redes. Uma multidão de jornalistas tomava o gramado e engolia o Rei, que seria carregado nos braços por anotar o seu famoso milésimo gol. Andrada permaneceu no chão por mais algum tempo e, consolado, foi erguido por um companheiro. Não queria ter sua carreira estigmatizada por o “goleiro que sofreu o milésimo gol”.

A alcunha seria inescapável. Aquele 19 de novembro de 1969 se transformou em um rótulo ao goleiro argentino, que por muito pouco não conseguiu defender o pênalti histórico. Se por um lado o desconhecido Zaluar só ganhou notoriedade por sofrer o “Gol 0001” quando defendia a meta do Corinthians de Santo André, Andrada possuía um talento muito superior para ver sua história resumida desta forma. Ele bem que tentou ser o vilão no Maracanã e realizou grandes defesas para evitar o aguardado tento do Rei. Esforço em vão, para quem terminou como o principal coadjuvante. Mas só naquela noite.

Ainda hoje, Andrada é lembrado como um dos melhores goleiros sul-americanos de sua geração. Também se coloca na galeria de ídolos eternos do Vasco. No entanto, há uma mancha em sua biografia: o envolvimento com a ditadura militar argentina, o que afastou seu nome das lembranças mais gloriosas durante os últimos anos. E neste misto de sensações, entre o goleiro e cidadão, que sua história é recontada diante da notícia de seu falecimento, aos 80 anos.

Nascido em Rosário, Andrada poderia ter vivido uma história completamente diferente. Filho de um pintor de ferrovias, trabalhou como carpinteiro e iniciou os estudos para se tornar arquiteto. Além disso, também praticou basquete, o esporte favorito durante sua juventude. Porém, logo o talento no futebol falaria mais alto e a aptidão para jogar entre as traves moldou um grande goleiro. Andrada reunia características que o favoreciam na posição, mesmo sem ser tão alto. Aprimorou-as com treinamento e observação aos melhores.

O apelido de “El Gato” já falava bastante sobre a agilidade de Andrada. Era um goleiro que primava por sua antecipação nos movimentos e por suas defesas espetaculares, sem perder a segurança e a frieza. Sua estatura (1,78 m) exigia mais do bom posicionamento e das saídas de gol arrojadas, algo que se aprimorava na posição. Da mesma maneira, ainda contribuía com seus lançamentos e reposições aos companheiros. Era o que poderia se chamar de um arqueiro completo. Por isso, teve uma longa trajetória em alto nível.

Os primórdios de Andrada aconteceram em sua cidade, vestindo a camisa do Rosario Central. Profissionalizou-se pelos canallas em 1960, quando tinha 21 anos, e não demorou para que suas aparições se tornassem frequentes pela equipe principal. Não eram tempos tão gloriosos aos rosarinos, de campanhas modestas no Campeonato Argentino. Mas o talento ascendente rendeu as primeiras convocações ao novato ainda em 1961.

Ao longo da década de 1960, Andrada se firmou como uma das referências no time do Rosario Central, que melhoraria seus resultados e faria algumas campanhas dignas nas competições nacionais. El Gato, além do mais, possuía uma ascendência enorme sobre a equipe. Tornou-se capitão em 1964, aos 25 anos. Já nos meses seguintes, chegou à marca absurda de 173 partidas consecutivas como titular dos rosarinos. Também era reserva da seleção, mas uma lesão custou sua convocação à Copa de 1966.

Andrada voltaria a atuar na Albiceleste durante o ciclo seguinte e até mesmo tomou a titularidade no segundo semestre de 1968. Na mesma época, permitiu que os canallas contassem com uma das melhores defesas do país e aparecessem entre os melhores do Campeonato Argentino. Em dois anos consecutivos, foi o segundo goleiro menos vazado do Nacional. A fama ultrapassou as fronteiras e gerou interessados em seu futebol também no Brasil. Depois de disputar o Campeonato Metropolitano de 1969, o arqueiro aceitou uma proposta do Vasco e se mudou ao Rio de Janeiro. O negócio custou 330 mil cruzeiros e mais dois amistosos entre os clubes, que nunca foram realizados. Além disso, o novato receberia logo de cara o teto salarial pago pelos cruzmaltinos.

