Carlo Ancelotti é um dos técnicos mais badalados do mundo. Ele aceitou em dezembro de 2019 o desafio de comandar o Everton, um clube que não está no chamado top-6 do futebol inglês, mas que tem muito potencial. Com um cartel longo de títulos e sucessos, o italiano, de 60 anos, deu uma longa entrevista à Sky Sports, da Inglaterra, contando sobre a sua carreira, a passagem pelo Parma, o aprendizado na Juventus, o sucesso no Milan e as experiências no exterior. Falou também sobre as ambições no Everton.

Desentendimento com Zola no Parma

Ancelotti começou a carreira de técnico na Reggiana, na temporada 1995/96, e depois foi para o Parma na temporada 1996/97. Ficaria dois anos no comando dos Ducali, em um período que a Parmalat colocava bastante dinheiro no clube e havia grandes jogadores. E assim, com um elenco recheado, teve um problema para resolver com uma das estrelas.

“O Parma foi o primeiro time de primeira divisão que eu dirigi e eu tinha [Gianfranco] Zola naquele período. Naquele período, eu estava jogando com um 4-4-2, eu estava jogando sem um camisa 10 no período, então no primeiro jogo da temporada, eu tentei colocá-lo [Zola] no lado direito como um ponta”, contou Ancelotti.

“Ele não gostou muito, ele foi bem, na minha opinião, mas ele queria jogar pelo meio. Então, tendo [Hernan] Crespo e [Enrico] Chiesa no ataque, eu encontrei espaço para ele no lado direito, mas ele não estava muito feliz”, disse ainda o técnico. “Ao mesmo tempo, ele teve a oportunidade de ir para o Chelsea no mercado de janeiro, ele decidiu ir e eu o deixei ir”.

“Zidane mudou minha ideia de futebol”

Depois do Parma, Ancelotti foi contratado como técnico da Juventus, em 1999. Foi lá que ele encontrou com Zinedine Zidane, o craque francês, já campeão do mundo, eleito o melhor de 1998 e uma estrela mundial. E o jogador francês teve uma grande influência na forma como Ancelotti via o futebol como técnico até então.

“Com Zidane, eu tentei mudar a minha ideia sobre o sistema. Zidane foi o primeiro jogador que me deu a possibilidade de mudar o esquema e jogar de um modo diferente. Então, quando eu tinha Zidane, no primeiro ano de Juventus, eu joguei com um sistema de 3-4-1-2, tendo [Alessandro] Del Piero e [Filippo] Inzaghi na frente e Zidane um pouco atrás. No segundo ano, eu joguei com uma linha de defesa de quatro jogadores, mas mantendo dois atacantes e um número 10, como Zidane”, explicou Ancelotti.

“Zidane mudou a minha ideia sobre futebol, eu estava tão focado antes da Juventus em um 4-4-2 e depois, com Zidane, eu mudei, eu queria colocá-lo na melhor posição para ele para deixá-lo mais confortável em campo” contou o técnico. Curiosamente, Zidane seria auxiliar técnico de Ancelotti na temporada 2013/14, quando o treinador foi para o Real Madrid. Foi com Ancelotti que Zidane passou a trabalhar no time principal, que ele se tornaria técnico anos depois, com a saída de Rafa Benítez, em 2016.

“Na minha carreira como jogador, eu tinha [Nils] Liedholm [na Roma] que foi um dos primeiros técnicos que jogava por zona, mas não era 4-4-2, era uma linha defensiva com quatro jogadores, mas no meio-campo nós não tínhamos uma posição específica. Então, depois disso, eu tive Sven-Goran Eriksson na Roma e ele jogava em um 4-4-2 e Arrigo Sacchi no Milan, então eu comecei a treinar e tinha a ideia de jogar em um 4-4-2”, contou o treinador. “E esta ideia mudou depois do Parma quando eu conheci Zidane, eu queria tê-lo em uma posição confortável para ele”.

