Foi um massacre. Mais um, aliás. O Barcelona impôs seu estilo de jogo mais uma vez. Com 82% de acerto de passes, conseguiu manter o domínio da bola por 72% da partida. O Real Madrid, pobrecito, só pôde fazer o jogo em 28% do tempo. Com 62% de acerto, não conseguiu quebrar o sistema barcelonista, e virou expectador do baile catalão. De novo.

Tudo bem, os números da posse de bola foram realmente esses, mas o Real Madrid venceu no Camp Nou por 2 a 1. E não venceu por circunstâncias da partida, ou por lances isolados. O Real realmente (putz, que construção frasal feia) mereceu vencer, foi superior durante quase toda a partida, e soube impor seu futebol. E aí que está: depois de tantas pauladas para o Barcelona, os madridistas aprenderam como fazer seu jogo mesmo sem a posse de bola.

Os 5 a 0 do primeiro turno da temporada 2010/11 traumatizaram Mourinho, que ficou viciado em escalar o Real com três volantes para congestionar sua intermediária e impedir a troca de passes do Barça. Salvo uma vitória na final da Copa do Rei, nunca funcionou. Os merengues acabavam abusando das faltas, ou ficavam acuados por não terem meios de tentarem o ataque quando recuperavam a bola. E a postura medrosa ainda deixava o time em inferioridade psicológica, sempre sujeito à implosão ao primeiro golpe barcelonista.

Neste sábado, a equipe branca fez tudo diferente. Jogou no seu 4-2-3-1 de sempre, com Xabi Alonso e Khedira protegendo a defesa, Özil, Cristiano Ronaldo e Di Maria na armação e Benzema na frente. E o Real não se irritou por não conseguir impedir a troca de passes do Barcelona. E foi suficiente.

A diferença esteve no modo como o time de Mourinho usou seus recursos. Sem a bola, todo mundo voltou. Di Maria era um terceiro volante de tanto que recuava. A linha de marcação, iniciada por Benzema, muitas vezes estava em cima de Busquets. Desse modo, o Barcelona tinha seis jogadores (Daniel Alves, Xavi, Iniesta, Tiago, Messi e Tello) enfiados entre os onze madridistas. O time até tocava a bola, mas não havia espaço para tanta movimentação. O Real deixou o Barcelona se ver sem opções.

Aí, aparece a segunda fase da estratégia. Quando recuperava a bola, o Real tinha saída. Cristiano Ronaldo, Benzema e um entre Di Maria e Özil avançavam. Khedira, ZXabi Alonso e o meia que não avançou entre Di Maria e Özil davam condições para uma ligação rápida. O objetivo era resolver as jogadas rapidamente, sem dar tempo para a defesa blaugrana se recompor e iniciar sua marcação pressão.

A idéia não era “ser objetivo”, naquele sentido que se imagina de “atacar pouco, mas aproveitar bem as poucas oportunidades”. O Real atacou muito, aceitando que a velocidade nas jogadas acarretariam um índice normal de desperdício de oportunidades e mesmo de perda da posse de bola. Veja a produção ofensiva das duas equipes:

Com 72% de posse de bola, o Barcelona finalizou 14 vezes (três em direção ao gol), ficou cinco vezes impedido, cruzou 11 vezes e teve quatro escanteios. O Real Madrid, com apenas 28% de posse de bola, finalizou 14 vezes (seis em direção ao gol), ficou três vezes impedido, cruzou 13 vezes e teve sete escanteios. Ou seja, o Real produziu tanto quanto o Barça mesmo tendo a bola por pouco mais de um quarto do jogo. Aí está o equilíbrio do jogo, a mostra de que os merengues fizeram seu jogo, e não se limitaram a marcar e contar com jogadas esporádicas para vencer.

Para isso ser possível, o time merengue contou com dois fatores psicológicos fundamentais. Primeiro, o empate por 2 a 2 no jogo de volta das quartas de final da Copa do Rei. O Real perdia por 2 a 0 no Camp Nou e, praticamente eliminado, decidiu ousar e se abriu. Acabou conquistando o empate e ganhando a convicção de que não era preciso se fechar para bater o Barcelona. Segundo, o momento das duas equipes.

O Barça é tratado por todos como o melhor time do mundo e superou o Real em três oportunidades nesta temporada (Supercopa da Espanha, jogo do primeiro turno pelo Campeonato Espanhol e Copa do Rei), mas vários fatores, sobretudo nos últimos três meses, deram a impressão de que os merengues poderiam ter chegado ao mesmo nível. Os catalães entraram em campo sem a mesma confiança de antes, ainda mais vindo de uma derrota na LC.

Por isso, essa vitória merengue pode aumentar ainda mais o momento psicológico das duas equipes. Não que o resultado afunde o Barcelona em crise. Os catalães ainda são favoritos contra o Chelsea, mas talvez entrem com outra cabeça em uma eventual final europeia contra o Real. O duelo, que vinha se mostrando muito favorável aos blaugranas, agora fica equiparado. Sem complexo de inferioridade do Real, as próximas edições do clássico espanhol tendem a ser ainda mais espetaculares e imprevisíveis.