O ímpeto costuma ser um elemento essencial no futebol. É ele que transforma mentalidades, que faz times superarem o seu máximo, que ignora o impossível num estalar de dedos. Se a modalidade é tão imprevisível, o ímpeto tem grande papel nisso, assim como a torna mais apaixonante por evidenciar a vontade de vencer a cada impulso. Nesta quarta-feira de Liga dos Campeões, esta palavrinha também ditou a ordem na Johan Cruijff Arena, em Amsterdã. O Ajax terminou o duelo contra a Juventus aplaudido não apenas por sua torcida presente nas arquibancadas, mas por todos aqueles que admiram o futebol total remodelado nesta nova geração extremamente competitiva. Os Godenzonen não temeram a Juventus e tiveram justamente o tal ímpeto para jogar no limite, protagonizando outra partidaça na competição continental. De certa forma, foi uma atuação mais madura que o duelo em casa contra o Real Madrid, pelas oitavas de final. No entanto, os bianconeri contaram com Cristiano Ronaldo, sempre impetuoso, fatal ao resultado. O gol do artilheiro deu uma vantagem à Velha Senhora que pouco correspondeu ao primeiro tempo, até que os garotos ajacieden reagissem e David Neres, brilhante na etapa complementar, anotasse o tento que manteve o embate aberto até o apito final. A igualdade em 1 a 1 levará a definição para o reencontro em Turim.

O Ajax entrou com a sua escalação principal para encarar a Juventus. Os principais destaques dos Godenzonen estavam em campo. No meio, a trinca formada por Frenkie de Jong, Lasse Schöne e Donny van de Beek. Já na frente, muita movimentação e qualidade técnica com David Neres, Hakim Ziyech e Dusan Tadic. A Juventus, por sua vez, realizou modificações em relação à classificação contra o Atlético de Madrid. Massimiliano Allegri desta vez confiou no 4-3-3, com Daniele Rugani acompanhando Leonardo Bonucci na zaga. O meio tinha Miralem Pjanic, Blaise Matuidi e Rodrigo Bentancur. E a boa fase de Federico Bernardeschi continua reconhecida, com o jovem formando parceria ao lado de Mario Mandzukic e Cristiano Ronaldo.

Exceção feita a um chute de Bernardeschi para fora, logo no primeiro minuto, o Ajax mandou no início da partida. O time de Erik ten Hag impunha a sua intensidade e parecia disposto a abrir seu caminho logo de cara. Botava muita pressão na marcação, dificultando demais a saída de bola dos italianos. Além disso, trabalhava os passes e buscava as brechas na defesa adversária. Quando sobrava espaço, os holandeses não tinham pudores para arriscar. Quase toda bola passava pelo carimbo de Tadic, se movimentando e tentando abrir a marcação bianconera. A definição ficava principalmente sob a responsabilidade de Ziyech, testando Wojciech Szczesny.

Ziyech assustou bastante aos cinco minutos, ao acertar a rede pelo lado de fora. Depois, aos 11, exigiu uma boa defesa Szczesny. E o goleiro operaria um milagre aos 17, novamente no duelo particular com o marroquino. O ponta de um tapa cheio de categoria mirando o ângulo e o polonês foi buscar, espalmando para fora. Diante de tamanha intensidade do Ajax, o jeito para a Juventus era prender a bola no campo de defesa e esfriar o brio dos anfitriões. Aos poucos, o ritmo caiu, mas nada que atrapalhasse a superioridade dos Godenzonen.

Vez ou outra, a Velha Senhora avançava ao ataque. Jogava a partir dos erros do Ajax na saída de bola, tentando pegar a linha de zaga holandesa desprotegida. Bernardeschi era quem mais aparecia, sem concluir da melhor maneira as jogadas. Além disso, os Ajacieden demonstravam um tempo de bola impressionante. De Ligt e De Jong realizaram desarmes fantásticos no limite, para evitar problemas maiores à sua equipe. Era uma atuação atenta e segura do time da casa.

A melhor chance do Ajax aconteceu aos 24 minutos. Van de Beek recebeu com liberdade dentro da área e teve espaço suficiente para chutar cruzado, em arremate que lambeu a trave de Szczesny. Porém, as linhas de marcação da Juventus se encaixaram e o time se expôs cada vez menos aos arremates dos Godenzonen. Do outro lado, as chegadas se tornavam mais frequentes. Cristiano Ronaldo, Bentancur e Bernardeschi deram seus avisos depois dos 30, quando os holandeses também não apresentavam o mesmo fôlego para amassar os italianos. E um instante de desleixo permitiram que a Velha Senhora abrisse o placar aos 45. Uma fresta e Cristiano Ronaldo não perdoou.