No momento em que a transferência era acertada, até surgiu um rumor de que a AFA poderia barrar a vinda de Andrada ao Brasil, pelo fato de que havia sido convocado às Eliminatórias da Copa de 1970. O rumor não se concretizou e, em um período no qual a lista de selecionáveis se restringia àqueles em atividade no país, o goleiro deixaria de defender a Albiceleste. Aos 28 anos, chegou com o rótulo de “solução” à instabilidade sofrida pelos vascaínos na meta e impressionou os companheiros logo em seus primeiros treinamentos. Já a estreia aconteceu em uma fogueira danada, justo no clássico contra o Flamengo. Os rubro-negros ganharam por 3 a 0 e o argentino saiu machucado, após sofrer os dois primeiros gols.

Andrada ainda estabelecia o seu nome no Vasco quando, seis meses depois, aconteceu o famoso duelo contra o Santos no Maracanã. No treino anterior ao embate, o goleiro já sofria pressão. Os fotógrafos insistiam para que fosse ao fundo das redes buscar as bolas, esperando a foto ideal para o jornal de dias depois. O argentino se recusava e botou um gandula para ficar nas redes durante suas atividades. Além do mais, trouxe seu pai de Rosário para vê-lo impedir o milésimo gol. “É duro, mas se puder vou adiar a festa dos mil. Aquele que deixar passar o milésimo ganhará projeção mundial, mas abro mão disso. Prefiro não sofrer nenhum gol e ver o Vasco marcar o seu. Afinal, será que não temos este direito?”, declarou o camisa 1, na véspera.

O desejo de Andrada não se cumpriu. E a insatisfação ficou expressa naqueles socos no chão, enquanto tornava-se apenas mais um diante da invasão que tomava o gramado. Ainda assim, seria elogiado pela atuação na derrota por 2 a 1.

“Andrada, realizando talvez a maior exibição de um goleiro este ano no Estádio Mário Filho, valorizou ao máximo o feito de Pelé. Uma de suas defesas foi colossal: encobrindo a barreira humana que lhe impediam os passos, Pelé tocou sutilmente a bola com efeito, fazendo-a descair no ângulo direito. Quando o estádio se levantava no grito de gol, Andrada surgiu voando no lugar impossível para tocar a bola e desviá-la do caminho de suas redes. Mesmo no pênalti, pulou certo para o lugar exato. Mas se defendesse, não seria apenas um magnífico goleiro; seria, sim, um gênio à altura de quem cobrou”, exaltou o Jornal dos Sports, no dia seguinte.

Se décadas depois Magrão fez seu nome muito além do milésimo gol anotado por Romário, Andrada já tinha conseguido isso depois de sucumbir a Pelé. Transformou-se em ídolo do Vasco e em um dos goleiros mais aclamados do país. Os grandes resultados dos cruzmaltinos naquele início da década de 1970, quase sempre, passavam por suas luvas. O clube conquistou um emblemático título carioca em 1970, encerrando o jejum de 12 anos no estadual. Apesar da ausência na decisão, foi considerado o melhor de sua posição no campeonato.

Andrada passou alguns meses no estaleiro por lesão e a situação criou certo atrito com a diretoria do Vasco. Os primeiros exames não detectaram corretamente qual o seu problema e o arqueiro chegou a ser acusado de “má vontade” por dirigentes. Recuperou-se a ponto de ser eleito o melhor goleiro do Brasileirão de 1971, premiado com a Bola de Prata da Revista Placar. Além disso, dois anos depois, ficaria comprovada uma fissura no perônio. Mesmo com a contusão, seguiu segurando a bronca na meta cruzmaltina.