“A experiência na Juventus foi boa na minha opinião porque eu entendi realmente bem como o clube tem que trabalhar para o técnico, então o clube me deu muito apoio nisso. Não importa se eles me demitiram ao final do segundo ano, até o último dia na Juventus, eu entendi como o clube tem que trabalhar pelo técnico, para apoiá-lo, para ajudá-los em frente aos jogadores, para dar ao treinador o poder que ele precisa para dirigir os jogadores”.

“Senti no Milan como se estivesse em casa”

Depois da Juventus, Ancelotti foi escolhido como técnico do Milan, em 2001. Ele iniciaria um período que se tornaria histórico para o clube e para ele, pessoalmente. O ex-jogador do clube tornaria a história rossonera ainda mais gloriosa com conquistas e times históricos sob o seu comando.

“Primeiro de tudo, eu acho que o fato de eu estar no Milan como técnico tendo jogado lá, eu conhecia a estrutura do clube, eu conhecia alguns dos jogadores que eu dirigi no Milan tinham sido meus companheiros, como [Paolo] Maldini, [Demetrio] Albertini, [Alessandro] Costacurta, então isso me ajudou no começo a construir um bom período no Milan”, analisou o técnico. “Eu estava realmente confortável no Milan porque o apoio que eu tinha era realmente forte. Eu senti no Milan como se eu estivesse em casa, como uma família”.

“A final contra a Juventus [na Champions League de 2003] foi uma boa revanche para mim, mas não foi uma vingança. Eu acho que aquela vitória foi realmente importante para mim porque a Champions League em 2003 foi meu primeiro título como treinador e, por esta razão, foi realmente importante”.

Foram oito longos anos no Milan, com muitos títulos, que durou de 2001 a 2009. Foi quando o técnico decidiu aceitar uma proposta para, pela primeira vez na carreira, mudar de país. Foi convocado a dirigir o Chelsea, mesmo significando uma mudança cultural importante, incluindo uma nova língua também.

“Eu acho que foi a decisão certa para os dois lados. Não foi tão difícil porque depois de oito anos, eu precisava mudar e, ao mesmo tempo, talvez o clube precisasse de mudança, então decidimos fazer isso juntos. Foi o momento certo para decidir, eu queria ter uma nova experiência fora da Itália, então eu tive a oportunidade de ir para o Chelsea. Mas foi uma boa decisão, não foi difícil escolher”.

A passagem pelo Chelsea

“O segundo ano foi mais difícil, mas o primeiro ano foi realmente fantástico. O clube tinha a Champions League como objetivo, mas o fato que no primeiro ano nós ganhamos a Premier League e a Copa da Inglaterra foi realmente importante e realmente empolgante”, contou o técnico.

“O segundo ano foi mais difícil, eu acho, porque nós tivemos algum problema. Nós tivemos [Didider] Drogba com malária e esses tipos de problemas. Nós começamos realmente bem e nós finalizamos realmente bem, mas no meio da temporada não foi tão bom”.

“Drogba era fantástico. No primeiro ano, ele marcou 36 gols, mas mencionar Drogba significa esquecer [Nicolas] Anelka, por exemplo, [Florent] Malouda, Joe Cole, [Salomon] Kalou, Michael Ballack no meio, [Michael] Essien, Deco, e atrás Alex, [Branislav] Ivanovic, Ashley Cole, então o time era realmente fantástico”.

“Quando eu cheguei, o time estava lá, eu não construí o time, então eu estava realmente empolgado para treinar esses jogadores com esse tipo de força. Imagine quando era preciso preparar as bolas paradas, você tinha John Terry, Alex, Drogba, Ballack para pular, então não era difícil fazer gols em bolas paradas”.

“Eu não estou surpreso [em ver Lampard como técnico] porque como jogador, Frank tinha qualidades táticas fantásticas. Eu estou esperando agora por Terry como técnico, agora ele é assistente, mas eu acho que ambos têm qualidades para serem bons treinadores. É claro, Frank tem ido muito bem no Chelsea agora”.

Itália x Inglaterra

“É mais agradável [treinar na Premier League], definitivamente. Há menos pressão por parte dos torcedores e o clima é melhor na Inglaterra”, contou. “Eu voltei para a Itália depois de nove anos e não mudou muito, a pressão é a mesma com os torcedores, há muita violência. O futebol italiano está tentando mudar, mas não é fácil mudar a cultura de um país onde infelizmente ainda há violência e agressão”.

