A conquista da décima copa europeia não foi o suficiente para manter Carlo Ancelotti no Real Madrid além da temporada seguinte. A saída foi um pouco surpreendente, apesar de ter acontecido ao fim de um ano sem grandes títulos. Segundo o treinador italiano, atualmente no Napoli, os problemas com o presidente Florentino Pérez começaram quando decidiu substituir Gareth Bale em um jogo contra o Valencia, incomodado com o excesso de egoísmo do galês. 

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“Altruísmo é um fator importante em um grupo. E, se tem uma coisa que me deixa louco, é egoísmo em campo. Quando um jogador tem que passar a bola e não passa. Eu paguei por isso pessoalmente. No Real Madrid, a razão que deu início às discussões com Florentino Pérez foi uma substituição que fiz com Bale. Ele tinha que passar a bola para Benzema, que teria marcado com o gol vazio, mas, em vez disso, chutou. Eu o tirei de campo” afirmou, em entrevista ao Il Napolista. “Para um atacante, excesso de altruísmo é uma limitação, talvez. Um pouco de egoísmo funciona, mas não pode ser exagerado”. 

Ancelotti herdou de Maurizio Sarri uma equipe com uma característica muito bem definida, fã do toque de bola e de tentar envolver os adversários. Mas ele acredita que o excesso de passes mais atrapalha do que ajuda. “Acho que a posse de bola é importante para controlar o jogo, mas tem que ser finalizada. Apenas olhe para como o papel do goleiro mudou. Atualmente, ele joga com o time. As estatísticas dizem que os jogadores que mais tocam a bola são os dois zagueiros e o goleiro. para mim, há algo errado. Ter uma posse de bola baixa é naturalmente mais fácil, mais simples, mas não muito eficiente”, afirmou. 

“Você sabe quantas vezes um time marcar depois de mais de vinte passes? Em um ano, pode acontecer duas vezes. Você marca depois de seis passes. Se houver a possibilidade de sair jogando de trás, melhor. Mas, se houve risco, é melhor desistir. Quantas vezes o Atlético de Madrid tentou sair jogando de trás (contra a Juventus)? Eu digo: nunca. Claro que é uma questão de qualidade. Não tem defensores apropriados para esse tipo de jogo, provavelmente não tem um goleiro apropriado para esse tipo de jogo. Então, o que faz? Tenta tirar vantagem das características dos jogadores que têm disponíveis”, acrescentou. 

Ancelotti acredita que esse estilo de jogo pode fazer com que haja uma modificação nas regras. “Se continuar assim, acredito que é possível que se proíba o passe para o goleiro, mesmo que ele não agarre a bola com a mão. Ninguém ainda pensou nisso, mas eles mudarão as regras. Às vezes é exasperador. Fica difícil pressionar o goleiro. Às vezes, tentamos, mas é muito arriscado. O Napoli é um time que faz pressão alta porque queremos fazer, mas, quando você faz pressão alta, há um risco de ter que cobrir muito gramado. Uma coisa é pressionar no seu campo, outra é pressionar o goleiro adversário. Você tem que manter os defensores na linha de meio-campo, com metade do gramado descoberto. Se a pressão for ruim, é um gol. No começo, com o Napoli, sofremos dois ou três gols com o campo completamente aberto. E, então, dissemos: vamos esperar a passagem”, disse. 

Pelos seus conceitos, um time que Ancelotti admira é o Atlético de Madrid. “O Atlético de Madrid não joga mal, ele faz com que você jogue mal. Ele não deixa você jogar como quer. Por muitas razões. A primeira é porque são muito bem organizados. Mas também pela estrutura psicológica. Eles são muito agressivos em todas as situações. Mesmo com o árbitro. Ao longo do tempo, eles melhoraram. Agora, jogam mais futebol, mesmo que joguem um futebol que possamos definir como diferente do normal. Eles buscam muita substância e pouca estética”, encerrou.