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Peñarol recusa patrocínio por não aceitar a etnofobia do governo do Azerbaijão

O governo do Azerbaijão tem se aproveitado do futebol para fazer propagandas do país. O maior cartaz dos azeris se tornou o Atlético de Madrid, estampando em sua camisa a mensagem da “Terra de Fogo” durante a histórica campanha na última temporada. O detalhe que é ignorado pelos espanhóis, e que não se proclama no patrocínio, é a realidade de um país marcado por fraudes eleitorais, corrupção, repressão à oposição e desrespeito aos direitos humanos. Algo que os colchoneros fazem vistas grossas, mas que não foi admitido pelos sul-americanos. Após o San Lorenzo, o Peñarol também negou o dinheiro vindo do Azerbaijão.

Os carboneros passam por um processo eleitoral que escolherá o seu novo presidente. Mesmo assim, todos os candidatos já afirmaram que não aceitariam a proposta de patrocínio do governo azeri. Afinal, além da fortuna despejada (em valores não divulgados), há uma cláusula discriminatória na oferta: nenhuma pessoa de origem armênia poderia fazer parte da diretoria do clube.

A postura do Azerbaijão é motivada por conflitos históricos com a Armênia. A independência das duas nações, em 1918, originou uma guerra por territórios. O surgimento da União Soviética atenuou a questão, mas a queda iminente do regime comunista retomou as brigas a partir de 1988. Naquele ano estourou a Guerra Nagorno-Karabakh, tentativa de independência de uma região de maioria armênia no território azeri. As batalhas se seguiram até 1994, com o genocídio de cerca de 30 mil armênios – em uma história contada pelo Qarabag, clube de grande campanha na atual Liga Europa. Apesar do cessar-fogo, os tratados de paz nunca foram assinados. Armênios e descendentes são proibidos de entrar no Azerbaijão.

Independente do pano de fundo político, nada que justifique o pedido do Azerbaijão ao Peñarol. A atual cúpula do clube já conta com dois descendentes de armênios. “Sem importar o tamanho da organização que faz a oferta, nada pode impor condições de discriminação de raça ou religião. O Peñarol é um clube inclusivo”, afirmou Ignacio Ruglio, um dos candidatos à presidência dos aurinegros.

Uma oferta que também havia sido feita ao San Lorenzo, em tentativa de aproveitar a exposição dos cuervos na decisão da Libertadores e no Mundial de Clubes. A aproximação começou em julho e teve insistência dos azeris até novembro, mas os argentinos não cederam às cláusulas xenofóbicas. “Algumas vezes o poder do dinheiro tenta se sobrepor à história. É surpreendente como o dinheiro ocupa um lugar tão importante na nossa sociedade e pisa sobre a identidade. Nem tudo se compra, nem tudo se vende, há outras questões quando se tem convicções e princípios. Não há dinheiro que valha a ética, os sentimentos e o amor”, declarou Matías Lammens, presidente do Ciclón.

A imigração armênia para a América do Sul aconteceu de maneira massiva a partir da década de 1920, especialmente depois do genocídio realizado pelo Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial e que matou cerca de 1,5 milhões de pessoas. Embora a presença seja maior na Argentina, o Uruguai se tornou o primeiro país a reconhecer o genocídio, além de demonstrar seu apoio à Armênia na luta pela independência de Nagorno-Karabakh. Não é o dinheiro despejado pelo Azerbaijão, porém, que irá apagar essa história. O presidente Ilham Aliyev, que segue a linhagem de 40 anos de sua família no poder azeri, controla a imprensa e reprime a oposição em seu país. Na América do Sul, entretanto, está longe de exercer seus desmandos. Ainda bem. Que sirva de lição ao Atleti.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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