“Aqui na Inglaterra, as pessoas no estádio, e eu estou falando apenas no estádio, são mais respeitosas”, afirmou Ancelotti, que depois do Chelsea passou pelo Paris Saint-Germain, Real Madrid, Bayern de Munique e Napoli. Em 2019, foi contratado pelo Everton, onde está até agora tentando recolocar os Toffees em uma posição alta na tabela.

O sonho do Real Madrid

“Eu acho que quando você é técnico, você tem que tentar comandar o Real Madrid um dia na sua vida. Eu passei dois anos lá e foi uma experiência inesquecível porque eu acho que o Real Madrid é o melhor clube do mundo pela imagem que tem no exterior”.

“Todo lugar que fomos, em todo país, há muitas pessoas que querem ver você, apoiar o time, então é uma experiência inesquecível, uma grande organização, um fantástico centro de treinamento e um fantástico time quando eu cheguei”, contou o treinador, que conseguiu o título da Champions League de 2013/14, a chamada “La Decima”, conquistada pela primeira vez desde a temporada 2001/02.

“O time teve alguns problemas nos anos anteriores quando eu cheguei lá. O fato que eles não eram capazes de vencer a Champions League por 12 anos era como uma obsessão para eles porque o Real Madrid estava acostumado a ganhar muitas Champions League. Eu tive sorte no primeiro ano para ganhar [na temporada 2013/14]”.

“Você não precisa construir um time em volta de Cristiano Ronaldo e, como eu disse com Zidane, você tem que colocá-los do modo mais confortável no campo. Eu não acho que você precise criar táticas muito estritas com esse jogador defensivamente, porque há jogadores que estão envolvidos na fase ofensiva e há jogadores que estão envolvidos na fase defensiva”.

“É claro, eles têm que trabalhar juntos porque o time é a parte mais importante do jogo, mas os atacantes como Ronaldo que são capazes de marcar em todos os jogos, você não precisa dar muitas informações defensivas”, continuou o treinador. “É o jeito mais fácil de ser técnico, dirigir um jogador fantástico porque eles são profissionais, eles são sérios, eles têm personalidade, eles são motivados, então é o jeito mais fácil”.

“Sergio Ramos também tem uma qualidade fantástica. Eu acho que a melhor qualidade que ele tem não é tática, não é técnica, é de personalidade que ele tem e a habilidade de motivar as pessoas ao redor dele, ele estava sempre no melhor quando o jogo era importante e nos momentos chaves do jogo”.

No Everton, de volta à Inglaterra

“Primeiro de tudo, eu queria voltar para a Itália [depois de sair do Bayern]. Eu tive uma experiência no Napoli e foi uma boa experiência, mas se eu tivesse que escolher uma liga, eu queria voltar para a Premier League pela atmosfera que ela tem”.

“O fato que eu tive a oportunidade de vir para o Everton foi realmente importante. O Everton é um clube com uma história fantástica, uma fantástica tradição e eles têm o objetivo de voltar ao topo. Nós estamos tentando fazer isso, se nós formos capazes depois da COVID-19, nós iremos tentar o nosso melhor”.

“Eu sinto falta dos meus jogadores. Na minha comissão técnica, nós estamos em contato com eles, eles estão trabalhando muito em casa, mas é claro, todo mundo gostaria de recomeçar logo. Este não é o comportamento confortável de como gostaríamos de trabalhar ou passar o tempo juntos. O jeito que eu gosto mais é ficar com meus jogadores e treinar com eles, trabalhar com eles, falar com eles e eu espero que em breve nós seremos capazes de fazer isso”.

“Eu acho que todo mundo no clube está tentando estar no topo em breve. É claro, há muita competição aqui na Premier League, mas eu acho que nós temos uma possibilidade. Nós temos um bom objetivo, nós estamos construindo um novo estádio, então nós sabemos que atrás de nós há torcedores fantásticos que nos ajudam a estarmos motivados. Eu acho que em breve, poderemos ser competitivos”.