Cristiano Ronaldo cumprimenta Frenkie de Jong (Getty Images)

O gol nasceu em um lance no qual a defesa do Ajax tentou abafar a saída de bola da Juventus, em uma cobrança de lateral. Bentancur fez um excelente trabalho ao avançar pelo meio e aproveitar as aberturas na intermediária holandesa. Passou a Cristiano Ronaldo, que já virou e abriu com Cancelo na direita. O lateral tem seus méritos, ao cruzar com perfeição. Todavia, foi o instinto do artilheiro é que valeu o tento. O camisa 7 disparou e, ao mudar de direção na corrida, explorou justamente o clarão entre os marcadores alvirrubros. Apareceu totalmente livre dentro da área, para a cabeçada fulminante que saiu do alcance de André Onana. De fato, os Ajacieden foram melhores na etapa inicial – mais intensos e mais perigosos. Faltou a eficiência dos juventinos. Faltou o poder de fogo de Cristiano Ronaldo.

Não quer dizer, todavia, que o Ajax carece de talento em seu time. E cerca de 30 segundos da etapa complementar foram suficientes para comprovar que os holandeses conseguiriam reagir. Este foi o tempo necessário para o empate, anotado por David Neres. O brasileiro fez de tudo um pouco no lance. Primeiro, acreditou, ao se aproveitar do erro de Cancelo, que tentou evitar a saída de bola e deixou o presente ao adversário. Depois, teve objetividade para arrancar e invadir a área. Sobrou também habilidade, com um corte seco sobre o lusitano quando ele buscava se recuperar. E mesmo sem muito equilíbrio, o ponta conseguiu desferir um chute repleto de capricho, colocado, saindo do alcance de Szczesny. Pintura que dava nova vida aos Godenzonen para os 45 minutos finais.

O lance animou o Ajax. Tagliafico chutou com muito perigo e depois Neres anotou um gol bem anulado por impedimento. O domínio voltava aos pés dos anfitriões e a Juventus apresentava as dificuldades do começo do jogo. Exceção feita a uma cobrança de falta venenosa que passou por todo mundo na área, a equipe italiana pouco criava. Allegri tentou aumentar a velocidade nos contragolpes, com Douglas Costa no lugar de Mario Mandzukic, mas a alteração não surtiu efeito imediato. Enquanto isso, de tempos em tempos, os Ajacieden apertavam a defesa bianconera. Neres voltou em chamas do intervalo e encabeçava os melhores lances, combinando velocidade nas investidas e frieza na tomada de decisões. O gol até pareceu amadurecer por volta dos 20 minutos, mas Szczesny manteve a segurança e a defesa também travou quando necessário.

Enquanto Paulo Dybala entrou no lugar de Matuidi, o Ajax confiou em mais um garoto: Jürgen Ekkelenkamp, 19 anos, substituindo Schöne. Pois o prodígio quase deu a virada para os holandeses aos 37, em uma boa trama de seu ataque, com direito a um passe de calcanhar de Tadic. Ficou com o caminho aberto e bateu firme, mas Szczesny realizou outra defesa providencial. Só que do outro lado a Juventus ainda jogava por uma bola, e ela quase surgiu em lance brilhante de Douglas Costa. O brasileiro arrancou a toda velocidade pela esquerda. Deu um drible desconcertante em Joël Veltman, ganhou de Ziyech na corrida e, ao bater cruzado, terminou acertando a trave de Onana. Lamento enorme pelo lance cheio de malícia. Naquele momento, com o relógio batendo quase os 40 minutos, os times indicavam seu desgaste e a vitória dependeria de um lance individual. Cancelo incomodou duas vezes pela direita, mas seus cruzamentos pararam em Onana. Já nos acréscimos, Tadic tentou a última dos Godenzonen, em chute que carimbou a marcação e saiu pela linha de fundo. O empate seria imutável em Amsterdã, deixando a definição para a próxima terça, em Turim.

As virtudes do Ajax mais uma vez são evidentes. Mesmo possuindo um time bem menos badalado que a Juventus, primou pela qualidade técnica e pelo trabalho coletivo quase sempre afinado. É impressionante a maneira como uma multidão de jogadores parece se movimentar em perfeita sintonia num curto espaço, como foi sobretudo no começo do primeiro tempo. Obviamente, alguns erros poderiam custar caro, mas os Godenzonen também sabiam o preço disso ao arrisca-los. E só o fizeram graças ao ímpeto, que também poderia ter resultado na vitória. Enquanto Ziyech foi o mais participativo do time, também merecem elogios David Neres e Tadic, além de De Jong, ditando o ritmo na faixa central. A Juventus, por outro lado, se acomodou em seu jogo defensivo e confiou naqueles que poderiam fazer a diferença individualmente. Cristiano Ronaldo valeu o resultado, enquanto Bernardeschi e Douglas Costa também ameaçaram bastante. Mais atrás, Rodrigo Bentancur é outro garoto que fez partida maiúscula para controlar as situações ao seu redor. Ao final, aguarda-se a definição de um cenário incógnito em Turim. A Juve é favorita em sua casa, pelo histórico competitivo e pelo peso de seu elenco. Entretanto, os Ajacieden mostraram mais de uma vez que não temem a ocasião e irão para cima ao menos em parte do duelo. Expectativa de outro jogaço, feito de vontade e talento.