A fase de Andrada era tão boa que torcedores e imprensa passaram a questionar se não havia espaço na seleção brasileira ao argentino – em tempos nos quais os serviços anteriores por outro país não impediam a mudança de equipe. Em outubro de 1971, o goleiro ganhou a capa da revista Placar ao lado do paraguaio Reyes, ambos com a camisa canarinho. “Quem sabe em 1972 já não estarei vestindo esta camisa de verdade? Por enquanto, tudo não passa de um sonho. Mas vou lutar por ele”, declarou o arqueiro, que ainda aguardava a sua naturalização, ocorrida dois anos depois. Na época, planejava também montar uma escola de goleiros no Rio, para “ensinar os macetes da profissão a uma garotada que vejo ter jeito, mas que não encontra apoio nem ensinamento especializado”.

Andrada naturalizou-se brasileiro e chegou a dizer que a convocação seria “como ganhar um Prêmio Nobel”, mas não cumpriu a vontade. Seu “país” continuava sendo o Vasco da Gama e, com ele, conquistaria o Brasil em 1974. O camisa 1 teve atuações decisivas durante o Campeonato Brasileiro daquele ano, sobretudo na reta final. Mesmo jogando no sacrifício por conta das lesões, permanecia como uma peça insubstituível. Seria creditado como um dos grandes responsáveis pela taça dos cruzmaltinos, feito que marcou sua trajetória no clube.

Andrada permaneceu em São Januário até 1975. Transferiu-se ao Vitória e também virou destaque no Barradão, depois de boas atuações no Brasileirão. Mesmo beirando os 40 anos, teve um final de carreira com bons momentos em seu país. Jogou pelo Colón de 1977 a 1979, com direito a novas jornadas de relevo na elite nacional. Deixou Santa Fe e mesmo assim não afastou-se do futebol, integrando o Renato Cesarini, time rosarino de veteranos que chegou a participar do Campeonato Argentino em 1982. Aos 43 anos, El Gato foi titular ao longo da campanha na primeira divisão, a última de sua carreira.

Antes mesmo de parar, Andrada se precavera à aposentadoria. Contava com diversos investimentos e propriedades na Argentina – que incluíam apartamentos, hectares de terras e sociedade em empresas. Porém, a história do veterano foi bem mais obscura neste momento. Na década passada, veio à tona a acusação de que o goleiro contribuiu com a ditadura militar em seu país ao longo dos anos 1980. Foi investigado por dois assassinatos ocorridos em 1983. “Sua figura como ex-goleiro do Rosario Central incentiva adesões e confiança, especialmente nos bairros de trabalhadores, o que facilita sua penetração para o objetivo imposto. Embora sua idade exceda o limite estabelecido, o potencial de penetração e as habilidades pessoais fazem sua integração beneficiosa”, dizia um dos relatórios.

Sob o codinome de “Agente S”, Andrada teria dado informações ao sequestro de dois militantes vistos como adversários políticos pelo governo, mortos pouco depois. O veterano admitiu sua atuação dentro do Pessoal Civil de Inteligência, organismo que recrutava civis para trabalhos de espionagem e repressão, embora negasse o envolvimento direto nos assassinatos. Terminaria absolvido por falta de provas em 2011.

A mancha sobre o nome ficou. O Rosario Central pediu para que Andrada renunciasse ao cargo que ocupava nas categorias de base, independentemente da absolvição. O reconhecimento ao homem se tornou menor durante os últimos anos, por mais excepcional que tenha sido o goleiro. O falecimento nesta quarta-feira gerou reações contrastantes. Andrada permanece como o goleiro que mais vezes atuou pelo Rosario Central, mas o clube sequer noticiou sua morte. O Vasco, por sua vez, escreveu uma nota de luto. Em votação realizada em 1999 pela revista Placar, Andrada foi apontado como o nono maior jogador cruzmaltino no Século XX, atrás apenas de Barbosa entre os goleiros.

* Para saber mais sobre a história de Andrada, vale conferir também o excelente artigo publicado por Caio Brandão no Futebol Portenho

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