Carlo Ancelotti tem fama de ser um cara gente boa. O tipo de treinador que é próximo dos jogadores, prega um bom ambiente e sabe administrar o vestiário. Mas somente enquanto as coisas estão dando certo. Quando a fase é ruim, a história se repete: cobra-se que o italiano ‘use o chicote’, ou seja, seja mais duro nas cobranças ao elenco. Em entrevista ao Corriere della Sera, Ancelotti falou que talvez o Milan, no qual fez seu trabalho mais longo, tenha sido o único clube que não pediu que ele mudasse sua personalidade.

“Incomoda que, quando as coisas não estão indo bem, eles me dizem: ‘ah, você tem que usar o chicote, você é bom demais, você é muito gentil e descontraído com os jogadores’. Mas eu digo: os líderes do futebol não sabem como eu treino? Você não pode me contratar e depois me dizer para mudar meu jeito, não apenas o treinamento, mas meu jeito de ser. Porque eu sou assim e foi assim que o sucesso veio”, afirmou.

Questionado se esse foi um dos motivos por trás do seu desgaste no Napoli, Ancelotti afirmou que sim, mas que não foi exclusividade do clube do sul da Itália. “Também aconteceu no Chelsea, aconteceu no Paris Saint-Germain. Eu ganhei muito, eu sei, mas os momentos difíceis estiveram em todo lugar. Mesmo no Milan houve passagens difíceis. Mas talvez o Milan tenha sido o único que não me disse ‘use o chicote’. Porque eles me conheciam”, disse.

O trabalho de Ancelotti pelo Napoli começou bem, com um vice-campeonato isolado em sua primeira temporada. A segunda começou a degringolar de verdade após um motim dos jogadores que se recusaram a ir a uma concentração mandatária em meio a uma sequência de maus resultados. “De Laurentiis disse: ‘Estou pensando em mudar’. Eu disse: ‘Você tem certeza?’. Ele disse: ‘sim’. Então eu disse: ‘Ok, então procurarei outra equipe’. Eu não queria ficar parado e ser pago sem trabalhar. Treinar na Inglaterra é fascinante e o Everton é ambicioso”, afirmou.

Segundo Ancelotti, as “coisas combinaram” para que ele assumisse o Everton, por ter sido demitido quase ao mesmo tempo em que o clube inglês mandou Marco Silva embora. E apesar das dificuldades no Napoli, não se arrepende da experiência. “Fui para Nápoles porque, depois de nove anos no exterior, queria voltar à Itália, e Nápoles parecia um lugar interessantes. Digamos que não terminou bem, mas foi uma boa experiência. Viver em Nápoles é uma das coisas mais bonitas que podem acontecer. Em parte por causa dos resultados, em parte por outras dificuldades, o relacionamento terminou”, explicou.

Agora, está no Everton. Desde que chegou, apenas o Liverpool, com 24, somou mais pontos na Premier League do que o seu time, com 17. A rivalidade entre os grandes da cidade foi descrita por Ancelotti como “sem ódio, nenhuma diferença geográfica, social, política ou religiões entre os fãs”, o que também combina com a principal diferença, na sua opinião, entre o futebol italiano e inglês.

“Se alguém estiver acostumado ao futebol italiano, encontra outro mundo. Não estou falando da intensidade do jogo, não é o que faz a diferença. É um ambiente diferente. Na Inglaterra, você não é ofendido, por exemplo. O insulto é irritante. Em alguns estádios italianos, você tem a imprensa de que as pessoas o odeiam, talvez porque você tenha mudado de time. Um cara fica atrás do banco e joga insultos em você por 90 minutos. Aqui, isso é impensável”, finalizou.