A seleção de Andorra não possui muitos feitos internacionais para se gabar. Pelo contrário, a equipe nacional do minúsculo país encravado entre Espanha e França geralmente serve de sparring nas eliminatórias. Desde sua primeira partida internacional, em novembro de 1996, o time conquistou apenas sete vitórias, três em torneios oficiais. No entanto, as Eliminatórias da Euro 2020 renderam marcas significativas aos andorranos. Além de somarem incríveis quatro pontos, que impediram a equipe de ficar na lanterna de seu grupo (um fato inédito), também bateram um recorde mundial. Dono da braçadeira de capitão, o zagueiro Ildefons Lima chegou a 22 anos e 148 dias desde sua primeira atuação com o elenco principal de Andorra. Nenhum outro jogador na história do futebol de seleções permaneceu na ativa por tanto tempo.

Lima tinha 17 anos quando estreou pela seleção de Andorra. Em 22 de junho de 1997, o zagueiro participou do amistoso contra a Estônia, a segunda partida da equipe nacional. Não evitou a derrota por 4 a 1, mas mostrou que poderia gravar seu nome ao anotar o gol de honra – o segundo da história andorrana. Desde então, o beque seguiu frequentando as convocações. Não houve uma temporada sequer em que ficou de fora da seleção, embora não tenha entrado em campo em 2006. A ausência de Andorra nas competições internacionais não permitiu que o veterano mirasse o recorde internacional de partidas – 128 até o momento. Em compensação, ninguém o supera em longevidade.

Até esta Data Fifa, o recorde era do equatoriano Iván Hurtado. O zagueiro defendeu a seleção de seu país por 22 anos e 143 dias, de 1992 a 2014. Disputou 168 partidas internacionais. Ildefons Lima, por sua vez, ratificou a marca ao enfrentar a Turquia neste domingo. O andorrano entra para os livros um mês antes de chegar aos 40 anos de idade. Recordista em atuações internacionais, o egípcio Ahmed Hassan defendeu os Faraós por “apenas” 16 anos e 145 dias, contabilizando as suas 184 partidas.

Na história do futebol, seis jogadores passaram dos 22 anos entre o primeiro e o último jogo por suas seleções. O goleiro Pat Jennings foi o único a estabelecer a marca no século passado, encerrando sua passagem pela Irlanda do Norte na Copa de 1986. O goleiro Essam El-Hadary foi outro a ameaçar o recorde recentemente. O egípcio defendeu os Faraós por 22 anos e 143 dias, até finalmente ceder à aposentadoria em outubro de 2014. Entre os jogadores com mais de 15 anos de seleção, uma das maiores ameaças a Ildefons Lima é Ali Al Habsi. Aos 37 anos, o goleiro de Omã precisa de mais quatro anos de seleção. Já Cristiano Ronaldo é outro na corrida, se conseguir se manter na ativa por Portugal até os 40 anos.

Nascido em Barcelona, Ildefons Lima começou sua carreira no Andorra FC, que disputa as divisões de acesso do Campeonato Espanhol. Depois disso, o zagueiro teria uma trajetória razoável em clubes profissionais. Atuou por Las Palmas, Rayo Vallecano e Espanyol B, passando também por Triestina (Itália), Bellinzona (Suíça) e Pachuca (México). Já em 2014, o defensor passou a jogar na liga de seu país. Foi tetracampeão nacional pelo FC Santa Coloma, antes de se transferir ao Inter d’Escalades na última temporada.

Já pela seleção, Lima sustenta outras marcas invejáveis. Ele foi o segundo jogador da história do país a passar dos 100 jogos, repetindo a façanha de Óscar Sonejee. Além disso, o beque também é o maior artilheiro de Andorra em todos os tempos – número impulsionado por sua capacidade no jogo aéreo, bem como por se encarregar dos pênaltis. São 11 tentos do defensor, mais que o dobro do atacante Cristian Martínez, o segundo colocado da lista, com cinco gols. Lima possui uma média de 0,086 tentos por aparição. Ao todo, a seleção andorrana anotou 47 tentos em sua história. Entre as vítimas do veterano estão Bélgica, Irlanda e Gales.

“Tudo começou com a segunda partida da seleção. E, 22 anos depois, aqui estamos, embora você se dê conta de como passou rápido quando olha para trás. Sinto até vertigem quando vejo que alguém da seleção, como Max Llovera, nasceu em 1997, o ano em que eu estreei”, contou Lima, em entrevista exclusiva ao Marca. “Eu ainda sigo com uma vontade que se mantém desde o princípio, ainda que os mais jovens busquem seu espaço. Enquanto eu continuar mantendo esse desejo e meu físico inteiro…”.

Entre os seus melhores momentos pela seleção de Andorra, Ildefons Lima aponta o amistoso em 1998 contra o Brasil, que se preparava à Copa do Mundo. Ronaldo foi o adversário mais difícil que já enfrentou, segundo suas próprias palavras. Naquele mesmo ano, o zagueiro também encarou a França em Saint-Denis, logo após o título Mundial. Além disso, ele cita com carinho um duelo com a Inglaterra em 2009, dentro de Wembley, por um motivo particular: a ocasião serviu de despedida de Toni Lima, seu irmão. Nove anos mais velho, o companheiro atuava ao lado do caçula no miolo de zaga. Chegou a passar por Barcelona C e Real Madrid B.

E se depender do próprio Ildefons Lima, sua marca vai se estender mais um pouco. Ele não planeja abandonar a seleção e pretende atingir os 24 anos com a camisa andorrana, talvez os 25. Sua próxima meta é participar das Eliminatórias da Copa de 2022. Sabe que seu país dá certos sinais positivos, como os próprios quatro pontos nas Eliminatórias da Euro demonstram. Andorra se vê distante de façanhas recentes registradas por outros nanicos, como a conquista de Kosovo na Liga das Nações ou a presença de Luxemburgo na Liga Europa, através do Dudelange. Todavia, os andorranos têm um ídolo para se orgulhar. A nação de 77 mil habitantes fez um recordista mundial no futebol.