O momento no Bayern de Munique, inconsistente na Bundesliga, não é o mais favorável. Mas não tem como negar a relevância de Carlo Ancelotti como treinador, por tudo o que representa. Nesta semana, o italiano volta ao foco. Terá um reencontro com seu antigo clube, o Paris Saint-Germain. Visita o Parc des Princes para oferecer o primeiro desafio de peso ao time de Unai Emery na temporada. O jogo será um termômetro importante aos dois clubes, além de valer bastante na briga pela liderança da chave na Liga dos Campeões.

Aproveitando a viagem à França, Ancelotti conversou com o Le Figaro, um dos principais jornais franceses. Discutiu não apenas sua passagem pelo PSG ou seu momento à frente do Bayern, como também trouxe reflexões interessantes sobre o papel de um treinador e sobre a sua relação com o futebol. Abaixo, destacamos alguns dos principais trechos:

– A paixão pela profissão

Sou um homem muito feliz com minha carreira. Eu amo o que eu faço, o que eu sou. Mas é difícil falar disso. Eu gosto de treinar todos os dias, mesmo se estou sendo criticado. Eu estou em Munique, falo com os jogadores, trabalho com meus assistentes, preparo os treinamentos, as táticas para os jogos. Eu não poderia ser mais feliz. O futebol é minha paixão, jamais um trabalho. Por todas essas razões, eu vou te dizer que eu não sinto muito a pressão. Os problemas que eu posso ter são ligados ao futebol, não à vida em geral. Isso não me impede de dormir. Todos os anos eu sei o que se passa. Com minha experiência, é mais fácil compreender, encontrar as soluções. Não tenho surpresas. Eu ainda quero treinar por mais 10 ou 15 anos, não tenho problemas com isso. É um trabalho estressante, todos os dias, muito difícil. Mas estar com meus jogadores todos os dias e trabalhar é só alegria.

– A maneira de lidar com a pressão

Eu não sinto muito a pressão no Bayern porque eu não leio os jornais. Você sabe por que? Porque eu não entendo a língua (risos). Há uma pressão que você não pode controlar e outra na qual você pode agir. Esse é o meu papel. Quando os jogadores não estão contentes, têm problemas, eu posso agir. Quanto à crítica que vem de fora, isso não deve ser focado.

– As maiores dificuldades como treinador

Gerir os jogadores. Motivá-los todos os dias, escutá-los. O mais delicado não é uma coisa técnica ou tática, mas psicológica. Você não fala com um jogador, e sim como uma pessoa. Eu sou próximo da pessoa, não do jogador. Isso é sutil. Pessoalmente, eu não sou treinador, eu faço o papel de treinador, idem para o jogador. Essa nuance é indispensável. Eles entendem e apreciam isso. Quanto mais experiente for o jogador, mas fácil é lidar com esse lado psicológico.

– As vantagens de Munique

Aqui nós temos dois presidentes que foram jogadores e que compreendem o futebol, assim como os problemas do cotidiano em um vestiário. Um presidente que jogou sabe o que se passa e entende diferentes reações. Além do mais, Munique é uma bela cidade, as pessoas te respeitam, você pode ir ao cinema ou ao restaurante sem ser incomodado. Minha única dificuldade é a língua. Eu tenho aulas três vezes por semana, mas a gramática é complicada, então eu tenho mais problemas do que tive com o francês ou o inglês.

– As lembranças de Paris

A minha melhor lembrança no PSG foi a conquista da Ligue 1, depois de 14 anos de espera. Eu tenho uma boa memória da minha passagem por aqui. Eu ajudei o clube a se organizar, a mudar a mentalidade, e o PSG conseguiu crescer um pouco mais depois disso. Apesar dos problemas após minha saída para o Real Madrid, quando eu penso em Paris, eu sou feliz. Eu fico contente por reencontrar o Parc des Princes, os torcedores e os jogadores com quem trabalhei. Temos uma boa relação, sinto falta deles. Também mantenho contato com o presidente. Sinto muita falta também da Torre Eiffel! Eu tinha uma vista suntuosa da minha casa, era difícil não ser feliz lá. Tive uma boa experiência na vida pessoal e na profissional. Fui respeitado e adorava a cidade. Eu, que gosto de boa comida, sou nostálgico de certos restaurantes da capital.

– Único arrependimento em Paris

Eu me arrependo do fim da minha história com o PSG. Não tive uma boa atitude, porque eu queria sair e o clube queria que eu seguisse à frente da equipe… Tivemos pequenos problemas. Foi um período difícil e a relação com Nasser era complicada, mas o tempo resolveu isso. Hoje, os contatos são bons. Eu enviei uma mensagem depois da primeira partida contra o Barcelona, na Liga dos Campeões, dando os parabéns pela atuação fantástica e desejando boa sorte para a volta. Mas depois da eliminação eu não tive coragem de enviar outra mensagem… Algo incrível aconteceu, como na minha final da Champions em 2005 com o Milan.

– A ambição do PSG em conquistar a Champions

Você pode ter a ambição de conquistar os títulos, mas não significa que você conseguirá. A competição na Europa é feroz. Além dos grandes clubes tradicionais, nesta temporada você pode somar o Manchester City, o Tottenham e o Liverpool, que eu vejo com bons olhos.

– Verratti no Barcelona

Eu não gosto muito dessas discussões de mercado, desse tipo de comportamento. Durante a janela, há muitos jogadores que desejam ir para outro clubes, mas eu não sei realmente se eles querem sair ou se tentam melhorar os seus contratos. Sobre Verratti e o Barcelona, ele queria melhorar seu contrato, eu o conheço (risos).

– Como se vê dentro de 15 anos, já aposentado

Em algum lugar do mundo assistindo a jogos de futebol. Eu gosto muito de fazer isso. Em casa, eu assisto a todos os jogos possíveis. Não tenho problemas com minha esposa por isso. Em casa, não quero trazer meus problemas ou aborrecimentos do dia no clube. A vida com minha esposa é tranquila, estamos bem juntos. Quando mudamos de país, eu naturalmente a consulto, a opinião dela é muito importante para mim. Ela fala inglês, espanhol, francês e não tem dificuldades de se adaptar. Se você não tem problemas em casa, se sai melhor no trabalho. Esse é o meu caso.